Os dramas do mundo e os olhos das crianças

Washington Novaes, O Estado de S.Paulo, 1 de junho de 2012

É paradoxal e aflitivo: 2.800 cientistas reunidos em Londres assinam, no simpósio Planet Under Pressure, uma declaração sobre o estado do planeta, na qual dizem que “o funcionamento do sistema Terra (…) está em risco”; que poderemos enfrentar ameaças graves na questão da água, dos alimentos e da biodiversidade, com crises econômicas, ecológicas e sociais. No Brasil, quase 800 municípios do Semiárido enfrentam estado de emergência, com uma seca que pode ser a mais grave em 40 anos e já deixa prejuízos superiores a R$ 12 bilhões. Também no Extremo Sul do País a seca é gravíssima. No Amazonas, dois terços dos municípios se veem às voltas com uma inundação inédita, que já afetou 70 mil famílias e inundou até partes de Manaus (após fortes estiagens em 2005 e 2010 e outra forte inundação em 2009).

Embora 65% dos brasileiros ouvidos numa pesquisa CNI/Ibope considerem “muito graves” os problemas relacionados com o clima, nossas políticas continuam fazendo de conta que não precisamos perder tempo com o “ambiente” – tanto que no novo Código Florestal, mesmo após os vetos presidenciais, anistiamos a maior parte dos desmatadores, permitimos a ocupação de encostas e topos de morros (que assoreia rios e contribui para inundações), reduzimos áreas preservação à beira-rio, permitimos a ocupação de partes de mangues. E não tomamos conhecimento das advertências dos cientistas.

Já desmatamos quase 20% da Amazônia, quase 50% do Cerrado, só restam 7% da Mata Atlântica, quase nada dos Pampas, o Pantanal já sofre muito. O pretexto é não “prejudicar a expansão da agropecuária”, quando a Embrapa há mais de 20 anos diz que não é preciso desmatar um só hectare: temos 200 mil hectares já desmatados e sem ocupação econômica, além de metade das pastagens degradadas. Mais grave ainda, qualquer que seja a decisão final do Congresso Nacional a respeito do projeto, tudo tenderá a ficar como nas práticas predatórias de hoje, já que o Ministério do Meio Ambiente, com menos de 1% do orçamento da União, não tem estruturas para fiscalizar com rigor e mudar o quadro.

Também não se deve esperar muito na Caatinga. O projeto de transposição de águas do Rio São Francisco, que o ex-presidente Lula anunciava como redenção para “12 milhões de pessoas que sofrem com a seca”, em 2012 só teve gastos 2,2% do seu orçamento (Estado, 23/5), está com 4 dos 16 lotes de obras paralisados, já custa quase o dobro do que fora orçado e a água, quando chegar, irá em grande parte para grandes projetos agrícolas de exportação, outra parte para cidades que desperdiçam mais de 40% do que sai das estações de tratamento.

Para a Amazônia encontra-se em discussão no Congresso projeto para abrir as terras indígenas à mineração – quando estudos internacionais e nacionais dizem que essas reservas são o caminho mais eficaz para a conservação da biodiversidade, uma das riquezas nacionais. E uma medida provisória reduz a área de várias unidades de conservação para permitir a formação de grandes lagos para sete hidrelétricas – quando estudo da Unicamp/WWF, já citados várias vezes neste espaço, considera que não precisamos de novas mega-hidrelétricas, e sim de conservação e eficiência energética, além de redução de perdas nas linhas de transmissão.

Mas a falta de juízo não é só por aqui. Há poucos dias, terminou em fracasso – “discórdia e desapontamento”, segundo o jornal The Guardian (25/5) – mais uma reunião da Convenção do Clima. Com retrocesso até, já que muitos países (principalmente Índia e China) se mostram relutantes em continuar apoiando a carta de intenções aprovada no ano passado em Durban, que acena para 2015 com um compromisso de todos os países para reduzir as emissões de poluentes, mas só entrando em vigor em 2020. Aprovou-se apenas a prorrogação do Protocolo de Kyoto, porque este envolve altíssimos recursos financeiros, ao permitir que um país ou empresa financie em outro país projeto que reduza emissões – e contabilize a redução no seu balanço próprio. Há um mercado mundial de muitos bilhões de dólares envolvido.

As discussões foram as de sempre: quem deve pagar pelas reduções, países ricos ou “em desenvolvimento”? Como farão China, Índia e outros que ainda precisam dotar de energia as casas de centenas de milhões de pessoas e só dispõem de combustíveis fósseis? Que se fará agora com o novo caminho de extração de gás de rochas, chamado de fracking, que dizem poluir menos, mas implica liberação de metano? A Agência Internacional de Energia não se cansa de advertir que já nos estamos aproximando do limite de mais 2 graus Celsius no aquecimento da Terra, mas as emissões de poluentes continuam em nível recorde – e a partir de 2017 a alta terá efeitos irreversíveis. O tema também nos fala de perto. Segundo estudo publicado na revista da Fapesp por Fábio Castro, Minas Gerais poderá perder R$ 450 bilhões até 2050 com problemas climáticos; o País todo, R$ 3,6 trilhões em 40 anos.

E a três semanas do início oficial da conferência Rio+20, na qual todos esses temas – mais a pobreza no mundo, redução do desperdício de alimentos (1,3 bilhão de toneladas anuais), novas formas de calcular crescimento, “economia verde”, “governança sustentável” – em princípio estarão na pauta, surgem os temores de outro malogro, já que as discussões preliminares continuam patinando. O temor já foi manifestado pela ex-primeira-ministra norueguesa Gro Brundtland e pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

“O planeta não é sustentável sem controle do consumo e da população”, diz a britânica Royal Society (Folha de S.Paulo, 27/4). Mas da crise econômica no mundo “ninguém vai escapar sem ser afetado”. Poderemos até levar “de um século a dois para sair da crise”, afirma o renomado economista James K. Galbraith, da Universidade Yale (Estado, 23/5). Seja como for, é preciso continuar encarando os olhos luminosos dos nossos netos e seguir lutando.

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