Repare, Senhor Monti, quanta riqueza há na Itália

Segundo o estudo do Banco de Itália, a riqueza está concentrada no topo da pirâmide e as famílias de baixo rendimento são, ao mesmo tempo, as mais endividadas.

Salvatore Cannavò, Esquerda.net, 24 de dezembro de 2011

O Banco de Itália publicou um estudo sobre a riqueza das famílias italianas no final de 2010. Tal como nos anos precedentes, vem à luz do dia o quadro de um país bastante rico, sobretudo devido à propriedade de habitação, com uma riqueza concentrada no topo da pirâmide e com as famílias de baixo rendimento que são, ao mesmo tempo, as mais endividadas. Uma radiografia que deveria ser observada atentamente quando se decidiu sanear este país. Não parece que o governo de Monti o tenha feito.

No final de 2010 a riqueza bruta das famílias italianas era de aproximadamente 9.525 mil milhões de euros, correspondentes, em média, a pouco menos de 400 mil euros por família. Os bens (habitação, terrenos, armazéns, fábricas) representavam 62,2% da riqueza bruta, cerca de 5.925 mil milhões de euros, e a atividade financeira (ações, depósitos, títulos) representava 37,8%, cerca de 3.600 mil milhões de euros. As dívidas dos privados correspondiam a 887 mil milhões, representando 9,3% dos ativos. Em comparação com 2009, não se verificou variação da riqueza líquida medida em preços correntes. A preços constantes, no entanto, e utilizando o deflator do consumo, a riqueza diminuiu 1,5%.

Nas comparações internacionais, as famílias italianas apresentam uma riqueza bruta elevada, igual, em 2009, a 8,3 vezes o rendimento disponível (contra 8 no Reino Unido, 7,5 em França, 7 no Japão, 5,5 no Canadá e 4,9 nos Estados Unidos). Esta comparação também revela um endividamento relativamente baixo: o montante das dívidas é de cerca de 82% dos rendimentos disponíveis (em França e na Alemanha é de cerca de 100%, nos Estados Unidos e no Japão é de 130%, no Reino Unido de 170%).

A distribuição da riqueza é, no entanto, caracterizada por um elevado grau de concentração: “muitas famílias têm níveis modestos ou nulos de riqueza” diz o Banco de Itália; “em contrapartida, poucas famílias dispõem de uma riqueza elevada”. As informações sobre a distribuição da riqueza – resultantes do universo da análise feita pelo Banco de Itália aos orçamentos familiares – indicam que no final de 2008 a metade mais pobre das famílias detinha 10% da riqueza total, enquanto que 10% das mais ricas detinham quase 45%. O índice de Gini, que varia entre 0 (mínimo de concentração de riqueza) e 1 (máximo de concentração) era de 0,613. As estimativas para 2010 apontam para um crescimento para 0,624, “um aumento presumivelmente devido aos efeitos da grande recessão e que o põe ao nível de valores verificados no final dos anos 90”.

Do ponto de vista de ativos financeiros, a sua composição é distribuída da seguinte maneira: 43,2% correspondem a obrigações privadas, títulos estrangeiros, empréstimos a cooperativas, ações e outras participações e quotas de fundos de investimento. O numerário, os depósitos bancários e os certificados de aforro representam 30%, cerca de 1 bilião de euros; a parte investida diretamente pelas famílias em títulos de dívida pública ronda os 5%, cerca de 180 mil milhões. Considerando que, no final de 2010, a dívida pública italiana se situava em 1843 mil milhões de euros, dos quais 83% correspondem a títulos do Estado (1530 mil milhões) é interessante constatar que só 11,7% desse montante é detido diretamente pelas famílias italianas, quota que, em termos percentuais, apresentou uma redução relativamente a 2009.

As reservas técnicas de segurança, que representam os montantes de reserva dos seguros e dos fundos de pensões para garantir o futuro das prestações sociais das famílias italianas, totalizavam 18,6% do total da atividade financeira.

Interessante é também a análise da tipologia da riqueza. No final de 2007, data das informações mais recentes relativas aos depósitos, e fazendo uma desagregação por classe de quantia, 57% do valor total detido pelas famílias “correspondia a contas com saldos inferiores a 50 mil euros, cerca de 30% correspondia a contas com saldos entre 50 e 250 mil euros e os restantes 13% a saldos com montantes superiores”. Em 2000, as quotas relativas às mesmas classes eram, respetivamente, de 69, 22 e 9%. Como ó próprio Banco de Itália observa “a comparação evidencia uma transferência bastante marcada das classes inferiores para as classes mais elevadas, sobretudo para a que está entre 50 mil e 250 mil euros”.

O fluxo de dinheiro é, pois, direto e sempre para cima, em benefício dos rendimentos e das fortunas que não são afetados pelos planos de recuperação financeira.

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