30% das ameaças à biodiversidade vêm do comércio global

O comércio internacional é responsável por 30% das ameaças à biodiversidade global, segundo um estudo publicado hoje na revista Nature. A conta inclui desde commodities primárias, como soja, carne, leite, madeira e minérios, até produtos finais industrializados, como iogurtes, chocolates, chapas de aço, móveis e materiais de construção.

Herton Escobar, O Estado de S.Paulo, 7 de junho de 2012

Os pesquisadores cruzaram dados ecológicos de espécies ameaçadas com dados logísticos de comércio internacional e mapearam como o consumo de produtos em um país afeta a sobrevivência de espécies em outro. Por exemplo, como tomar um café colombiano num restaurante na Alemanha afeta a conservação de macacos nas florestas da Colômbia. Ou como comer um bife de carne brasileira na Rússia influencia o desmatamento da Amazônia no Brasil.

Foram analisadas mais de 5 bilhões de relações comerciais, envolvendo 15 mil produtos de 187 países e relacionadas a 25 mil registros de espécies ameaçadas. Os resultados classificam os países como “importadores ou exportadores líquidos de biodiversidade”, dependendo do número de espécies que são ameaçadas pelas suas importações versus suas exportações. Estados Unidos, Japão e Alemanha aparecem como os três maiores importadores de biodiversidade – o que significa que o consumo de produtos importados nesses países coloca mais espécies em risco fora do país do que a exportação o faz dentro do próprio país.

Indonésia, Madagascar e Papua Nova Guiné são os maiores exportadores. O Brasil aparece como um importador líquido de biodiversidade. Segundo o estudo, os produtos importados pelo País impactam negativamente 76 espécies, versus 35 espécies que são afetadas domesticamente por suas exportações – principalmente de commodities como carne e grãos. Ou seja, o País coloca mais espécies em risco com o que compra do que com o que vende.

“Eu diria que o Brasil se saiu muito bem, considerando o tamanho do País e a pressão que ele recebe internacionalmente”, disse ao Estado o pesquisador Barney Foran, da Universidade de Sydney (Austrália), um dos autores do estudo. “Porém, não há espaço para complacência.”

Isso porque muitos dos impactos ambientais associados à indústria e ao comércio no País estão relacionados a demandas do mercado interno. Apesar da pecuária ser o setor mais envolvido no desmatamento da Amazônia, por exemplo, cerca de 85% da carne produzida no País é para consumo interno, segundo o pesquisador Paulo Barreto, da ONG Imazon. Situação semelhante ocorre com a madeira amazônica. “A responsabilidade maior é nossa mesmo”, avalia Barreto.

“Não dá para jogar a culpa toda no comércio internacional. Muitas das nossas commodities são consumidas aqui mesmo”, diz Thiago Uehara, pesquisador do Programa Consumo Sustentável do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (GVces). Para os autores do estudo, a responsabilidade recai sobre os dois lados, produtores e consumidores. A mensagem, segundo eles, é que as ameaças à biodiversidade devem ser avaliadas em escala global, e não apenas local. Os resultados, segundo eles, dão embasamento para medidas de rastreamento, certificação e até penalização de produtos nocivos à biodiversidade.

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