Depois de Durban, limitar o aquecimento global a 2 graus Celsius é uma utopia

“Após o acordo obtido em Durban, agora não há mais nenhuma chance de que haja um empenho rápido na redução de emissões de gases de efeito estufa, uma vez que o grande acordo internacional esperado só deve entrar em vigor em 2020!”, constata o climatologista francês. Stéphane Hallegatte é climatologista e economista da Météo France e do Centro Internacional de Pesquisa sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (Cired). Esse cientista francês é um dos principais autores do próximo relatório do Painel Intergovernamental sobre a Mudança Climática (IPCC, sigla em inglês), esperado para o final de 2013. O IPCC está realizando uma reunião de trabalho em San Francisco, até o dia 16 de dezembro.

Entrevista com Stéphane Foucart, Le Monde / Uol, 14 de dezembro de 2011

O resultado da cúpula de Durban sobre o clima, que terminou no domingo (11), deixa em aberto a possibilidade de limitar o aquecimento em 2 graus Celsius acima do nível pré-industrial?

Após o acordo obtido em Durban, agora não há mais nenhuma chance de que haja um empenho rápido na redução de emissões de gases de efeito estufa, uma vez que o grande acordo internacional esperado só deve entrar em vigor em 2020!

Mas se as emissões não começarem a diminuir antes dessa data, será preciso em seguida fazer esforços maciços para reduzi-las, se quisermos ter uma boa chance de permanecer abaixo do nível dos 2 graus Celsius. Por esforços maciços entende-se uma diminuição acima de 5% por ano das emissões mundiais. É preciso dizer que a maior queda da História se deu na França nos anos 1980, durante o pico de desenvolvimento do setor eletronuclear e com grandes esforços de economia de energia, e que essa queda foi “só” de cerca de 4% ao ano…

O que foi possível para um país rico e desenvolvido não o é para o mundo como um todo, com 2 bilhões de seres humanos que nem sempre têm acesso a eletricidade, uma população urbana que não para de aumentar e o acesso aos transportes individuais, que vem se banalizando. Diminuir as emissões mundiais em 5% ao ano sem frear a redução da pobreza parece impossível.

 Então a meta dos 2 graus Celsius foi definitivamente perdida?

O único meio de conseguir isso seria supondo que seremos capazes de fazer “emissões negativas” muito grandes na segunda metade do século 21, tirando, por exemplo, muito CO2 da atmosfera, capturando-o e conseguindo sequestra-lo abaixo da terra. Mas as tecnologias de captura e de sequestro não estão suficientemente desenvolvidas hoje, e seus riscos associados são difíceis de avaliar.

Limitar o aquecimento a 2 graus Celsius é, portanto, uma meta atingível se nos ativermos a hipóteses extremamente otimistas. Seria preciso conseguir diminuir as emissões muito rapidamente e em grande intensidade após 2020, mantendo ao mesmo tempo o crescimento nos países pobres.

Deve-se manter uma meta que quase todo mundo sabe hoje ser quase inatingível?

Não há consenso nesse ponto. Para alguns, ainda é útil ter como meta aquilo que gostaríamos de ver se realizando… Mas é verdade que, se pensarmos nas políticas a implantar tendo em mente o número de 2 graus Celsius, evidentemente inatingível, isso não é muito construtivo. Em um momento, portanto, será preciso levantar a questão de uma mudança de passo.

Se daqui a três ou quatro anos não houver a manifestação de uma grande vontade política em nível mundial para limitar o aquecimento, os 2 graus Celsius claramente se tornarão utópicos. Na verdade, estamos perto do momento onde será insustentável continuar a incluir essa meta nos acordos internacionais e nas declarações políticas. Esse objetivo dos 2 graus Celsius ainda está presente no acordo assinado em Durban.

Desde quando esse número é apresentado nas negociações climáticas?

Ele apareceu nos textos oficiais após a cúpula do G20 que precedeu a cúpula de Copenhague sobre o clima, em dezembro de 2009. Mas é um número que foi formulado pela primeira vez pela União Europeia nos anos 1990, em uma época em que permanecer abaixo dos 2 graus Celsius de aquecimento parecia relativamente fácil. É um número mais político que científico. Ele representa um equilíbrio entre aquilo que parecia desejável e aquilo que parecia possível, a um custo aceitável.

Mas, quanto mais se espera para agir, mais difícil fica de se manter uma meta como essa. Nas decisões políticas clássicas, adiar uma realização não muda fundamentalmente o resultado. Com o clima, é muito diferente: a cada vez que se adia uma ação, os meios para implantá-la se tornam mais substanciais e os benefícios, menores. Esperar custa caro.

Na sua opinião, o que falta ao atual sistema de negociações, considerado por muitos observadores como bastante decepcionante?

É um problema extremamente difícil. Na realidade, trata-se de transformar todas as economias do mundo, tornando-as limpas, e de dividir grandes esforços de redução das emissões de gases de efeito estufa.

A negociação começou no início dos anos 1990, enquanto havia, de um lado, países pobres, e do outro, países ricos. A emergência da China, da Índia e do Brasil mudou tudo. E enquanto o equilíbrio de poderes entre os países do Norte e os emergentes não se estabilizar, as discussões internacionais não avançarão.

Na minha opinião, precisamos de ações que surjam localmente. Isso porque, paralelamente a resultados decepcionantes da negociação, acontecem muitas coisas localmente, mesmo em países como os Estados Unidos e a China.

Ali, quantias colossais são investidas em pesquisa e desenvolvimento, sobre energias renováveis, economia de energia, transportes… Quando projetos locais mostrarem que há vias de desenvolvimento e de melhorias no nível de vida sem um forte consumo de energia fóssil (petróleo, gás e carvão), as negociações terão sucesso.

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