‘Crise prova que atual modelo econômico é inviável’

Marco Aurélio Canônico entrevista Tim Jackson, Folha de S. Paulo, 20 de junho de 2012

Como tem sido a recepção à sua proposta de “prosperidade sem crescimento” nesses tempos de crise?

É uma questão difícil para os governos, pois a estabilidade do sistema econômico atual depende de crescimento, de consumo contínuo. Mas o que a crise mostrou é que não é possível ter estabilidade desse modo. Estimular o crescimento indefinidamente gera mercados instáveis e situações muito ruins, como as da Grécia, da Espanha e de Portugal e a do meu próprio país, que adotou medidas de austeridade, punindo os mais pobres pela crise criada pelos ricos.

Mas o sr. não defende essa política para os países em desenvolvimento.

Não estou em posição de dizer que indianos, chineses e brasileiros não devem aspirar ao estilo de vida dos californianos. Minha mensagem é para as economias ricas que continuam a persuadir seus cidadãos a consumir. Os países desenvolvidos precisam reconfigurar o sistema econômico, porque o crescimento material do consumo precisa ser direcionado aos países mais pobres, onde são necessárias habitação, nutrição, educação, saúde.

Como o sr. vê a retração do consumo em época de crise?

Isso mostra como esse comportamento [consumista] não é inerente às pessoas, mas algo criado pelo sistema. Nas crises, as pessoas compram menos, pensam a longo prazo. Se você olhar as estatísticas verá que o nível das poupanças veio desabando nos 15 anos anteriores à crise e, a partir dela, voltou a subir.

Essa é uma grande mudança no comportamento e leva ao que Keynes chamou de paradoxo da poupança: as pessoas tendem a poupar em tempos de recessão, o que retarda a recuperação da economia. Isso sugere que o sistema, que pensávamos ter sido construído com base no comportamento humano, no que seria a vontade natural de consumir, não está alinhado com a natureza humana.

Pessoas que consomem menos são mais felizes?

A economia atual é baseada na ideia de que consumir mais nos torna mais felizes. Mas há pessoas que rejeitaram essa lógica e são mais felizes. Por quê? Porque vivem de forma mais consistente com seus ideais. Prosperidade nunca foi simplesmente material, mas social e psicológica. Esse estilo de vida, porém, causa um conflito interno nas pessoas, porque elas são punidas. Se você deixa de usar carro, se torna um cidadão de segunda classe, porque a infraestrutura não é criada para quem quer viver de modo sustentável. Sem mudanças estruturais, não podemos esperar que as pessoas mudem rumo ao comportamento sustentável.

Qual seria sua visão para a sociedade pós-consumo?

Faz sentido que a economia pós-crescimento seja concentrada mais em serviços do que em bens. Queremos que as empresas nos deem serviços que permitam uma boa vida, nutrição, saúde, infraestrutura, educação e lazer. Essas atividades têm impacto ambiental menor do que a produção de bens e empregam mais.

Devemos questionar o fetiche da produtividade: ele não faz sentido se significa dar turmas maiores para professores ou colocar médicos para atender a mais pacientes por hora. Isso é falácia.

Uma resposta

  1. Rio+20 – Poucas decisões, mas há mudança de paradigma.

    Lembra-se da estória dos ratos que, dado a ameaça de um novo gato que despontou na região, decidiram que a solução definitiva do problema seria colocar uma sineta no pescoço do gato? Devem lembrar, também, do desfecho: o plano infalível não deu certo, pois ninguém se ofereceu, entre os ratos, para colocar a sineta no gato.

    Reflitam um pouco em relação ao espaço histórico entre a Conferência de Estocolmo e a Rio+20. Qualquer semelhança deve ser motivo de uma saudável e profunda reflexão.

    Na realidade, ao longo do caminho, um conflito explícito ou não de inevitáveis interesses econômicos, entre os países desenvolvidos – que não querem parar de crescer – e os emergentes (que precisam crescer).

    Em relação a Rio+20, entre novas frases recheadas de velhos temas, fica evidente uma mudança de paradigma: a necessidade da sociedade – não apenas os iniciados no assunto – ser inserida na discussão e decisões relativas ao cenário ambiental, local e global.

    O conceito do Desenvolvimento Sustentado – foco simultâneo da análise das variáveis econômicas, sociais e ambientais – agora passa a incorporar (não apenas na concepção, mas na prática) a necessidade de levar em conta o que a sociedade (quarto ponto de enfoque) “percebe”, “deseja” e “está disposta a pagar” quando se procura aplicar o princípio do Desenvolvimento Sustentado.

    Da velha geometria sabemos que por três pontos não alinhados – focos econômico, ambiental e social – passa sempre um, e somente um, plano. As coisas mudam quanto aparece um quarto ponto – sociedade – onde, por consequência, necessariamente, não há um plano único que atenda aos quatro pontos.

    A procura da Sustentabilidade é a conciliação dos muitos planos, tendo como pano de fundo a percepção ambiental, social e econômica da sociedade.

    Para alguns pode parecer que a mudança é de pouca importância; muito pelo contrário, se efetivamente adotada irá gerar condições mais favoráveis, decorrentes da pressão da sociedade consciente, frente ao segmento político, agente que comanda todo o processo.

    Claro que não será uma mudança brusca, uma vez que a sociedade precisa reconhecer o seu papel neste processo e, sobretudo, procurar se preparar para ocupar seu espaço de participação nas decisões.

    Será a sociedade que irá pagar a conta que terá de ser assumida na solução da problemática ambiental que vivenciamos. Isso, pois esta mesma sociedade ainda não se apercebeu que já está pagando a conta (sem saber) da fase de procura de quem irá “colocar a sineta no gato”.

    Concluindo: com a participação da sociedade será possível afastar o gato e não apenas colocar a “sineta no pescoço do gato”.

    Alguém tem dúvida disso?

    Roosevelt S. Fernandes, M. Sc.
    Conselheiro do Conselho de Meio Ambiente da FINDES e do Conselho de Meio Ambiente e Recursos Hídricos da FAES, bem como do CONSEMA e CERH e do Fórum Estadual de Mudanças Climáticas (ES)
    roosevelt@ebrnet.com.br

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