Menos

A resposta da esquerda à crise não se pode limitar a soluções que visem o relançamento do consumo.

Ricardo Coelho, Esquerda.net, 24 de abril de 2011

Quando perguntaram a Samuel Gompers, fundador e ex-presidente da AFL-CIO, a maior central sindical dos EUA, o que queriam os trabalhadores ele simplesmente respondeu “mais!”. Hoje, podemos responder ainda da mesma forma quando nos perguntam o que quer a esquerda. Queremos mais direitos, mais emprego, mais prosperidade e mais bem-estar. Mas atrevo-me a acrescentar, por mais difícil que o seja fazer em período de crise, que poderíamos responder com a mesma assertividade “menos!” a esta questão.

Sabemos bem quais são as consequências de viver numa sociedade de hiper-consumo, na qual trabalhamos cada vez mais e endividamo-nos cada vez mais para poder comprar cada vez mais. Um dos sinais dos tempos que atravessamos é a epidemia da “doença da pressa”, identificada por médicos como um super-stress que decorre do facto de os trabalhadores se tornarem obcecados com o tempo, tal como o Coelho Branco da “Alice no País das Maravilhas”. No meio desta corrida infernal, fica a felicidade, como demonstram os estudos psicológicos realizados ao longo das últimas cinco décadas. Ou seja, a famosa frase dos Beatles “money can’t buy me love” continua tão actual hoje como nos anos 60.

Para que seja claro que não me estou a “Boaventurar” na defesa de políticas de austeridade, uma clarificação é necessária. Até um certo limiar, o aumento do rendimento disponível é crucial para o aumento do bem-estar. O que se verifica é que, a partir deste limiar, mais dinheiro não traz saúde, educação, felicidade ou qualquer uma das coisas que contribuem para o nosso bem-estar. Este paradoxo está bem ilustrado no diálogo entre Elizabeth Taylor e James Dean no filme “O gigante”, quando a rica fazendeira diz ao “cowboy” que o dinheiro não é tudo e ele responde “não para quem o tem”.

A crise ecológica reforça a urgência da redefinição do conceito de bem-estar, indo além do pensamento liberal que o vê como função crescente do consumo. Todos os anos, a pegada ecológica da nossa sociedade industrial cresce, tendo já excedido o máximo comportável pelo planeta em 1987. Ou seja, estamos a consumir recursos naturais a um ritmo que excede o da sua regeneração, acumulando um défice ecológico cujas consequências para a humanidade, particularmente para os mais pobres, são bem mais gravosas que as do défice orçamental, embora não sejam tão mediáticas. Alterações climáticas, erosão dos solos, esgotamento da água potável, extinção de espécies e poluição da água e do ar são algumas das faces de uma bio-crise que traz a miséria e a morte a milhões de pessoas. Tudo para alimentar um sistema produtivo orientado para o crescimento contínuo.

Perante isto, a resposta da esquerda à crise não se pode limitar a soluções que visem o relançamento do consumo, como se a espiral de consumismo alimentada pela publicidade alienante, pela escravatura da população asiática, pelo crédito fácil e pela degradação ambiental tivesse algum lugar num projecto de construção do socialismo. É possível que não haja outra solução senão o crescimento neste momento, dada a necessidade de pagar a dívida e de reestruturar o aparelho produtivo. Mas os objectivos pelos quais lutamos, como a erradicação da pobreza, o pleno emprego, a saúde e educação públicas e de qualidade, o acesso à cultura, em suma, tudo o que é essencial para garantir uma boa vida para todos e todas, são alcançáveis numa sociedade de crescimento zero, uma sociedade orientada para a redistribuição, a sustentabilidade e o bem comum.

O aumento do PIB não reflecte um progresso na prossecução de qualquer um destes objectivos. O PIB mede apenas o que é produzido e não discrimina entre a produção de medicamentos ou de armas, entre o investimento em energia limpa ou o desperdício de energia ou entre o consumo de bens essenciais e o consumo de bens de luxo. Inversamente, o PIB não mede o que não é produzido e transaccionado, como o resultado do trabalho doméstico e familiar, não reflecte as desigualdades de rendimentos e não contabiliza os custos externos da produção, nomeadamente os da poluição.

Frequentemente, menos é mais e mais é menos. Defender o direito à preguiça é tão importante como defender o direito ao trabalho. Defender mais direitos sociais para os mais pobres é tão importante como defender menos privilégios para os mais ricos. Defender uma maior produção alimentar é tão importante como defender uma menor produção de veículos poluentes.

Para termos um aparelho produtivo que garanta o emprego e a sustentabilidade social e ambiental, soluções anti-crise do tipo “ó tempo volta para trás” não são uma opção. Esta ideia não deve ser vista como uma heresia para keynesianos, já que Keynes sonhava com o dia em que o problema económico (entendido como a satisfação de necessidades ilimitadas com recursos escassos) deixasse de existir. O mesmo se pode dizer em relação a marxistas, já que Marx compreendia bem a necessidade de regular o sistema produtivo de forma a respeitar o metabolismo da natureza. Do que se trata, portanto, é de aproveitar as melhores teorias económicas, de as actualizar e analisar criticamente e de concretizar a mudança social que permita aprofundar a democracia económica e ecológica. Nada menos que o nosso futuro comum depende deste desafio.

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