Eco-agricultura pode duplicar a produção alimentar em 10 anos

Baseado numa extensa revisão da literatura científica recente, um estudo das Nações Unidas apela a uma viragem fundamental para a agroecologia como forma de expandir a produção alimentar e melhorar a situação dos mais pobres.

Esquerda.net, 13 de março de 2011

“Até este momento os projectos agroecológicos têm mostrado um aumento de 80% no rendimento médio das culturas em 57 países em desenvolvimento, com um aumento médio de 116% para todos os projectos Africanos”.

Os pequenos agricultores podem dobrar a produção de alimentos dentro de 10 anos em áreas críticas, usando métodos ecológicos, mostra um novo relatório das Nações Unidas. Baseado numa extensa revisão da literatura científica recente, o estudo apela a uma viragem fundamental para a agroecologia como forma de expandir a produção alimentar e melhorar a situação dos mais pobres.

“Para alimentar 9 milhares de milhões de pessoas em 2050, precisamos urgentemente de adoptar as técnicas agrícolas mais eficientes que existam”, diz Olivier de Schutter, relator especial das Nações Unidas para o direito à alimentação e autor do relatório.

“As provas científicas de hoje demonstram que os métodos agroecológicos ultrapassam o desempenho do uso de fertilizantes químicos na expansão da produção de alimentos onde vive quem tem fome – especialmente em ambientes desfavoráveis”.

A agroecologia aplica a ciência ecológica na concepção de sistemas agrícolas que podem ajudar a pôr fim às crises alimentares e a enfrentar os desafios das alterações climáticas e da pobreza. Aumenta a produtividade dos solos e protege as colheitas contra pragas ao contar com o ambiente natural, como árvores, plantas, animais e insectos benéficos.

“Até este momento os projectos agroecológicos têm mostrado um aumento de 80% no rendimento médio das culturas em 57 países em desenvolvimento, com um aumento médio de 116% para todos os projectos Africanos. Projectos recentes em 20 países africanos demonstraram uma duplicação do rendimento das culturas ao longo de um período de 3 a 10 anos.

“A agricultura convencional conta com factores caros, alimenta as alterações climáticas e não é resistente em relação aos choques climáticos. Simplesmente já não é a melhor escolha hoje em dia.

“Um grande segmento da comunidade científica agora reconhece o impacto positivo da agroecologia na produção de alimentos, no alívio da pobreza e na mitigação das alterações climáticas – e isto é que é necessário num mundo de recursos limitados. O Malawi, um país que lançou um programa massivo de subsídios aos fertilizantes químicos há alguns anos atrás, está agora a implementar a agroecologia, beneficiando mais de 1,3 milhões das pessoas mais pobres, com aumentos no rendimentos do milho desde 1 tonelada até 2 a 3 toneladas por hectare.”

O relatório também aponta que projectos da Indonésia, Vietname e Bangladesh registaram até 92% de redução no uso de insecticidas para o arroz, levando a poupanças significativas para os agricultores pobres. “O conhecimento veio substituir pesticidas e fertilizantes. Esta foi uma aposta ganha e resultados comparáveis abundam noutros países africanos, asiáticos e da América Latina”, observa o perito independente.

“A abordagem está também a ganhar terreno nos países desenvolvidos como os Estados Unidos, a Alemanha ou a França”, disse. “No entanto, apesar do seu impressionante potencial para a concretização do direito à alimentação para todos, a agroecologia não é ainda suficientemente apoiada por políticas públicas ambiciosas e, consequentemente, dificilmente ultrapassa a fase experimental”.

O relatório identifica uma dúzia de medidas que os estados devem implementar para incrementar as práticas agroecológicas. “A agroecologia é uma abordagem intensiva em conhecimento. Requer políticas públicas que apoiem a investigação agrícola e os serviços de extensão participativos”, disse de Schutter.

“Os estados e os doadores têm um papel fundamental a desempenhar aqui. As empresas privadas não vão investir tempo e dinheiro em práticas que não podem ser recompensadas com patentes e que não vão abrir mercados para produtos químicos ou de sementes melhoradas”.

O Relator Especial sobre o direito à alimentação também instou os estados a apoiar organizações de pequenos agricultores que demonstraram grande capacidade para divulgar as melhores práticas agroecológicas entre seus membros.

“Fortalecer a organização social demonstra ter tanto impacte como distribuir fertilizantes. Pequenos agricultores e cientistas podem criar práticas inovadoras quando fazem parceria.

Não vamos solucionar a fome nem parar as alterações climáticas com uma agricultura industrial em grandes plantações. A solução está em apoiar o conhecimento dos pequenos agricultores e a experimentação e em aumentar os rendimentos dos lavradores de forma a contribuir para o desenvolvimento rural.

Se os interessados chave apoiarem as medidas identificadas no relatório, podemos ver uma duplicação da produção de alimentos dentro de 5 a 10 anos em algumas regiões onde vive quem tem fome.

Se teremos ou não sucesso nesta transição depende da nossa capacidade de aprender mais depressa a partir de inovações recentes. Precisamos de andar depressa se quisermos evitar repetidos desastres alimentares e climáticos no século 21”.

O relatório Agro-ecology and the Right to Food foi apresentado ao Conselho dos Direitos Humanos da ONU em Genebra. Está disponível em inglês, francês, espanhol, chinês e russo em: http://www.srfood.org e em http://www2.ohchr.org/english/issues/food/annual.htm

Artigo publicado em Climate and Capitalism. Tradução de Paula Sequeiros.

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2 Respostas

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