Por uma vida plena de sentido: os socialistas e sua revolução interrompida na luta por outra civilização

Os socialistas e sua revolução interrompida na luta por outra civilização

José Correa Leite, junho de 2011

O questionamento da defesa do PLC 122, que criminaliza a homofobia, a partir de considerações religiosas, suscitou uma reação de justificada de indignação. Vários camaradas argumentaram corretamente os equívocos desta posição. Na mesma linha de argumentação, foi questionado também nosso envolvimento na luta pela legalização do aborto e pela descriminalização da maconha. Isso traz para dentro da pauta política da esquerda as posições dos setores religiosos mais conservadores.

Mas que este debate tenha emergido entre nós é um sintoma de problemas políticos e organizativos graves que acumulamos e que temos que superar. E também dos desafios que temos pela frente para que nossa corrente possa ser uma alavanca para construir o PSOL como um partido socialista amplo capaz de disputar a hegemonia na sociedade atual. O debate programático sobre as linhas mestras de reorganização da economia e do poder, que defendemos no texto “Por outra civilização”, tem, assim, que ser desenvolvido e aprofundado em outros aspectos.

Este debate mostra pelo menos quatro coisas:

1 – a incompreensão da centralidade política da luta pela autonomia e emancipação humanas e do socialismo como luta por outra civilização, estrutura a partir de outros valores. Se até agora não tínhamos tido um questionamento tão radical de nosso programa, frequentemente surgem entre nós críticas ao destaque dado às “lutas contra as opressões” ou as “questões do modo de vida” – que são consideradas um aspecto secundário da nossa atuação política frente à luta sindical ou às questões da “grande política” (eleições, atividade parlamentar, etc). O que é uma incompreensão profunda do nosso programa, porque, na verdade, a hierarquia é exatamente a oposta: estas intervenções é que são ferramentas para mudar a forma como “vivemos a vida”;

2 – os limites que vem sendo evidenciados pela tradição central do socialismo e do marxismo como expressão de uma visão de mundo produtora de sentido para as amplas massas – problema candente para relançarmos um movimento socialista de massas;

3 – o impacto desta regressão ideológica da esquerda – não só brasileira, mas também mundial, na medida em que o horizonte do socialismo refluiu – na degradação de nossa cultura política. Novamente, a política socialista foi se tornando tão pragmática quanto a política burguesa, deixando de expressar no cotidiano a aspiração a uma outra vida, que ilumine as potencialidades de cada um, valha a pena ser vivida e seja portadora de sentido e de futuro; e, finalmente,

4 – a necessidade de superarmos a construção e organização do Enlace como uma organização estruturada nos moldes das correntes petistas (da fase final do partido), com o recrutamento e a integração como “filiação” a um espaço de articulação política prática – em geral para a disputa no partido ou como prolongamento de uma agrupação sindical ou de luta específica – e não como adesão a um projeto programático de transformação radical da sociedade.

Estes são questões programáticas de fundo, que incidem sobre nossa identidade política, nossa relação com as lutas da maioria da população e as condições de travarmos as disputas de idéias na sociedade, construindo um imaginário radical, capaz de coesionar um bloco social anti-capitalista, a partir de parcelas relevantes da população, em condições de disputar a hegemonia na sociedade.

Nesse sentido, como o texto “Reinventar ser esquerda” – recém apresentado para debate no nosso processo de conferência – trata dos dois últimos problemas, este texto se concentrará nas duas primeiras questões.

A revolução interrompida da autonomia e da emancipação e a luta por outra civilização

A esquerda socialista começou a realizar um aggiornamiento com a sociedade capitalista moderna, organizada em torno do fordismo, do keynesianismo e do consumismo, nas décadas de 1960 e 1970. Foi então que movimentos de mulheres, juventude, direitos civis, gays e lésbicas, contracultura, negros, povos indígenas e ambientais ganharam visibilidade e impuseram, em muitos países centrais, uma agenda de “modernização” da vida social varrendo muitas das sobrevivências do Antigo Regime que persistiam na Europa e nos EUA, formas de repressão institucionalizadas à vida da ampla maioria da população. Fizeram isso essencialmente por fora das organizações tradicionais da classe trabalhadora controladas por correntes reformistas e, em boa medida, contra elas. Estas lutas espalharam-se, com conseqüências diversificadas, por todo o sistema-mundo. E redefiniram o que entendemos por socialismo e por marxismo, dando-lhe seu sentido atual.

O marxismo tinha surgido, na década de 1840, em uma sociedade capitalista ainda inicial, onde muitas transformações sociais que lhe são atribuídas – para além do desenraizamento das comunidades agrárias, a proletarização nas fábricas e a vida nas favelas e cortiços – ainda não tinham amadurecido. A própria idéia de humanidade era, então, quase uma novidade – não tinha sido estabelecida senão muito tardiamente, no final do Iluminismo. Até o século XVIII, a “humanidade” acabava na fronteira da tribo, do país ou da comunidade religiosa; para o “outro”, cruzada ou jihad, para o “primitivo”, escravidão ou extermínio. Foi, no contexto da Revolução Francesa, que se afirmou que todo “homem” (só depois “ser humano”, homem e mulher – apesar da luta travada por Olympe de Gouges) era igualmente dotado de razão, dispunha dos mesmos direitos e capacidades e tinha condições para guiar seu próprio destino, podendo julgar por si mesmo o certo e o errado, o bem e o mal, escolher os governantes ou até se auto-governar. Kant dizia que a humanidade tinha, pela primeira vez, condições de sair da minoridade e buscar sua emancipação, ser autônoma; não tinha mais que ser tutelada por nobres, reis, padres, pastores ou mulás.

Mas foram socialistas como Fourier, Owen, Cabet e Flora Tristan que traduziram, a partir da década de 1820, a máxima da emancipação humana em um projeto político de transformação prática da sociedade, da sociabilidade e da vida cotidiana – nas relações de gênero, na sexualidade, na educação das crianças, na forma como se vivia o dia a dia, etc. Quando o movimento socialista dividiu-se entre marxistas e anarquistas, na Primeira Internacional, foram estes últimos que mais enfatizaram a dimensão anti-autoritária da política libertária e a importância das experiências práticas de construção de outra vida, em uma trajetória que talvez tenha atingido seu auge na Revolução Espanhola de 1936. Marx, por sua vez, iniciou sua elaboração teórica sobre o capitalismo a partir do questionamento de porque as promessas da Revolução Francesa não foram efetivadas. Ele compartilhava do propósito genérico de toda a esquerda em sua fase de formação: emancipar a humanidade de toda forma de exploração, opressão e discriminação, permitindo que as potencialidades de nossa espécie desabrochassem e pudéssemos ser aquilo que almejávamos – sermos autênticos conosco, na visão própria do romantismo. Mas defendia que isso seria alcançado pela ação de um sujeito revolucionário imanente ao desenvolvimento da sociedade moderna, a classe operária industrial, o proletariado, ou, em uma leitura mais contemporânea, a classe dos assalariados explorados pelo capital.

Mas boa parte desta perspectiva emancipatória, tão forte na constituição do socialismo e do marxismo, desapareceu da prática socialista majoritária na segunda metade do século XIX e na primeira metade do século XX. Isso não significou que a luta revolucionária não abarcasse as diferentes dimensões da existência humana, mas sim que figuras como Lafargue – famoso por seu livro Direito à preguiça, na contramão do entendimento do socialismo não como a sociedade do trabalho mas sim do tempo livre – ou Kollontai – associando socialismo, libertação das mulheres e liberdade sexual – não deram a tônica no desenvolvimento do marxismo e da luta socialista hegemônica na entrada do século XX. Ela tinha muito mais força, por exemplo, na tradição anarquista do que na esquerda de inspiração marxista, focada no movimento operário, com seus sindicatos e partidos. Por exemplo, as posições sobre a sexualidade e as questões do “modo de vida” do mais importante teórico marxista depois de Marx, Lênin, eram – para nossos parâmetros – claramente reacionárias. Rosa Luxemburg e Trotsky foram, desse ponto de vista, mais aberto do que a média dos dirigentes bolcheviques e depois comunistas, frequentemente puritanos, mas sua ênfase foi principalmente no caráter auto-organizado das lutas e processos revolucionários dos trabalhadores – embora Trotsky tenha discutido, em 1923, as Questões do modo de vida, a partir de um levantamento dos problemas referentes à família e ao modo de vida dos trabalhadores comunistas moscovitas.

Nesse ínterim, o surgimento da psicanálise tinha desvendado os laços profundos que unem a exploração do trabalho, o conservadorismo social e a repressão sexual; a aproximação das vanguardas artísticas modernistas e das vanguardas socialistas tinha iluminado a dimensão estética da superação do capitalismo; a Bauhaus repensou a arquitetura e estimulou a reflexão sobre a reforma da cidade; as feministas tinham iniciado a primeira onda de lutas de massas pela igualdade de direitos e autonomia das mulheres; a juventude começou a se conformar como uma categoria social nova. Tudo isso repercutiria em uma série de reflexões – de Wilhelm Reich a Simone de Beauvoir, do surrealismo à Escola de Frankfurt.

As maiores expressões do esforço de renovação da teoria marxista buscando integrar estas diferenciadas experiências foram as obras de Herbert Marcuse (em Eros e civilização) e Ernst Bloch (em O princípio esperança). Elas buscaram, na década de 1950, depois de três décadas de crise, guerras e revoluções, sintetizar as aspirações e as novas possibilidades emancipatórias colocadas pela e para a humanidade. São estas aspirações que explodiriam como um questionamento sistemático da sociabilidade burguesa e das opressões que ela reproduzia nos anos 1960 – no cenário criado por duas décadas de prosperidade nos paises centrais.

As lutas concretas de diversos setores oprimidos emergiram, convergiram e produziram, tendo como momento simbólico 1968, uma mutação importante no que significava ser esquerda. O que até então era uma parte importante do programa do anarquismo e de círculos boêmios tornou-se, então, o de grande parte da esquerda socialista, inclusive aquela de origem crista, corretamente batizada de teologia da libertação – lembremos que um dos ideólogos mais radicais das novas lutas era um padre, Ivan Illich.

Esta esquerda renovada passa a reconhecer que as opressões vigentes na sociedade capitalista ao lado da exploração do trabalho se mantinham sustentadas por distintos elementos: a família como instituição básica de socialização dos indivíduos e internalização das repressões; as instituições repressivas que estruturam a sociedade disciplinar (Igreja, escola, manicômio, etc); a mídia, cada vez mais responsável por veicular os modelos identificatórios vigentes, promover o desempenho como ideal supremo do capitalismo e promover a manipulação repressiva das pulsões humanas; os argumentos religiosos fundamentalistas que sacralizavam a família institucionalizada e as repressões; e a moral sexual repressiva, a fragmentação do tecido social e a erosão dos laços de solidariedade de modo a criar uma atomização funcional ao capitalismo. A família no sentido tradicional do termo e o fundamentalismo religioso eram expressões de dinâmicas mais profundamente enraizadas do que o próprio capitalismo, que delas se aproveitou, para reforçar a idéia de que as conquistas de uma melhoria tinham que ser enfrentadas dentro de uma dinâmica individual, em que fracasso ou sucesso eram responsabilidades pessoais.

Podemos considerar a luta dos anos 1960/70 como um capítulo novo do que Juliet Mitchell batizou, falando da luta pela emancipação das mulheres, “a mais longa das revoluções” – a luta pela conquista da autonomia pessoal e uma vida emancipada dos mitos, tabus, repressões e proibições milenares para todos os seres humanos. Mas é importante marcar também sua novidade: foi o ponto mais promissor, depois da vaga revolucionária de 1917, da história da luta contra o capitalismo. E também contra a burocracia, inclusive ampliando o horizonte do que significava o socialismo no seu terreno clássico, o mundo do trabalho. As discussões sobre a tirania do trabalho não apenas recuperam as análises anarquistas, mas questionam profundamente o marxismo soviético, que havia se apropriado dos padrões autoritários de organização dos processos produtivos do fordismo e do taylorismo, baseados na expropriação do saber operário, e recusado – à exceção de breves experiências iugoslavas – a autogestão operária.

Mas este movimento tinha fragilidades evidentes, claras para seus teóricos marxistas. Debord (A sociedade do espetáculo) e Marcuse (O homem unidimensional), os principais ideólogos da esquerda dos anos 1960, foram prescientes em alertar para como o capitalismo estava se apropriando da imagem e da dimensão estética, canalizando-a crescentemente para consumo através das mídias, a começar pela televisão. O capitalismo do consumo de massa podia recuperar lutas emancipatórias e reconhecer a superação – pelo menos em alguns aspectos, em algumas sociedades – de velhas opressões. Mulheres, negros ou gays, integrados no capitalismo liberal, podem tornar-se exploradores e opressões – da mesma maneira que operários convertidos em patrões. Muito da energia emancipatória liberada neste turbilhão de mudanças é canalizado para novas formas de participação no jogo político e social dominante e para novos padrões de consumo.

O capitalismo mostrou-se muito mais flexível do que supunham quase toda a esquerda de então, acrítica à fundamentos importantes da civilização capitalista, e foi capaz de esvaziar e recuperar boa parte destes movimentos, neutralizando seu potencial explosivo da sociabilidade burguesa. A mídia foi ocupando o espaço que o recuo do poder da família sobre seus membros abria. Para aqueles que conquistaram espaços para expressarem-se, foram oferecidos novos e sofisticados nichos de mercado – a serem ocupados na concorrência com os demais. E, no início dos anos 1980, a AIDS aplicou um duro golpe na experimentação e na vivência da liberdade sexual. A esquerda refluiu para o espaço que lhe cabia nos sistemas eleitoras liberais, enquanto o capitalismo se globalizava e se reforça por sua organização em moldes neoliberais (que ao mesmo tempo fragmentavam, como nunca antes, a classe trabalhadora assalariada).

O que se passa, cinquenta anos depois, com o programa de emancipação?

Temos que reconhecer, em primeiro lugar, o quão pouco a humanidade tomada de conjunto avançou neste objetivo. Do apedrejamento de “adúlteras” pelo Islã (porque será que as mulheres são quase sempre as maiores vítimas?) à extirpação do clitóris ou as práticas cotidianas do estupro nas sociedades africanas, da opressão das castas no hinduísmo à execução (extra-judicial) dos homossexuais em boa parte do mundo, passando pelo racismo, a xenofobia e a intolerância (para com árabes, negros, populações indígenas ou latinos, mulheres autônomas, formas de expressão sexual oprimidas…), as questões relativas ao gênero, à descendência, à liberdade sexual e, para tod@s, ao modo de vida, continuam no coração da luta pela libertação da maior parte da humanidade. Em pleno século XXI, religiosos evangélicos lutam para impor a pena de morte para o homossexualismo em Uganda! Mas esse é somente o ponto limite da opressão, desqualificação e massacre cotidiano de bilhões de seres humanos sobre o qual não podemos ser indiferentes. A solidariedade e compromisso tanto com a revolta espontânea quanto a luta articulada de todos estes setores continuam no centro de nosso programa de luta por um mundo mais justo, digno e humano. Se não temos mais a ilusão da facilidade das mudanças, nem por isso a agenda dos anos 1960 saiu da ordem do dia. Encontram-se ai enormes energias que podem contribuir decisivamente para a manutenção ou para a superação do capitalismo.

Temos também, frente a isso, um claro distanciamento entre as vanguardas políticas da esquerda e as práticas contestatórias tomadas em um sentido amplo de inúmeros movimentos sociais. Por todas as latitudes, imbuídas dos valores burgueses, suas lideranças, desanimadas, refluem para a busca da ascensão social e do enriquecimento – dos sindicalistas petistas aos dirigentes social-democratas, dos peronistas de esquerda aos militantes do Congresso Nacional Africano, dos bolivarianos aos ex-dirigentes comunistas. Temos, por todas as partes, expressões fortes da burocratização e do acomodamento das lideranças políticas socialistas ou de esquerda ao dinheiro e ao poder sempre que dinâmicas de auto-organização e questionamento refluem.

Mas temos, igualmente, transformações sociais significativas neste período. Uma das mais estratégicas é a conexão crescente entre os seres humanos pelos fluxos de comunicação e de informação e o adensamento das teias de relações de interdependência humana pelas tecnologias digitais. Computador, internet e celular são essenciais não só para o funcionamento do capitalismo, mas tornaram-se hoje inseparáveis também da vida cotidiana de boa parte da juventude. Começam a ser utilizados, igualmente, para organizar protestos e manifestações nas quais podemos reconhecer todos os traços de processos amplos e espontâneos de auto-organização. A luta contra a propriedade intelectual passa a assumir um lugar de destaque em um capitalismo cada vez mais apoiado na pesquisa científica e tecnológica, que busca freneticamente novos espaços de acumulação, privatizando sempre que possível a informação e o conhecimento.

Isso possibilitou uma mudança radical nos métodos de organização do capital que, graças à internet, não precisa mais promover a concentração dos trabalhadores em grandes unidades de produção e coloca os assalariados de todo o mundo em concorrência entre si. O proletariado não para de crescer, mas sua organização se tornou muito mais difícil.

Talvez a mudança mais radical tenha se dado em função da emergência da ecologia. A constatação de que os recursos do planeta são finitos e o crescimento deve encontrar limites, corresponde a uma revolução na estrutura mental da esquerda – até então quase sempre compartilhando o mesmo produtivismo do capitalismo. O questionamento da ideologia do progresso, resgatando contribuições como as de Benjamin ou Mariategui, vai a par com a valorização da luta de populações camponesas e povos indígenas em defesa dos seus modos de vida, da natureza e dos bens comuns. O meio-ambiente tornou-se palco central da luta anticapitalista: a acumulação sem freios de capital, a busca infinita de lucros, exige a manutenção de uma economia sempre em crescimento, pressionando cada vez mais a biosfera do planeta. E colocando em risco a manutenção de boa parte da vida existente no planeta. O socialismo transforma-se em ecossocialismo, sob pena de reproduzir e aprofundar grande parte das contradições que hoje permeiam o capitalismo.

As mudanças sociais e culturais introduzidas nas últimas décadas foram muito amplas: o aumento generalizado da expectativa de vida, além de introduzir a “terceira idade” como ator nas discussões sociais, aumenta a demanda de recursos naturais de uma população sempre crescente e introduz o debate sobre sua repartição entre as atuais gerações e as gerações futuras; o desenvolvimento da tecnologia médica afasta a “natureza humana” cada vez mais das determinações biológicas imediatas e introduz um espaço de escolhas e modelagens sociais cada vez mais conscientes; a migração de populações introduz a necessidade de uma cidadania global; a globalização econômica e cultural difunde os padrões norte-americanos de consumo e de cultura e produz o convívio obrigatório de culturas distintas, o que força o aprofundamento da critica dos padrões e valores eurocêntricos.

Neste cenário, as demandas sindicais passam a ter que se confrontar com classes trabalhadoras mais heterogêneas e com o novo norte estratégico ambiental – o que, tendencialmente, impossibilita o deslanchar das ondas capitalistas de mais investimentos, mais crescimento, mais empregos, maiores salários, mais consumo, mais lucro. O horizonte do sindicalismo somente pode adquirir um horizonte anti-sistêmico associado a um novo projeto articulado de reconversão profunda da economia para uma estrutura de baixo carbono, com outra matriz de energia e de transportes e a superação da compulsão consumista – com a maioria dos setores econômicos hoje dominantes estando claramente do lado perdedor desta transição. De outro lado, a fragilização do sindicalismo dificulta a formalização das relações de trabalho. O único fator capaz de permitir uma recomposição e retomada geral da ofensiva do mundo do trabalho seria – no marco do capitalismo globalizado – a organização e movimentação dos gigantescos contingentes da classe trabalhadora chinesa.

A primeira onda de questionamentos do novo capitalismo globalizado e neoliberal, o altermundialismo que emergiu nos protestos contra a Organização Mundial do Comércio em Seattle em 1999 e prosseguiu focado na dinâmica dos Fóruns Sociais, recuperou vários temas importantes e introduziu outros, colocou juntos uma pluralidade de sujeitos anti-sistêmicos e relançou o internacionalismo, enterrado com os socialismos nacionais e com o colapso do sistema soviético. Esta dinâmica esteve mais focada na América do Sul, onde diferenciados movimentos sociais e políticos estabeleceram um equilíbrio de forças mais favorável à esquerda, porém era limitada pela correlação de forças adversa no mundo do trabalho decorrente da globalização capitalista e pela militarização das relações internacionais pós-11 de setembro de 2001. É somente depois da grande crise de agosto de 2008 que um novo marco de relações internacionais é estabelecido e novas lutas emergem, contra a austeridade na Europa e EUA e por democracia no mundo árabe.

Mas quando os acampados da Espanha ou os UK Uncut da Inglaterra começam a debater, o que vemos é a desconfiança para com a política institucional (inclusive de quase toda a esquerda) e a volta da agenda interrompida dos anos 1960: a busca por uma política que é a reapropriação da atividade cidadã diretamente pelos envolvidos, mas também que um questionamento geral da vida como está hoje colocada. Não podemos ter expectativa de relançar um movimento socialista forte sem recuperar, atualizar e aprofundar a agenda de combate às opressões de gênero, raça e descendência e afirmação da liberdade sexual e da necessidade de outra vida cotidiana – não para um futuro distante, mas para nosso tempo.

O socialismo como visão de mundo produtora de sentido

A valorização da cultura emancipadora e o questionamento radical dos modos de vida estabelecidos que emergiram nos anos 1960 interagiam e ganhavam sinergia com o projeto político e o horizonte emancipatório do socialismo e das concepções originárias do marxismo que o vertebravam. Por um século, o projeto de construção de uma sociedade superior ao capitalismo, que superasse a exploração, as desigualdades e injustiças da sociedade de classe ofereceu um norte para organizar a luta política anti-sistêmica, ao mesmo tempo que legitimava o ideário liberal como caminho gradualista para um mundo melhor. A efervescência crítica dos anos 1960-70 reforçou e enriqueceu o projeto socialista e o tornou novamente apto a organizar e orientar uma pluralidade de lutas sociais e de idéias. Ele estava potencialmente apto a assimilar até mesmo a critica ambiental e a crítica à idéia de progresso.

Foram as grandes modificações societárias, geopolíticas e ideológicas ligadas à globalização neoliberal, à introdução das novas tecnologias digitais da comunicação e da informação e ao colapso do sistema soviético que produziram a crise do movimento socialista e a desqualificação de seu ideário. Mas isso não representou somente uma crise política do movimento; foi o colapso do socialismo como visão de mundo, que abriu uma crise inédita nos mecanismos políticos de produção de sentido próprios da modernidade – vinculados a pilares até então não questionados da existência moderna, a axiomas da compreensão do mundo estabelecida.

A humanidade sempre teve necessidade de atribuir sentido e significado a vida de seus membros. Quando desenvolveu sua capacidade cognitiva, há dezenas de milhares de anos, organizou a compreensão do mundo a sua volta e das relações que estabelecia com outros seres humanos através do que hoje nós conhecemos como pensamento mítico. Essa forma de pensamento acompanhou-nos na passagem do nomadismo para o sedentarismo e a agricultura (há cerca de dez mil anos atrás) e na formação das primeiras civilizações (há cinco mil e quinhentos anos atrás). E perdurou até cerca de dois mil e quinhentos anos atrás, quando surgiram duas visões de mundo alternativas, que foram gradativamente ocupando o lugar do mito – as formas de conhecimento que hoje conhecemos como religião (baseada na fé, mas organizando de forma mais sistemática aquilo que podemos considerar o divino ou o transcendente) e filosofia (baseada na argumentação racional, afirmando que o divino não existe, não pode ser conhecido pelos humanos ou não é relevante para nossa compreensão do mundo e de nós mesmos).

Movidos por preocupações éticas e intelectuais, sábios e profetas como Parmênides, Heráclito, Sócrates, Zoroastro, Buda, Lao Tse ou Jeremias buscaram compreender de novas maneiras a existência humana e os fenômenos que chamamos de bem e de mal. Fundaram, no marco das polis gregas, a forma de pensamento argumentativa que designamos como filosofia (intrinsecamente ligada à vida política destas cidades-estado), de um lado, e, de outro, nos reinos e impérios, as religiões que nós hoje chamamos de monoteísta. Filosofia e religião foram, assim, visões de mundo baseadas em princípios diferentes que buscavam responder à necessidade de atribuirmos sentido a nossa existência, de significado, de hierarquização de valores – sem os quais nenhum ser humano pode viver em sociedade ou mesmo existir como humano.

É só na modernidade que isso passa a ser alterado. Em um primeiro momento, com o Renascimento, contemporâneo ao desenvolvimento do capitalismo comercial, teríamos novamente o ressurgimento da filosofia como uma reflexão independente da religião, estruturando um novo pensamento, o humanismo como possibilidade de aperfeiçoamento permanente do ser humano, filosofia política e posicionamento ontológico no mundo. Mas depois o marco histórico se torna muito mais distante de tudo que tinha sido produzido de conhecimento até então. Os europeus deixam de ser, a partir de 1492, periferia atrasada do Ecúmeno e passam, com o saque das civilizações do “Novo” Mundo, a se colocar no centro das correntes mundiais de comércio – animando a expansão do capitalismo e a universalização prática do mundo. Emerge, no início do século XVII, com Galileu, Bacon, Descartes, Newton e dezenas de outros pensadores, uma nova visão social de mundo ou forma de conhecimento: a ciência experimental e quantificável. Este conhecimento vai desvendar – nas palavras de Galileu – o livro da natureza, para ele escrito por Deus em linguagem matemática.

E ai o mundo começava a ficar muito mais complicado e todas as verdades anteriores passam a ser questionadas. Porque a ciência, diferente das outras formas de conhecimento, baseadas na fé ou na argumentação, estruturava-se a partir da demonstração experimental de suas afirmações. A Razão permitia aos seres humanos atingirem um conhecimento imperfeito mas sempre aperfeiçoável, que podia ser comprovado empiricamente, um conhecimento prático cumulativo utilizado para domar as forças naturais e coloca-las a serviço dos empreendimentos humanos (e antes de tudo do capitalismo). Era um conhecimento imanente da natureza, porém um conhecimento que, se colocava poderes cada vez maiores nas mãos humanas, também se pretendia neutro do ponto de vista dos valores – isto é, um conhecimento que não fornecia os elementos que permitiriam à humanidade discernir o certo do errado, o bem do mal. A ciência não fornecia os preceitos éticos indispensáveis à vida social.

Temos então no curso da modernidade, a expansão do capitalismo alavancando a progressão do conhecimento cientifico sobre a natureza e o homem, mas não fornecendo uma bússola para a humanidade utilizar de maneira mais criteriosa o poder cada vez maior que obtinha. A filosofia iluminista, o liberalismo e depois o marxismo, o anarquismo e todas as formas de socialismo buscaram apoiar-se na legitimidade cada vez mais inquestionável da ciência, frequentemente reivindicando-se como ciências, mas embasando suas doutrinas também na filosofia humanista nascida nos Quatrocentos italiano. Estas filosofias políticas humanistas consolidaram-se como filosofias do progresso e distanciaram-se cada vez mais da religião. E mais, nos séculos XIX e XX, a ciência vai construindo a narrativa muito mais completa sobre a história do universo, da vida e da espécie humana, capaz de disputar muitos terrenos até então dominados pelas religiões. Formulações como o big bang, a evolução ou a genética não podem mais ser hoje consideradas teorias (da mesma forma que não faz sentido, hoje, falar de teoria da gravidade), ainda que este ou aquele detalhe o sejam, mas realidades demonstráveis empiricamente largamente estabelecidas. A sociedade se torna, por conta do desenvolvimento da ciência e da técnica sob o impulso do capitalismo, cada vez mais laica, secular, materialista – ainda que a ciência não responda à necessidade humana de sentido e atribuição de significado à sua vida.

As religiões tiveram, frente a isso, dois caminhos: adaptar suas doutrinas – considerando-as narrativas metafóricas e não literais – ou afirmar-se em uma posição fundamentalista, isto é, rejeitando as evidências da ciência. A maneira de se lidar com a Bíblia varia nas diferentes religiões e dentro das várias correntes do cristianismo – o catolicismo atribui ao clero a tarefa de interpretar as escrituras, enquanto os evangélicos lhe atribuem um sentido literal. O Dalai Lama tem, sobre a necessidade das crenças religiosas também estarem abertas à examinação e a auto-critica permanente, uma afirmação magistral: se a ciência demonstrar inequivocamente que a reencarnação não existe, ele defenderia que o budismo tibetano abandonasse este aspecto de sua doutrina!

Foram as filosofias políticas modernas, como o liberalismo, o nacionalismo e o socialismo que, embasadas nos avanços das ciências, estimularam o refluxo da religião como visão de mundo dominante para boa parte da humanidade. Elas forneceram os preceitos éticos e morais que, de forma mais consciente ou inconsciente, retirados de filosofias anteriores ou religiões, produziram significado e ofereceram os valores que orientaram a vida de seus seguidores. Elas ganhavam, frequentemente, a forma de “ciências humanas” ou “ciências sociais”, ainda que seus métodos correspondessem mais às práticas da filosofia do que da ciência experimental e quantitativa que empoderou o ser humano frente à natureza. Mas não faz sentido colocarmos na mão da ciência uma pretensão de verdade inconteste que negamos a qualquer forma de conhecimento humano.

O predomínio prático da ciência em nossa vida (quantos hoje cogitam não consultarem um médico como primeira opção para tratar de problemas de saúde e irem a um curandeiro ou a um religioso?), o avanço do capitalismo e do consumismo criaram um vazio de valores, de produção de significado, de geração de sentido que foi sendo ocupado, para os que rompiam com as religiões, por estes projetos ou filosofias políticos, frequentemente traduzidos em filosofias de vida ou, como afirmava o ideário socialista, engajamento – principalmente no caso da adoção do horizonte de superação do capitalismo. Apesar disso, a maioria da humanidade manteve crenças religiosas e estas frequentemente forneciam os principais valores e orientações éticas que encaminhavam as pessoas para a luta política e a adesão aos projetos políticos. De Fidel Castro a Michael Lowy, os marxistas passaram a compreender melhor, nas últimas décadas, o caminho de radicalização político de amplas camadas da população.

Frente ao crescimento do consumismo como ideal de felicidade para parte da população (e principalmente para parte significativa da juventude), são as religiões que fornecem os critérios éticos que guiam o comportamento de outra boa parte, fornecendo-lhe amparo em uma vida que, de outra forma, pareceria um fluxo caótico de eventos aleatórios. Apenas uma minoria da humanidade busca orientar sua existência por concepção explicitamente filosóficas; a maioria das pessoas se posiciona a partir da defesa de valores originários da religião, constituindo também a ampla maioria da esquerda em nosso continente (diferente da Europa, onde a tradição socialista é mais antiga e transmitida de geração para geração). É este setor com a qual temos que nos articular para conduzir a luta pela superação do capitalismo e que, desde o surgimento da teologia da libertação, está muito mais aberta para assumir a luta pela emancipação integral da humanidade.

Como lidar com as crenças religiosas? Se elas pregam o amor ao próximo e a empatia para com o sofrimento humano, elas compartilham com os socialistas a centralidade da luta contra toda forma de opressão e exploração e serram fileiras na luta contra todas as manifestações de intolerância, racismo, xenofobia, preconceito, etc. Se há uma opressão social, nós nos posicionamos ao lado dos oprimidos e reivindicamos o seu direito de ter os mesmos direitos que todos os demais. Essa é a base, inclusive, para as políticas de ação afirmativa, que estabelecem uma dianteira social por decisões políticas para buscar equilibrar uma desigualdade e situação de opressão muito disseminada no corpo societário. Se as crenças religiosas fundamentam opressões e discriminações, elas devem ser radicalmente combatidas por nós. Assim, por exemplo, no Brasil, até poucas semana atrás, esta era a situação jurídica dos gays e lésbicas, quando o “ativismo jurídico” do STF (uma das instituições mais conservadoras do país, mas dominado pela ideologia liberal) acabou com este absurdo formal. Mas gays e lésbicas seguem sendo alguns dos setores mais vulneráveis da população brasileira e não podemos ter ambigüidades sobre que lado tomar, inclusive com medidas de criminalização da homofobia, combatendo os setores religiosos que se opõem a isso.

Ler quaisquer práticas humanas vinculadas à sexualidade e a família como pecados – como um mulçumano faria em relação ao gênero ou um hinduísta à descendência – submetidos a um critério de certo e errado, verdade e mentira absolutos e inquestionáveis, como dogmas, não é compatível com o socialismo. É o oposto do que defendemos na imanência da condição humana e é o oposto do que defendem as mais diversas formas de espiritualidade que transcenderam as instituições religiosas para afirmarem a dimensão universal do divino. É essencial respeitar o direito das comunidades religiosas manterem suas crenças, mas ainda mais importante é garantir que vivamos em um marco laico de convívio e possibilidade de lutar por novos direitos, que permita que todo ser humano possa expressar-se de forma autêntica para consigo mesmo e buscar a felicidade.

E como lidar com o avanço da ciência? A ciência continua ampliando o conhecimento que a humanidade detêm sobre a natureza e inclusive sobre a própria natureza humana; representa, assim, uma ampliação importante da margem de autonomia do ser humano no mundo, reduzindo o lugar do acaso na nossa existência. Além disso, de Darwin e Freud à paleontologia e à neurologia, da ecologia à cosmologia, nossa compreensão cientifica do mundo (construída a partir de elementos demonstráveis) tem nos permitido entender cada vez mais a nós mesmos e a fragilidade da nossa obra. Infelizmente isso não torna nem o ser humano, nem a humanidade, moldados por instituições de todo tipo (sociais, religiosas, educacionais, midiaticas…), melhor ou mais sábia. O processo de humanização da humanidade ainda engatinha e só avançará nos marcos de uma sociedade muito diferente da atual ou pelo menos através de lutas muito mais amplas do que as que travamos hoje, que germinem uma nova visão social de mundo. O messianismo científico, a crença de que a ciência oferecera respostas para as contradições decorrentes do capitalismo ou da organização social, parece carecer de fundamento. Sua incapacidade de orientar a atividade humana por uma escala de valores que favoreçam a humanidade e a biosfera planetária é evidente à luz das experiências históricas do século XX

É neste marco que a tragédia da crise do socialismo se faz sentir. Porque ela se transforma em uma crise da produção social de sentido para parcelas significativas da humanidade. Premidas entre o consumismo niilista guiado por um liberalismo aguado e as diferentes formas de religiosidade, camadas inteiras da população não encontram referencias alternativas dotadas de credibilidade.

Por isso, a reivindicação, radicalização e efetivação do projeto iluminista, marxista e anarquista da autonomia e da emancipação humana integrais não é um cereja no bolo do socialismo, mas sua coluna vertebral e sua própria condição de sobrevivência. A reivindicação dos valores do humanismo, mutáveis como a própria condição humana, estão agora sendo reinventada fora da ideologia do progresso, onde o curso predefinido da história podia apenas apenas ser acelerado ou retardado. Mas sabemos, depois de Auschwitz e Hiroshima, que não há futuro garantido; e sabemos, neste início de milênio, que o século XXI pode terminar com uma crise ambiental catastrófica, que destrua a civilização moderna como a entendemos. O socialismo tem, assim, que incorporar em seu sistema argumentado de valores, além da defesa da humanidade, sua autonomia e emancipação, também a defesa da vida em toda sua diversidade e das condições naturais para sua manutenção (isto é, tem que reivindicar-se uma ecologia).

É só integrando todos estes elementos no pensamento e na prática socialistas, só promovendo esta superação dialética da herança teórica e prática que recebemos, que poderemos desenvolver uma atuação política exemplar capaz de unificar o conjunto dos explorados e oprimidos e uma disputa de idéias capaz de contestar a hegemonia das práticas e do ideário capitalistas. Somente com a reconstrução de uma visão socialista do mundo contemporânea de nossa época e das contradições que a permeiam que poderemos apresentar uma forma de conhecimento capaz de voltar a oferecer uma existência plena de sentido para a maioria da humanidade.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: