Temor de que Irã ‘se blinde’ de ataque leva Israel a acelerar planos de guerra

Escalada de tensão. Segundo ministro da Defesa de Tel-Aviv, quando entrar em operação a usina subterrânea de Qom, à prova de bombardeio israelense, Teerã estará em ‘zona de imunidade’; nos EUA e Rússia, previsões são de que ofensiva começará em ‘meses’

Roberto Simon, O Estado de S.Paulo, 19 de fevereiro de 2012

Os tambores da guerra entre Israel e Irã nunca rufaram tão alto e, de Washington a Moscou, autoridades passaram a ver um ataque israelense como uma questão de “meses”. A tensão subiu ainda mais na semana passada em meio à guerra nas sombras. Aparentemente, os ataques a alvos israelenses na Índia e na Geórgia, além de um complô desbaratado na Tailândia, eram retaliações do Irã ao assassinato de seus cientistas nucleares.

O ministro da Defesa de Israel, Ehud Barak, tem encampado a tese de que, quando a usina iraniana de Fordo – construída 90 metros abaixo de uma montanha perto da cidade sagrada de Qom – entrar em operação, a aviação israelense não terá mais capacidade de desferir um golpe significativo no programa iraniano. Apenas os EUA têm a tecnologia para destruir a instalação.

A partir do momento em que estocar em Fordo urânio suficiente para fazer a bomba, Teerã terá entrado no que Barak chama de “zona de imunidade” em relação a Israel. A cartada militar, então, estará apenas nas mãos dos americanos.

Diante desse cenário, o secretário da Defesa dos EUA, Leon Panetta, considera que há uma “grande chance” de Israel atacar o Irã “em abril, maio ou junho”, escreveu David Ignatius, colunista do Washington Post. “O primeiro-ministro Binyamin Netanyahu não quer que o futuro de Israel dependa dos EUA. Antes, uma matéria de capa da revista do New York Times também previra que um ataque israelense “não passará de 2012”.

Na semana passada, o governo da Rússia publicamente engrossou o coro dos pessimistas. O número 1 das Forças Armadas de Moscou, general Nikolay Makarov, afirmou que a “decisão final (de atacar Teerã) será tomada no verão (do Hemisfério Norte)” – portanto entre junho e setembro. “O Irã está em uma posição complicada”, disse o geralmente discreto chefe do estado-maior do Kremlin.

“Certamente há uma urgência que não existia antes, pois ficou claro que os iranianos estão transferindo urânio para Qom”, disse ao Estado Efraim Inbar, diretor do Centro de Estudos Estratégicos Begin-Sadat. “Todos os integrantes do gabinete israelense apoiam a ideia de atacar o Irã. Uma bomba nuclear iraniana é simplesmente inaceitável para Israel. A questão é ‘quando’ atacar. Muitos ainda acham que é preciso dar tempo para as operações secretas em andamento”, afirma.

O governo Barack Obama tem indicado que, embora a opção militar continue “sobre a mesa”, os EUA não apoiam um ataque neste momento contra o Irã. A mensagem teria sido repetida nas últimas visitas a Washington não só de Netanyahu e de seu ministro da Defesa, mas também do chefe do Mossad, Tamir Pardo, que esteve nos EUA para consultas no fim de janeiro.

Inbar diz que, aos olhos dos israelenses, talvez não seja necessária uma “luz verde” de Washington. “Uma luz amarela pode ser o suficiente”, afirma.

Mãos atadas. Se é praticamente consenso entre analistas que Qom realmente criaria a tal “zona de imunidade”, muitos veem ainda outros motivos para a escalada nas tensões. Para Ali Vaez, pesquisador da Federação de Cientistas Americanos especializado no dossiê iraniano, no cálculo de Tel-Aviv há considerações políticas e logísticas importantes.

“Os israelenses acreditam que, se existe um momento em que os EUA não terão opção a não ser segui-los rumo à guerra, é durante a campanha presidencial americana. Não há como Obama se opor a um ataque ao Irã sem ameaçar sua reeleição”, afirma Vaez.

Candidatos republicanos como Newt Gingrich e Rick Santorum apoiam abertamente um “ataque cirúrgico” às instalações iranianas e o mote do discurso republicano em política externa é que Obama virou um “apaziguador”. Até novembro, quando ocorrem as eleições, será esse o clima político em Washington.

Há ainda uma razão logística para Israel agir nos próximos meses. Com a retirada americana do Iraque, abriu-se o caminho mais curto para os caças israelenses seguirem até o Irã. Extremamente frágeis, as forças iraquianas não têm controle sobre o espaço aéreo do país. “Mas isso pode mudar no médio prazo, com a reconstrução do Iraque e se Bagdá comprar equipamentos dos russos”, afirma Vaez.

Ele defende que Qom não é uma “caixa preta”, como afirmam os israelenses, e inspetores têm mais acesso a essa usina do que a outras instalações iranianas, como a de Natanz. Portanto, sem expulsar os funcionários da ONU, seria impossível enriquecer urânio para uso militar nas centrífugas subterrâneas.

Trita Parsi, um dos principais estudiosos da política externa do Irã, lembra que Israel já fez ameaças que, com o tempo, provaram-se blefes. “Em vez de ‘zona de imunidade’ da última vez o termo foi ‘ponto sem volta'”, disse Parsi ao Estado. “A diferença é que agora eles têm um argumento técnico e isso dá mais peso às ameaças. Os EUA estão realmente preocupados.”

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