Eleições no México e movimento estudantil #YoSoy132

Neste domingo, realizam-se eleições no México. O (re)candidato Andrés Manuel Lopes Obrador apela a todas e a todos os mexicanos que estejam atentos e vigilantes durante as votações. A ele, juntam-se o movimento estudantil #YoSoy132, que desde Maio tem vindo a exercer um importante papel na democratização do ato eleitoral.

Irina Castro, Esquerda.net, 30 de junho de 2012

Os maias preveem uma grande mudança para 21 de dezembro de 2012, no entanto essa mudança chegará mais cedo à República Mexicana. Mais precisamente amanhã, dia 1 de Julho, quando os Estados Unidos Mexicanos se mobilizarão para decidir em eleições gerais os próximos governos executivos e legislativos. Entre a eleição do governo da federação, dos estados e dos municípios, bem como a eleição dos e das deputadas para o congresso e senadores, muitas são as candidaturas que tem levantado polémicas e incendiado o debate político nos vários níveis de organização da república. No entanto, tem sido a eleição do próximo (ou próxima)1 presidente da república que tem centrado a maioria das atenções e críticas dos mexicanos e mexicanas.

Governados há 12 anos pelo Partido Ação Nacional (PAN), impulsionador da guerra contra o narcotráfico que nos últimos 6 anos vitimou aproximadamente 70 mil pessoas, autorizou o exército a mover-se livremente nas ruas e que tem promovido políticas de segurança que apenas fomentam a insegurança2, a maioria dos eleitores e eleitoras parecem dispostos a transferir novamente a república para as mãos do Partido Revolucionário Institucional (PRI) que entre 1929 e 2000 governou hegemonicamente a federação e inundou o México de escândalos de corrupção, massacres de povos indígenas3, repressões a estudantes, e uma neoliberalização da economia mexicana que arrastou mais de metade da sua população para condições de miséria em detrimento das grandes multinacionais norte-americanas e um punhado de empresário mexicanos.

Hoje, reflete-se sobre os 3 duros meses de campanha eleitoral. Varrem-se os últimos panfletos distribuídos durante os encerramentos, vandalizam-se os últimos cartazes (que ficaram por vandalizar) dos partidos adversários. Pondera-se as últimas promessas proferidas, e alguns abrem as carteiras à compra de votos4. O (re)candidato da coligação entre o Partido Trabalhista (PT), o Partido da Revolução Democrática (PRD) e Movimento Cidadão, Andrés Manuel Lopes Obrador (Movimento Progressista), assina o acordo de não impugnar as eleições, mas apela a todas e a todos os mexicanos que estejam atentos e vigilantes durante as votações. A ele, junta-se o movimento estudantil #YoSoy132, que desde Maio tem vindo a exercer um importante papel na democratização do ato eleitoral e na denúncia do controlo, e manipulação de informação, por parte dos principais canais de comunicação. No entanto, por muito vigilante que esteja a esquerda e os estudantes, consta que 45% dos eleitores e eleitoras ainda desconhecem a forma correta de votar. Para estas eleições os boletins de voto foram alterados, suscitando dúvidas sobre as formas corretas de se obter um voto válido. O boletim não terá apenas o nome do candidato, mais sim dos partidos, o que significa que para o voto ser válido no caso de um candidato que concorra pelo seu partido basta assinalar com uma cruz o lugar correspondente, mas no caso de um candidato que concorra por uma coligação a e o eleitor poderá assinar um, dois, ou todos os partidos que estão em coligação. Isto até poderia parecer fácil se se só tratasse das eleições presidências onde os candidatos e as coligações são amplamente conhecidas. Acontece que a nível estatal, para as eleições de governadores e presidentes municipais, essas coligações mudam. Exemplo disso é o estado de Chiapas onde o candidato a governador, Manuel Velasco, se apresenta pela coligação entre o PRI, o Partido Verde, e o Partido Nova Aliança. Este último que nas presidenciais concorre contra a coligação Compromisso por México dos priístas e dos verdes. Parece estar tudo montado para haver grandes confusões nas urnas do dia 1.

Enrique Peña Neto o Ronald Reagan mexicano

Enrique Peña Neto é sem dúvida um candidato charmoso e galante, mas manhoso o suficiente para saber jogar com a sua imagem jovem, bem como a da sua esposa atriz de telenovelas nacionais, para fazer política. Por detrás do seu sorriso Colgate, ou do seu piscar de olho sedutor, esconde-se a impunidade política sobre o aumento dos feminicidios (Cidade Juárez), e das sucessivas violações dos direitos humanos durante o escalar dos distúrbios de Atenco (Texcoco) em 2006, altura em que Peña Neto era governador do Estado do México. Mas ele não representa só a máquina propagandista neoliberal, é também a cara de um PRI clientelista, e juntamente com Josefina Mota do PAN, de um sistema politico bipartidarista. É o novo rosto da velha corrupção e do desastre executivo priísta, da privatização dos recursos naturais, da desgraça do tratado de livre comércio da américa do norte, da perseguição indígena e de uma ecologia destruidora. No entanto, e apesar do que representa Peña Neto, o fato de estar a construir argumentos de segurança nacional por cima de 70 mil vítimas de uma guerra contra o narcotráfico promovida pelo atual governo panista (PAN), parece dar ao PRI terreno eleitoral suficiente para resgatar o seu discurso sobre saber negociar espaços de ação com o narco, que apesar de demagógico, parece cair bem nas inseguranças nacionais.

Apesar de tudo se há coisa que no México existe é a memória do seu passado, e nem sempre se sai impune socialmente, mesmo que legalmente não tenham sido atribuídas responsabilidades diretas por certos acontecimentos. No dia 11 de Maio de 2012, Peña Neto foi convidado como orador numa palestra na Universidade (privada) Ibero-americana (Ibero), cidade do México. Durante a sessão de perguntas, foi questionado sobre a sua atuação, enquanto governador, durante os acontecimentos de Atenco em 2006, onde muitas mulheres foram violadas por elementos das forças policiais. Seguro e galantemente, Peña Neto, assume total responsabilidade pelo sucedido, afirmando convictamente que nada poderia ter sido feito de forma diferente no sentido de manter a ordem e a tranquilidade na cidade. As suas palavras rapidamente originaram uma vaga de contestação que acabou por interromper a sessão e obrigou o candidato a refugiar-se momentaneamente numa casa de banho até ser escoltado pela sua comitiva para fora das instalações da universidade. Em resposta ao acontecimento, os principais canais de informação (Televisa, Tv Azteca e outros) iniciaram a difusão massiva das opiniões dos elementos priístas ou de pessoas relacionadas com o PRI que tentaram passar a ideia de que o protesto espontâneo dos estudantes teria ocorrido na verdade devido à presença de “porros”, isto é, pessoas pagas para criar conflitos políticos. No sentido de contestar essa tentativa de descredibilizar o protesto, 131 alunos e alunas da Iberio realizaram um vídeo onde mostravam os seus cartões de estudantes e declaravam que ninguém lhes havia pago ou mandado fazer o protesto. Esta demonstração de coragem acabaria por originar uma vaga de solidariedade já mais vista entre estudantes de universidades públicas e privadas, unindo mais de 50 universidade do país em torno dos 131 estudantes que entretanto já haviam recebido mensagens e telefonemas que colocavam a sua segurança em risco. Essa vaga de solidariedade seria semanas depois nomeada como movimento #YoSoy132 e relembra os velhos tempos de união estudantil de 68.

O Massacre de Tlatelolco

1968 ainda vive na memória de muitos e muitas mexicanas. Pela altura a universidade autónoma do méxico (UNAM) havia sido ocupada pelas forças militares a mando do então atual presidente Gustavo Diaz Ordaz Bolanõs (do partido PRI). A ocupação militar ocorreu devido aos protestos estudantis mexicanos que na altura seguiam o movimento de contra-cultura que se vivia em todo o mundo. Ainda assim, os estudantes não se calaram e invadiram as ruas da Cidade do México congregando-se na Praça das Três Culturas em Tlatelolco. Aí, foram surpreendidos por forças militares colocadas estrategicamente nos edifícios em torno da praça e que a mando de Gustavo Bolaños balearam indiscriminadamente todas as pessoas que lá se encontravam. As mortes continuaram durante toda a noite como consequência das rusgas militares. No total estimasse que 200 estudantes tenham sido assassinados em 68 e outras dezenas em 1970.

#YoSoy132

Depois do primeiro escândalo com a transmissão do debate presidencial no início de Maio, onde a Tv Azteca, uma das maiores cadeias de informação privadas do país trocou a transmissão do debate por um jogo de futebol, e depois de um segundo onde a assistente do sorteio de intervenções direcionou todas as atenções do debate para o seu decote, o movimento estudantil #YoSoy132, decidiu assumir um papel interventivo na denúncia da imparcialidade dos órgãos de comunicação. Decididos a tomar o presente nas mãos, estudantes de mais de 50 universidade de todo o país iniciaram uma campanha de denúncia sobre tendência dos órgãos de comunicação a favor do candidato priísta e exigindo informação limpa e transparente. Começaram então a mover-se em torno da exigência da transmissão de um debate em canal nacional, não tendencioso e esclarecedor. A sua luta acabaria por passar pela organização, no passado dia 19, do primeiro debate presidencial que envolveu um movimento estudantil e não o Instituto Federal Eleitoral. Presentes estiveram todos os candidatos com a exceção de Peña Neto que alegou não estarem garantidas as condições necessárias de imparcialidade. A sua ausência originou uma vaga de piadas e cartoons, onde o candidato que refugiava na casa de banho durante o debate do movimento.

Uma juventude sem medo

Certos que justiça e a prosperidade do país passa por tomar o presente nas mãos, os milhões de jovens estudantes mexicanos, mobilizam-se diariamente nas suas universidades pela continuidade do movimento estudantil nacional, contra a desigualdade, contra a pobreza e contra a violência que vive o México. Colocando-se a eles mesmos em posições de insegurança5, acreditam que resistir às políticas e à economia que cria essas desigualdades passa por empoderar as e os cidadãos mexicanos com informação. Resistir a uma economia e a políticas criadoras de desigualdades, passa por atribuir ao cidadão o poder de uma informação transparente e fidedigna que lhes permita fundamentadamente e esclarecidos, exigir e criticar os atores políticos, empresários e a própria sociedade. Para dia 1, querem um voto esclarecido, e apesar de se especular que mais de 14 milhões de estudantes irão votar pelo candidato presidencial de esquerda, Lopes Obrador, o movimento apresenta-se apartidarista. Só assim se constrói uma cidadania consciente e participativa, verdadeiramente livre na sua expressão e sem medo.

Artigo de Irina Castro para esquerda.net

1 Candidat@s: Josefina Mota (PAN); Peña Neto (PRI + Verdes); Lopes Obrador (PRD + PT + MC); Gabriel Quadri (Nova Aliança)

2 No passado dia 25 de maio três polícias federais foram assassinados no terminal 2 do aeroporto internacional da cidade do méxico por polícias federais corruptos.

3 Em 1997 dezenas de indígenas tzotziles foram assassinados por forças paramilitares (Massacre de Acteal) sobre o olhar do exército mexicano.

4 O Movimento progressista denunciou ontem a distribuição, por parte dos priístas, de mais de um milhão de cartões eletrónicos contendo 1000 pesos cada um (54 euros) e que estarão a ser usados para a compra de votos a favor do candidato Peña Neto.

5 A página do movimento tem sido várias vezes atacada e informações confidenciais dos membros têm sido desviadas. Já alguns membros apresentaram queixas de estarem a receber ameaças. Em comunicado apelaram a quem tem realizado os ataques para não divulgar a informação pessoal dos membros.

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