Demolindo represas, soltando rios

Fernando Reinach, O Estado  de S.Paulo, 22 de dezembro de 2011

No Brasil, cientistas trabalham contra o tempo. É necessário mapear a flora e fauna dos rios antes que a construção de hidrelétricas alterem o ecossistema. Nos EUA, cientistas também trabalham contra o tempo, também mapeando a flora e a fauna dos rios, mas a preocupação é inversa. Eles querem saber o que vai ocorrer após a demolição de pequenas centrais hidrelétricas. Isso mesmo, aqui tentamos determinar o impacto das represas, nos EUA eles tentam determinar o impacto da remoção das represas.

Nos EUA existem quase 80 mil represas com mais de 3 metros de altura. Grande parte delas foi construída no início do século 20, durante o processo de industrialização, com o objetivo de gerar eletricidade para serrarias, pequenas indústrias ou vilarejos. Elas produziram energia limpa por quase um século e agora não conseguem competir com a energia suja (emissora de gás carbônico) produzida por centrais termelétricas movidas a gás ou petróleo.

Após 100 anos as licenças para operar essas hidroelétricas estão expirando. Para renovar as licenças, os donos das represas são obrigados a fazer investimentos para garantir a segurança e cumprir novas regras ambientais. A construção de escadas para permitir a migração de peixes é uma das exigências. Feitas as contas, muitas vezes é mais barato comprar energia de termelétricas do que reformar as represas. Assim, aos poucos elas estão sendo demolidas e os rios, correndo livres.

Na década de 1990, aproximadamente dez dessas represas eram demolidas a cada ano, mas este número aumentou gradativamente. Em 2010 foram demolidas 60 represas, algumas delas, como a de Glines Canyon, de 64 metros de altura, e a de Elwala, de 33 metros, de tamanho médio. No total mais de mil repesas já foram demolidas e muitos acreditam que este é só o começo.

Demolir uma represa pode causar um desastre ecológico. Se o sedimento e a água forem liberados rapidamente podem destruir os ecossistemas rio abaixo. Assim, as demolições são feitas aos poucos, ao longo de um ou mais anos. Como no início do século 20 não se faziam estudos de impacto ambiental antes da construção das hidrelétricas, não sabemos com precisão o que existia nos rios antes das represas, mas agora existe a possibilidade de observar em tempo real a recuperação dos rios.

Grande parte da preocupação é com os cardumes de salmão que praticamente desapareceram no último século. Será que eles voltarão? Em quantos anos?

É interessante observar o debate nos EUA. Enquanto ambientalistas preocupados com a biodiversidade dos rios e a preservação dos peixes comemoram a derrubada das represas, outros ambientalistas, preocupados com o aquecimento global, lamentam a substituição de fontes limpas de energia elétrica por centrais termelétricas, responsáveis por parte do aquecimento global.

No Brasil, o debate é semelhante. Ambientalistas preocupados com a biodiversidade combatem as hidrelétricas e o represamento dos rios. Ambientalistas preocupados com o aquecimento global lamentam que a gradativa introdução de centrais termelétricas, estimuladas pelas recentes descobertas de gás e petróleo, venham a sujar a matriz energética do Brasil.

O debate sobre a melhor forma de obter a energia é complexo e vai acompanhar a humanidade por muitas décadas. Mas só vai progredir quando a sociedade aprender a comparar maçãs e peras. Se os custos fossem iguais, você adotaria o modelo americano (aquecimento global com rios soltos) ou o brasileiro (rios presos e pouca emissão de gases de efeito estufa)?

É preciso desenvolver modelos e tecnologias capazes de quantificar do ponto de vista ambiental fenômenos tão distintos como a perda de biodiversidade em uma bacia hidrográfica, a emissão de gás carbônico por uma termelétrica, e a morte de pássaros nas turbinas eólicas. Sem estes instrumentos será difícil escapar de análises e decisões baseadas unicamente no custo das diferentes fontes de energia.

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