Os feiticeiros da rede. Capitalismo digital e eclipse do trabalho

O novo livro de Carlo Formenti é uma crítica pontual das ideologias liberistas aplicadas à Internet e um resumo das teorias marxistas sobre o capitalismo contemporâneo.

Robert Castrucci, Il Manifesto, 1 de junho de 2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto. Reproduzido de IHU Online.

É um Carlo Formenti deliberadamente polêmico o de Felici e sfruttati. Capitalismo digitale ed eclissi del lavoro [Felizes e explorados. Capitalismo digital e eclipse do trabalho] (Ed. Egea, 149 páginas). Em uma mistura de indignação e de irritação, com uma linguagem sarcástica, direta e assertiva, o autor se joga contra a audácia dos gurus da New Economy, o cinismo dos retóricos da Wikinomics e a ilusão das utopias igualitárias da web. A fúria destrutiva arrasta estudiosos como Lawrence Lessig, Yochai Benkler e Manuel Castells.

Os seus discursos sobre a cooperação espontânea, sobre a atenuação da propriedade intelectual, sobre a exaltação da ética hacker e do software livre não fariam nada mais do que aplainar o caminho para um novo tipo de capitalismo digital, na origem do mais colossal processo de concentração monopolista da história do capitalismo.

Como todas as revoluções tecnológicas, a digital também iludiu progressistas e libertários no seu porte emancipatório, na sua capacidade de fundar um novo modo de produção pós-capitalista. Mas a crise da New Economy de 2001, a consequente reestruturação do setor e o tsunami dos subprimes de 2008, segundo o autor, definitivamente esmagaram as ambições de uma “classe criativa” que o sociólogo norte-americano Richard Florida via como destinada a liderar uma sociedade baseada na rejeição das hierarquias, na tolerância e na valorização do talento.

Ao contrário, as tecnologias digitais, longe de favorecer uma liberação do trabalho da relação e produção capitalista, estariam na origem de incrementes de produtividade, sobretudo no campo do trabalho criativo, onde o software progressivamente está substituindo e tornando obsoleto o trabalho humano, mesmo nos cargos de projeto, gestão e controle.

Somando a isso as tendências à deslocalização do trabalho qualificado para países em desenvolvimento, o que emerge é um quadro que vê o Ocidente industrializado sem vetores estruturais capazes de criar bons empregos. Continua sendo um trabalho fragmentado e precarizado, que dificilmente poderá ser atravessado por uma consciência capaz de organizá-lo como classe. Ou melhor, o trabalhador do conhecimento tende a ser intolerante para com um chamado a se dotar de instrumentos de luta coletivos, preferindo um caminho individual de êxodo do trabalho assalariado para formas de trabalho autônomo de segunda geração. Uma mudança que vê a esquerda tradicional em grande atraso.

O trabalho do prosumer

A partir do compartilhamento das sua análise sobre a rejeição do trabalho, Formenti se confronta também com as teorias neo-operaístas, centradas na reinterpretação do famoso fragmento sobre as máquinas dos Grundrisse. Reinterpretando o Marx do primeiro livro de O capital e particularmente do capítulo VI inédito, para Formenti, justamente, as tecnologias de rede aplicadas à produção de conhecimento estão na base de uma nova forma de taylorismo digital, destinado a submeter o trabalho vivo ao domínio de máquinas e de algoritmos.

É verdade – reconhece Formenti – que a rede favoreceu o nascimento de novas formas de cooperação social para a produção de bens não comerciais, mas também é verdade que o capital as usa para se apropriar sistematicamente de recursos que, anteriormente, gozavam do status de commons imateriais, subtraídos do domínio do mercado, além de para explorar o trabalho gratuito de milhões de prosumers conectados via Internet (prosumer é um neologismo usado para indicar aqueles consumidores que participam ativamente na definição dos limites de um artefato digital, fornecendo ideias para superá-los e, assim, ativando os mecanismos de inovação virtuosos e gratuitos para as empresas).

Mas se equivocam também os teóricos neo-operaístas quando, animados por uma fé inabalável e cega na capacidade da multidão de inventar sempre novas formas de auto-organização democrática, acabam paradoxalmente convergindo com os entusiasmos utópicos dos gurus da web 2.0.

Aí vêm os chineses

A inadequação do pensamento neo-operaísta se manifestaria na incapacidade de passar da análise dos mecanismos da nova economia para a análise da composição de classe, tendo-a abandonado para adotar uma visão metafísica da oposição entre capital e vida. A categoria de multidão seria, portanto, uma categoria sem consistência, abstração sem carne nem sangue, que ocultaria a incapacidade de responder à questão da organização.

Porém, a partir dos e-mails enviados pelo movimento zapatista no distante 1994, passando pela organização dos movimentos de Seattle, dos Fóruns Sociais Mundiais, dos movimentos juvenis e estudantis, terminando com as recentes convulsões que incendiaram o norte da África e do Oriente Próximo, as novas tecnologias de comunicação têm-se revelado um formidável meio, capaz de potencializar processos organizativos de baixo.

Essas considerações não bastam para o martelo pneumático de Formenti, que avança demolindo qualquer esperança frágil de mudança, definitivamente afundada por um pessimismo estrutural que chega a identificar uma cumplicidade cultural entre movimentos e discurso do capitalista. É justamente a cultura dos movimentos que abriria caminho para novas modalidades de acumulação capitalista, com base na produção de emoções e de experiências, moldando ao mesmo tempo um material humano que se presta à seleção da elite inovadora.

O único clarão capaz de iluminar uma noite escura e gélida parece vir dos países emergentes como a China, onde se poderia abrir um novo ciclo de lutas fundado na convergência de interesses entre neoproletariato industrial, classe criativa e migrantes. Só resta, portanto, esperar na margem do rio, armados com paciência chinesa.

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