China: a revolução silenciosa

Tomi Mori, Esquerda.net, 24 de dezembro de 2011

Não é raro que acontecimentos importantes nas nossas vidas ocorram sob os nossos narizes e sejamos os últimos a percebê-los. Esse parece ser o caso da nova revolução chinesa. Uma revolução silenciosa, que está a ocorrer diante dos nossos olhos e ninguém parece se dar conta.

O ano de 2011 foi marcado por grandes lutas e, principalmente, revoluções. São tantas e em tantos locais que levantes fenomenais, como ocorreu recentemente em Wukan, na província de Guangdong, não mereceram sequer análise mais profunda. Neste ano que acaba, fazer levantes transformou-se numa atitude óbvia.

Em Wukan, após vários dias de rebelião aberta contra a burocracia governante, que cercou o povoado, deixando-o isolado, a população local arrancou uma importante vitória, ainda que não se possa dizer que não venha a haver retaliações nos próximos dias. Após o levante, que explodiu com o assassinato de Xue Jinbo, dirigente da luta contra o roubo das terras por construtoras e funcionários comunistas corruptos, os manifestantes forçaram o Partido Comunista a congelar as negociatas das terras que estavam a ser roubadas, libertar vários ativistas presos e demitir funcionários corruptos da administração local. O que, desde logo, não é pouca coisa na repressiva China e, mais do que isso, se transformou num grande símbolo de luta para todo o país.

A poeira nem tinha baixado em Wukan e, na seqüência, a população de Hainem, a apenas 130 km de Wukan, na costa da província de Guangdong, levantou-se em protestos contra a construção de uma central de carvão. “As fábricas são prejudiciais à saúde. Os nossos peixes estão a morrer, várias pessoas estão com cancer. Em que lugar no mundo se constroem duas centrais a apenas um quilómetro de distância?”, comentou um dos manifestantes.

Greve vitoriosa na LG

As revoltas de Wukan e Hainem poderiam ser as últimas de um ano convulsivo, mas não foi o caso.

Cerca de oito mil trabalhadores da sul-coreana LG, líder mundial na produção de ecrãs, entraram em greve, que durou três dias, contra as diferenças no pagamento de bónus anuais. Enquanto os trabalhadores coreanos recebem o equivalente a seis meses de salários como bónus de final de ano, os trabalhadores chineses recebiam apenas o equivalente a um mês de salário. Esta foi a fagulha que desencadeou a curta greve, em Nanjing (Nankin), na província de Jiangsu, ao norte de Shangai, que obrigou a LG a pagar dois meses de salários como bónus de final de ano. Uma importante vitória parcial, sem dúvida.

Mas, se alguém pensa que essa foi a última luta do ano, enganou-se. No coração da vanguarda chinesa concentrada na província de Guangdong, que possui o mais poderoso proletariado do planeta, estourou outra mobilização.

No dia 27, os trabalhadores da Guangzhou Áries Autopeças, de capital japonês, localizada na cidade de Guangzhou, capital da província de Guangdong, que fornece peças para a Honda e Toyota, iniciaram uma mobilização contra a redução no bónus de final de ano, num período em que a empresa obriga os funcionários a uma jornada mais longa de trabalho.

Segundo pesquisadores, as greves, protestos e manifestações na China em 2010 foram cerca de 180 mil. Um numero fantástico. Segundo a burocracia chinesa, o número foi bem menor, apenas 90 mil! O que não deixa de ser, em qualquer caso, um número fabuloso.

Censura do PC

A revolução chinesa transformou-se numa revolução silenciosa, não por decisão dos trabalhadores. Mas pelo facto de o Partido Comunista censurar com todas as suas forças as informações. Apagando-as sistematicamente da Internet, cujo número de usuários, o governo não consegue controlar completamente. A Internet tem sido um dos principais instrumentos na organização da luta e para driblar a censura governamental. Transformou-se numa fonte de dores de cabeça tão grande que o governo chinês pretende obrigar todos os bloggers a registarem-se com os seus nomes verdadeiros. O que representa mais um ataque às poucas liberdades conquistadas.

A China transformou-se na segunda potência econômica e isso todo o mundo sabe. Mas a outra face desse fenómeno, que poucas pessoas se deram conta, é de que a China está grávida de uma grandiosa revolução, que tem tudo para acontecer num futuro próximo.

O crescimento econômico criou também o mais poderoso proletariado do planeta, concentrado nas fábricas de Guangdong. É um proletariado jovem, rebelde, que não está amortecido pelas burocracias sindicais que infestam o movimento operário mundial, que demonstrou neste ano que finda uma valente combatividade, protagonizando uma poderosa e simbólica maré de greves.

A crise mundial está a provocar uma desaceleração no crescimento econômico chinês e isso será mais um dos combustíveis na explosão que se aproxima, já que obrigará os trabalhadores a sair à luta para se defenderem.

Uma resposta

  1. UM OLHO NA CHINA, OUTRO NO BRASIL

    A distância entre a notícia publicada na mídia e a percepção da sociedade

    Tenho certeza que você leu a notícia: “Economia brasileira é a sexta maior do Mundo”. Ou seja, na frente do Brasil os EUA, China, Japão, Alemanha e França; sendo que ganhamos a posição que antes era do Reino Unido. Coisa para encher de orgulho os brasileiros. Ou seja, usando o jargão político da moda, nunca na estória desse país chegamos a tal posição.

    O Ministro da Fazenda rapidamente arrematou: em vinte anos os brasileiros poderão ter padrão de vida igual aos dos europeus; só não disse se estava se referindo aos padrões antes da crise por que passa a Europa, ou ao atual padrão.

    Ou seja, o Brasil está à frente do Reino Unido na escala agora apresentada, mas sabe-se que o padrão de vida do brasileiro é bastante inferior a qualidade de vida no Reino Unido. O IDH – índice que mede o desenvolvimento humano das nações – é de 28 para o Reino Unido, enquanto o Brasil é 84, em uma escala que vai até 187 (total de países pesquisados).

    Não resta dúvida que para o Governo a notícia foi um “presente de Natal. Mas fica a pergunta: como o povo percebeu (se é que entendeu) este presente?

    Olhando em volta – segurança pública, saúde, educação e corrupção – a sociedade não encontra nada que a leve a perceber o significado do “presente de Natal”; pelo contrário, tem tudo para não entender a notícia que circulou em toda a imprensa brasileira e, também, na internacional.

    Na área da segurança pública e saúde as evidências são de uma crise crônica e com dificuldade de solução em curto prazo, pois depende de alterações profundas no processo de gestão e, sobretudo, de um profundo choque de moralização de comportamentos. Na educação, o descrédito nos recentes e cíclicos problemas de vazamento de informações nos processos de avaliação dos estudantes. Por último, em relação à corrupção, seis ministros demitidos ligados a cinco partidos da sustentação do Governo.

    Frente a toda esta percepção natural do dia-a-dia (percepção do entorno) a sociedade brasileira fica intrigada em imaginar que superamos o Reino Unido na indicação das maiores economias do mundo.

    Se levarmos em conta que, no Brasil, 2012 não terá um cenário muito diferente daquele que vivenciamos em 2011, dado que os problemas econômicos dos países europeus e os EUA ainda estão longe de serem considerados como resolvidos, a economia mundial ainda irá depender do desempenho de China e Índia para que o crescimento da economia mundial – do qual o Brasil depende – não sofra uma ação de descontinuidade.

    No Brasil, no ano que se inicia, não está totalmente descartada a possibilidade da subida dos juros e da inflação que, poderá ter seus efeitos absorvidos por ações do Governo, mas que se isso não ocorrer no ritmo necessário poderá colocar o país em condições menos favoráveis que àquelas percebidas hoje em um cenário de euforia. Isso tudo tendo como pano de fundo a imprescindível evolução das atividades da indústria nacional.

    Resumindo a estória (se é que isso é possível), pode-se dizer que a sociedade não verá os reflexos da nova posição do Brasil, entre as grandes economias do mundo, em um horizonte de curto e médio prazo. Possivelmente poderá sentir tais efeitos em longo prazo, particularmente se – e apenas se – o Governo adotar as posições que precisarão ser tomadas.

    Várias conjunturas – algumas independentes da ação do Governo – nos levaram a realidade de estarmos em evidência na economia mundial, entretanto, e isso é inevitável, serão as novas ações do Governo que irão possibilitar que continuemos nessa posição.

    Roosevelt S. Fernandes, M. Sc.
    roosevelt@ebrnet.com.br

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