Grécia sem euro custaria US$ 1 trilhão

O impacto da saída da Grécia da zona do euro após as eleições legislativas de 17 de junho chegaria a US$ 1 trilhão. A estimativa consta de estudo de contingência realizado pelo governo de David Cameron, no Reino Unido, para o caso de a hipótese se confirmar.

Andrei Netto, O Estado de S. Paulo, 18 de maio de 2012

O objetivo é preparar o país para os efeitos da crise, que abalaria o Produto Interno Bruto da União Europeia em 5%. Segundo a revista britânica The Economist, as possibilidades de retorno à dracma chegam a 40%.

A previsão feita por Downing Street é de que o impacto poderá ser tão forte para a economia mundial quanto a falência do banco americano de investimentos Lehman Brothers, em setembro de 2008.

O prognóstico leva em conta uma saída desordenada da Grécia da zona do euro, hoje com 17 países. O custo seria menor, US$ 300 bilhões, ou cerca de 2% do Produto Interno Bruto (PIB), caso Bruxelas e Atenas consigam coordenar a saída, segundo informou ao Guardian Doug McWilliams, economista do Centro para Pesquisa Econômica e Negócios de Londres. A hipótese com a qual Londres trabalha é que a região que agrupa a moeda única nunca mais será a mesma após a eventual saída da Grécia.

Em discurso ontem, em Manchester, Cameron fez um apelo para que os líderes europeus cheguem a um acordo que permita à Grécia seguir com a moeda única. Para ele, a União Europeia está “no limite”. “Seus dirigentes devem se entender e enfrentar um possível esfacelamento. A sobrevivência da zona do euro está em questão.” Para o premiê, a crise envolve a todos, inclusive os países que, como o Reino Unido, não aderiram à moeda única.

Uma das soluções sugeridas pelos britânicos é a adoção imediata dos eurobônus, os títulos de dívidas soberanas da Europa, destinados especificamente a financiar grandes projetos e relançar o crescimento.

Essa proposta foi feita pelo novo presidente da França, François Hollande, e era até há pouco combatida pela chanceler da Alemanha, Angela Merkel.

Além de Cameron, o presidente do Banco da Inglaterra, Mervyn King, a autoridade monetária britânica, reiterou ontem que a zona do euro “esta se esfacelando sem que nenhuma solução clara seja apontada”.

Em resposta, o novo ministro da Economia da França, Pierre Moscovici, reafirmou ontem que França e Alemanha vão trabalhar juntos para que a Grécia não seja obrigada a abandonar a zona do euro. Impulsionadas pelos rumores de crescentes fissuras nos sistemas financeiros da Grécia, da Espanha e da Itália, as bolsas europeias fecharam em baixa ontem. Em Londres e em Paris, o FTSE e o CAC 40 caíram 1,24%, enquanto em Frankfurt o DAX recuou 1,18%.

FMI e Brasil

Os prejuízos com uma eventual saída da Grécia da zona do euro podem respingar no Fundo Monetário Internacional (FMI) e, consequentemente, no Brasil. Segundo dados do Barclays Capital, o FMI já desembolsou 22 bilhões em dois pacotes de resgate à Grécia – o primeiro de 110 bilhões (em conjunto com a União Europeia), aprovado em 2010, e o segundo de 130 bilhões, anunciado neste ano.

Caso a Grécia saia da união monetária e deixe de pagar suas obrigações, as perdas do FMI seriam divididas. Como a zona do euro tem 20% das cotas do fundo, o prejuízo seria de 4,4 bilhões. Atualmente, a cota do Brasil é de 1,79%, por isso o País poderia ter de arcar com 400 milhões, conforme cálculo da Agência Estado.

Partido radical alerta para calote se país ficar sem crédito

Alex Tsipras, líder da Coalizão da Esquerda Radical da Grécia (conhecida como Syriza), disse ontem que há pouca chance de a União Europeia cortar o crédito para seu país. Mas, se o fizer, a Grécia está pronta a suspender os pagamentos de sua dívida.

Em entrevista ao Wall Street Journal, Tsipras afirmou que um colapso financeiro da Grécia arrastaria consigo o resto da zona do euro. Para evitar isso, acrescentou, a UE deveria considerar uma política mais voltada ao crescimento.

“Nossa primeira opção é convencer nossos parceiros europeus de que, em seu próprio interesse, o crédito não pode ser interrompido. Se não conseguirmos convencê-los – porque não temos a intenção de tomar medidas unilaterais – e se eles prosseguirem com ações unilaterais da parte deles, ou, em outras palavras, se eles cortarem nosso crédito, então seremos forçados a suspender os pagamentos a nossos credores”, disse o dirigente.

Pesquisas recentes de intenção de voto indicam que o movimento Syriza deverá ser o mais votado na eleição parlamentar grega de 17 de junho, superando sua surpreendente segunda colocação na votação de 6 de maio, que não produziu maioria clara para nenhum partido. Caso isso se confirme, Tsipras está posicionado para ser o próximo primeiro-ministro e a Grécia parece direcionada a um confronto com seus parceiros europeus sobre o programa de reformas econômicas e medidas de austeridade.

Nas últimas semanas, dirigentes europeus têm reafirmado que a execução do programa de reformas é condição para a Grécia receber as parcelas remanescentes do pacote de ajuda financeira de € 130 bilhões. O confronto poderá determinar se os créditos internacionais ao país serão cortados e a Grécia passará a ter de imprimir sua própria moeda – ou se a UE vai permitir que a Grécia tenha déficits fiscais maiores, para prevenir que o contágio do pânico financeiro se espalhe para outros países endividados, como Portugal e a Espanha.

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