Ártico aquece ao seu nível mais alto

À medida que o Ártico esquenta, pondo em perigo a sua biodiversidade e os seus povos indígenas, os investigadores ficam cada vez mais preocupados que a região atinja pontos climáticos críticos que podem impactar severamente no resto do mundo.

Jeremy Hance, Mongabay / Esquerda.net, 17 de fevereiro de 2012

No último ano, o Ártico, que está esquentando mais rapidamente do que qualquer lugar na Terra devido às mudanças climáticas globais, experimentou os seus doze meses mais quentes. De acordo com dados recentes da NASA, as temperaturas árticas médias em 2011 ficaram 2,28 graus Celsius acima das registadas de 1951 a 1980.

À medida que o Ártico esquenta, pondo em perigo a sua biodiversidade e os seus povos indígenas, os investigadores ficam cada vez mais preocupados que a região atinja pontos climáticos críticos que podem impactar severamente no resto do mundo. Um comentário recente na Nature Climate Change destacou o número de pontos críticos que estão a tirar o sono aos cientistas.

“[Os pontos críticos] podem gerar mudanças climáticas profundas que colocam o Ártico não na periferia, mas no centro do sistema terrestre”, disse o professor Duarte, climatologista do Instituto Oceânico da Universidade do Oeste da Austrália e coautor de outro estudo, num comunicado à imprensa. “Isso tem grandes consequências para o futuro da espécie humana à medida que as mudanças climáticas avançam.”

Um dos pontos críticos é a perda de gelo marinho. O Ártico não estava apenas relativamente quente no último ano – batendo o recorde anterior estabelecido em 2010 de 0,17 graus Celsius – ele também experimentou o menor volume de gelo marinho já registado, e a segunda menor extensão. O gelo marinho é essencial para muitas espécies árticas, de ursos polares a morsas, e de narvais a focas.

Em apenas 30 anos, o volume de gelo marinho caiu vertiginosamente, diminuindo 76% de 1979 (16.855 quilómetros cúbicos) a 2011 (4.017 quilómetros cúbicos). Essa perda de gelo marinho também leva a um aquecimento regional e global, já que o gelo do Mar Ártico reflete a luz solar de volta ao espaço, resfriando não apenas a região, mas o mundo.

A perda de gelo marinho pode também ter um impacto direto no clima das latitudes médias. Na verdade, investigações recentes sugerem que o período de frio extremo experimentado pela Europa neste inverno esteja ligado à diminuição do gelo marinho no Ártico.

Os investigadores argumentam que a Oscilação Ártica, que é parcialmente responsável pelas condições climáticas do Hemisfério Norte no inverno, perturbou-se pela diminuição do gelo marinho, causando mais invernos extremos, como o período de frio na Europa e as grandes nevascas que atingiram os EUA em 2009 e 2010.

Mas não é apenas a perda de gelo marinho que criou grandes preocupações: os gases de efeito de estufa (GEEs) do derretimento do gelo permanente também podem ser desastrosos.

Um estudo publicado na Nature no ano passado alertou que as emissões de GEEs do derretimento do gelo permanente poderiam igualar-se à quantidade emitida atualmente pelo desmatamento mundial, uma estimativa significativamente maior do que a havia sido apresentada anteriormente.

Além disso, já que as emissões do derretimento do gelo permanente incluem metano, um GEE mais potente do que o carbono, o degelo poderia ter um impacto 2,5 maior do que o desmatamento global.

“A estimativa maior deve-se à inclusão de processos não detetados nos modelos atuais e novas estimativas da quantidade de carbono orgânico estocado no fundo de solos congelados”, explicou o coautor Benjamin Abbott, estudante de graduação da Universidade do Alasca em Fairbanks, num comunicado à imprensa. “Há mais carbono orgânico nos solos setentrionais do que há em todas as coisas vivas combinadas; é incompreensível.”

O investigador da Universidade da Florida Edward Schuur afirma que não espera que as emissões de GEEs do gelo permanente ultrapassem as emissões de GEEs antropogénicas (causadas pelos humanos) logo, embora elas possam tornar-se “um amplificador importante das mudanças climáticas”.

Outros pontos críticos incluem uma entrada de água doce no Oceano Atlântico por causa do derretimento do gelo e das geleiras, já aumentado em 30%, o que Duarte declara que “pode afetar todo o sistema de correntes oceânicas e, como resultado, o clima num nível regional”.

Os governos têm respondido ao aquecimento no Atlântico com uma corrida aos recursos. Os governos nos territórios árticos planeiam expandir drasticamente a exploração de petróleo e gás, utilizando novas rotas de navegação, e aumentar a mineração. A industrialização do Ártico, segundo Duarte, pode acelerar os impactos na frágil região e aumentar os pontos críticos.

“[Os pontos críticos do Ártico] representam um teste para a nossa capacidade como cientistas e como sociedades de responder às mudanças climáticas abruptas”, disse Duarte. “Precisamos parar de debater a existência dos pontos críticos no Ártico e começar a lidar com a realidade das perigosas mudanças climáticas.”

“Argumentamos que os pontos críticos não precisam ser pontos sem volta. Muitos pontos críticos, como a perda do gelo marítimo de verão, podem ser reversíveis em princípio – embora difíceis na prática. No entanto, se essas mudanças envolverem a extinção de espécies chave – como os ursos polares, as morsas, as focas dependentes de gelo e mais de mil espécies de algas de gelo – elas podem representar um ponto sem volta.”

A solução, afirmou Duarte, é cortar as emissões de combustíveis fósseis, que estão a causar as mudanças climáticas.

Referências: Carlos M. Duarte, Timothy M. Lenton, Peter Wadhams, Paul Wassmann. Abrupt climate change in the Arctic. Nature Climate Change, 2012; 2 (2): 60 DOI: 10.1038/nclimate1386.

Artigo de Jeremy Hance, publicado em Mongabay a 14 de fevereiro de 2012. Tradução de Jéssica Lipinskipara Instituto Carbono Brasil

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