Seis produtos são responsáveis por metade das exportações brasileiras

Minério de ferro, petróleo bruto, complexo de soja, carne, açúcar e café somaram 47% do valor exportado

Luiz Guilherme Gerbelli, O Estado de S. Paulo, 11 de março de 2012

SÃO PAULO – O Brasil vem aumentando cada vez mais nos últimos anos sua dependência da exportação de matérias-primas. No ano passado, apenas seis grupos de produtos – minério de ferro, petróleo bruto, complexo de soja e carne, açúcar e café – representaram 47,1% do valor exportado. Em 2006, essa participação era de 28,4%.

Esse aumento da dependência ganha contornos ainda mais preocupantes porque o maior comprador atual das matérias-primas brasileiras passa por um momento de transição. Na semana passada, a China anunciou que vai perseguir uma meta de crescimento de 7,5% ao ano. A meta anterior era de 8% ao ano.
“Esse novo crescimento chinês ainda é expressivo para qualquer país, mas, nesse momento, cria um fato negativo para a cotação das commodities”, diz o vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro. “Ao dizer que vai reduzir o ritmo de crescimento, a China diz, indiretamente, que vai comprar menos insumos.”
Em dezembro, a entidade previu que o Brasil terá este ano um superávit de US$ 3 bilhões, resultado bem inferior ao saldo comercial de US$ 29,7 bilhões do ano passado. “Mas houve uma melhora do cenário dos preços desde então”, diz Castro.

De qualquer forma, o Índice de Preços de Commodities do Banco Central (IC-BR) já aponta um recuo na cotação das commodities. Em fevereiro, o indicador caiu 2,96% na comparação com janeiro e, no acumulado de 12 meses, teve queda de 12,68%.

“Essa tendência de queda só não é mais forte porque está havendo uma injeção global de recursos no mundo todo. Há uma expansão de crédito para economia mundial que não começou agora”, diz Fábio Silveira, economista da RC Consultores. Apesar disso, ele estima um recuo de 10% no preço da soja, carne, açúcar e do café este ano. “O crescimento menor da China reafirma a perspectiva de baixa dos preços”, afirma.

Meta de vendas
Entre 2006 e 2011, puxada pelas commodities, a receita de exportação do Brasil aumentou de US$ 135,9 bilhões para US$ 256 bilhões. Este ano, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) definiu US$ 264 bilhões como a meta de exportação, valor 3,1% maior que o do ano passado.

Para Rodrigo Branco, economista da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex), as exportações de commodities vão continuar dominando a pauta brasileira este ano. Ele ressalta, porém, que o saldo comercial do País deverá ser menor, porque, além do preço mais baixo das commodities, as importações devem permanecer em um patamar elevado.
“Estamos com uma demanda relativamente aquecida em relação ao resto do mundo, principalmente de bens de consumo duráveis”, diz.

Demanda por commodities continuará alta

Apesar da desaceleração da China, países em desenvolvimento da Ásia devem manter compras

A demanda mundial pelos produtos básicos do Brasil deve continuar crescendo nos próximos anos. As exportações de commodities serão estimuladas principalmente pelo crescimento da Ásia, mesmo com a desaceleração da China. O continente asiático deve manter um forte crescimento este ano e em 2013, segundo a previsão do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Pela projeção, a alta do PIB dos países em desenvolvimento da Ásia será de 7,3% este ano e de 7,8% em 2013. O crescimento asiático deve fazer com que a renda regional melhore, estimulando o consumo de produtos básicos, como os alimentos. “O crescimento asiático, em especial da China, mesmo desacelerando para algo próximo de 7% a 8% nos próximos anos, implicará em forte demanda por alimentos”, diz o economista José Roberto Mendonça de Barros, sócio da MB Associados.

Além disso, nas economias desenvolvidas, em períodos de recessão, a população dificilmente reduz o consumo de alimentos. “São bens cuja demanda é difícil de ser reduzida significativamente, mesmo com baixo crescimento da renda”, afirma Mendonça de Barros.

A perspectiva de exportação para os produtos básicos não deve se repetir com outros setores da economia. Os manufaturados têm perdido participação na pauta de exportação. Em 2011, o setor registrou um déficit de US$ 92 bilhões – em 2005, teve um superávit de US$ 8,5 bilhões.

Uma das justificativas para o tombo do setor é a valorização do real, o que barateou a importação e encareceu as exportações. “Quando você olha o dado da indústria, é possível notar uma perda de competitividade pelo aumento dos produtos importados pelo mercado brasileiro”, afirma Renato da Fonseca, gerente executivo da Unidade de Pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

A desaceleração econômica dos países importadores de manufaturados, como os EUA, também colaborou para a piora do setor nos últimos anos. A indústria nacional reclama ainda da infraestrutura ruim, elevando o chamado custo Brasil, e da burocracia – no processo de exportação, são 17 os tributos cobrados pelo governo.

Somado a isso, a baixa a produtividade do trabalhador também tem afetado o desempenho do setor. Por causa do crescimento da economia brasileira nos últimos anos, as empresas ampliaram a oferta de trabalho, mas estão tendo dificuldade em encontrar mão de obra qualificada.

Segundo o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, a concorrência com os importados e o fraco desempenho do setor manufatureiro já estão afetando o emprego da indústria. Para ele, as empresas cumpriram a sua parte com investimento em inovação, mas o real sobrevalorizado e juros elevados impediram o avanço do setor. “Cada emprego que se perde na indústria significa quatro desempregados em outros setores”, afirma.

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