Japão: seis meses depois de Fukushima

A situação, longe de estar normalizada, ainda constitui uma séria ameaça não só aos japoneses, mas aos países vizinhos e à população mundial.

Tomi Mori, Esquerda.net, 6 de setembro de 2011

Quase seis meses depois do pacote de tragédias que assolou o Japão no dia 11 de Março, o que vemos é a ampliação dos problemas aflorados naquele dia. E a situação, longe de ter sido normalizada, ainda constitui uma séria ameaça não só aos japoneses, mas aos países vizinhos e também à população mundial. Exagero? A tragédia começou com um terramoto, seguido de tsunami, ampliado com a crise nuclear e o maior festival de mentiras da história recente. O que vimos e vemos é uma mistura de impotência, ignorância, multiplicada pela ganância capitalista, no que se transformou no mais profundo acidente desde a barbárie do pós-guerra. Tendo ocorrido num dos principais países imperialistas e numa das sociedades mais desenvolvidas do ponto de vista tecnológico, que lições podemos tirar desses acontecimentos?

Não há como esgotar estas discussões no âmbito de um pequeno artigo, mesmo porque, com o passar dos dias, o impacto cientifico, social e económico está longe de ter terminado.

Terramotos, tsunamis e desastres naturais

O terramoto, de magnitude 9, que ocorreu na região nordeste da ilha de Honshu, a principal do arquipélago japonês, foi um dos mais poderosos eventos naturais registados na história do planeta. Perdeu, na lista dos terramotos, apenas para o Chile em 1960 (magnitude 9.5); os EUA (Alasca) em 1964 (magnitude 9.2); Sumatra em 2004 (magnitude 9.1~9.3); a Rússia em 1952 (magnitude 9.0).

Não sabemos quantos morreram devido ao terramoto, provavelmente milhares, já que o número total de mortes registadas corresponde também ao avassalador tsunami que se seguiu. O terramoto destruiu milhares de construções no nordeste e danificou outros milhares. Foi sentido não apenas no nordeste, mas numa ampla área da ilha de Honshu. A devastação sofrida no nordeste chegou até à província de Chiba, vizinha a Tóquio e, inclusive, a construções na capital japonesa.

Os terramotos fazem fazem parte da história da tragédia humana e, em vários casos, deixaram milhares de mortos; foi o caso da China (magnitude 8.0) em 1556 (820/830 mil mortos); Portugal (magnitude 8.5~9.0), em 1755 (10~100 mil mortos); Sumatra, em 2004 (230 mil mortos); Haiti (magnitude 7.0), em 2010 (222 mil mortos).

O Japão, em menos de 100 anos, sofreu nada menos de três grandes terramotos: o de Tóquio (magnitude 7.9), em 1923, que deixou 142 mil mortos; o de Hanshin, onde fica a cidade portuária de Kobe (magnitude 7.2), em 1995, provocando a morte de 6434 pessoas. Segundo registos existentes, a região do nordeste sofreu outro grande terramoto, no ano de 869, de magnitude 8.6 (estimada), indicando ser uma área propícia a esse tipo de desastre natural.

O tsunami, que se seguiu ao terramoto, com poder devastador atingiu, em certas localidades, a altura de mais de 40 metros, segundo estudos recentes feitos por especialistas. Causou milhares de mortes, destruiu e danificou milhares de construções, inundou uma vasta área, dizimando também a agricultura local e destruindo, praticamente, a indústria pesqueira. Milhões de pessoas puderam ver através da televisão e da Internet a imagem de um barco deixado sobre um edifício pelo poderoso tsunami.

O perigo continua

Hoje, pela madrugada, fui sacudido por um terramoto. Foi leve, magnitude 4.7, no epicentro, na província de Saitama, vizinha a Tóquio. Afirmar que um terramoto magnitude 4.7 é leve, demonstra, inequivocamente, a gravidade da situação actual. Desde o 11 de Março, perdi a conta dos terramotos de magnitude superior a 6.0, recentemente tivemos um de 6.8. O que isso significa? Significa que o Japão actual vive uma poderosa actividade sísmica. Os especialistas, imediatamente após o grande terramoto, afirmaram que um aftershock de magnitude 8.0 poderia ocorrer nos dias subsequentes; felizmente, até o momento, não ocorreu. Mas não quer dizer, que após seis meses, não possam ocorrer. A actual actividade sísmica, que é concreta, tem gerado, ainda, poderosos terramotos. Digamos que, por sorte, esses terramotos ocorreram em locais onde não causaram nenhuma nova tragédia, mas não está descartada a hipótese de os terramotos, que são diários na província de Fukushima, poderem um dia destes, atingir em cheio a central nuclear. O que pode ocorrer caso isso aconteça? Bem, deixo à imaginação dos leitores… Seria um grotesco exagero da minha parte, se esse argumento não fosse baseado na minha diária averiguação dos terramotos japoneses. Ocorrem diariamente, como média, de 10 a 20 terramotos cuja magnitude varia de 2.0 e 7.0. Que país, em todo o planeta, vive uma situação semelhante? Mas não é um país qualquer, trata-se da segunda potência imperialista e da terceira economia mundial.

Entre as tragédias naturais, como os furacões, tormentas, inundações, soterramentos, secas e irrupções vulcânicas, o terramoto ocupa um lugar especial. Enquanto as outras calamidades são facilmente previsíveis e antecipadas, o mesmo não ocorre com os terramotos. Porquê? Atrevo-me a dizer que os terramotos causam pânico. Que, para evitar a tragédia de um terramoto, é necessária a evacuação da população. A evacuação consome recursos, dinheiro, interrompe a actividade económica. A maioria delas, se fossem realizadas preventivamente, seriam inúteis. E, para os capitalistas, um desperdício de tempo e de dinheiro. Mesmo que um sismólogo possuísse os dados irrefutáveis de que uma calamidade está próxima, nenhum meio de comunicação se atreveria a divulgar uma notícia dessas para não criar um pânico incontrolável e, ainda por cima, correr o risco de sofrer processos judiciais de todo tipo por promover um alarme falso caso não ocorra. Nesse caso, as autoridades competentes, que representam os interesses do capital, deixam a população à sua própria sorte, mesmo que isso custe milhares de mortes e, na ocorrência de uma grande tragédia, imediatamente têm quem colocar no banco dos réus e lançar todo tipo de acusações. A natureza, essa mesma que nos propicia todos os recursos materiais para o nosso bem-estar social, é convocada ao banco dos réus e recebe todo o tipo de acusações pela ocorrência da tragédia. Simples, não? Alguém já ouviu a frase “Não podemos fazer nada contra a força da natureza!” proferida por políticos impotentes?

Na semana passada, o Yomiuri, o maior jornal japonês, publicou um interessante artigo que, entre outras coisas, dizia que o grande terramoto de Março havia provocado uma grande modificação e que os estudos anteriores deveriam ser re-analisados. O artigo argumentava que o grande terramoto de Kanto (onde se localiza Tóquio), que ocorre regularmente no intervalo de 100 anos, poderia ter o seu prazo encurtado devido ao terramoto de Março. Ou seja, a possibilidade de que um grande terramoto atinja Tóquio, no próximo período, ficou maior. Mas de que adianta saber isso, que cem em cada cem japoneses sabem, se ninguém faz nada? Por que viver em Tóquio e esperar que a sua casa caia sobre a cabeça? Por que esperar que após um terramoto de magnitude 7.0, ou maior, um tsunami adentre a baía de Tóquio e o arraste e a toda a sua família?

A culpa é da natureza, dos deuses, dos homens?

Em determinado momento do desenvolvimento humano, quando os seres humanos não tinham desenvolvido ainda a sua sociedade e os seus recursos materiais, os homens criaram os deuses. Eram os deuses os responsáveis pelas calamidades, bem como pela fartura. Em todo o planeta surgiram milhares de divindades. Essa concepção, criada pelos humanos, acabou por aprisioná-los durante séculos, vigorando de forma absoluta até ao século XIX. E sobrevive nos nossos dias.

Mas será que, em pleno século XXI, numa sociedade materialmente mais desenvolvida, podemos continuar a atirar as culpas sobre os antigos culpados?

Criámos tecnologias como a Internet, que permitem que as informações percorram o globo instantaneamente, ainda que esse avanço seja usufruído por apenas alguns milhões de pessoas. Temos conhecimentos acumulados que não deixam dúvida que parte do planeta não se presta a ser habitável pelos seres humanos se se quer evitar que as chamadas “tragédias naturais” matem milhares. Alguns exemplos? Para quê morar aos pés de vulcões activos? Para quê morar no rota anual dos furacões? Por que morar em cima de uma falha geológica que pode resultar em terramoto? Para quê morar, inclusive, no Japão? Para quê morar na região seca da Somália? A lista é longa…

Por que, mesmo sabendo das “tragédias anunciadas”, continuamos a fazer-nos de cegos, surdos e mudos? Bem, deve ser por que temos por cima das nossas próprias ideias e cabeças uma sociedade objectiva, concreta, que nos força, ou nos torna obrigados a viver de uma forma insensata, insana, imprudente… No actual estágio de desenvolvimento, deixou de fazer sentido acusar os deuses e a natureza de tragédias que os homens têm plena capacidade de evitar. A maioria absoluta das tragédias naturais, como a que assolou o Japão em Março, é derivada da sociedade humana que criámos e das opções que essa mesma sociedade adopta. Este ano, na Ásia, milhares de pessoas vão morrer devido à temporada de furacões, no Japão, no Paquistão, na China, como ocorre todos os anos. No Japão, só neste final de semana, morreram 36 pessoas e 56 estão desaparecidas devido ao furacão que passou pelas ilhas nipónicas. Sabemos disso. Sabemos também que, no próximo ano, outras milhares de pessoas vão morrer pelos mesmos motivos, nos mesmíssimos locais. Culpa dos deuses, da natureza?

Mesmo vivendo no território da segundo potência imperialista, ainda estamos e estaremos submetidos às chamadas “tragédias naturais”.

A tragédia de 11 de Março matou 15.760 pessoas, 4.282 continuam desaparecidas, ou seja, provavelmente foram tragadas pelo mar, jamais serão encontradas; e milhares continuam desabrigadas.

Este é o primeiro de uma série da artigos sobre o tema.

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