O antropoceno: uma nova era geológica

Leonardo Boff, IHU On-line, 8 de fevereiro de 2011

As crises clássicas conhecidas, como por exemplo a de 1929, afetaram profundamente todas as sociedades. A crise atual é mais radical, pois está atacando o nosso modus essendi: as bases da vida e de nossa civilização. Antes, dava-se por descontado que a Terra estava aí, intacta e com recursos inesgotáveis. Agora não podemos mais contar com a Terra sã e abundante em recursos. Ela é finita, degradada e com febre não suportando mais um projeto infinito de progresso.

A presente crise desnuda a enganosa compreensão dominante da história, da natureza e da Terra. Ela colocava o ser humano fora e acima da natureza com a excepcionalidade de sua missão, a de dominá-la. Perdemos a noção de todos os povos originários de que pertencemos à natureza. Hoje diríamos, somos parte do sistema solar, de nossa galáxia que, por sua vez, é parte do universo. Todos surgimos ao longo de um imenso processo evolucionário. Tudo é alimentado pela energia de fundo e pelas quatro interações que sempre atuam juntas: a gravitacional, a eletromagnética e a nuclear fraca e forte. A vida e a consciência são emergências desse processo. Nós humanos, representamos a parte consciente e inteligente da Via-Láctea e da própria Terra, com a missão, não de dominá-la mas de cuidar dela para manter as condições ecológicas que nos permitem levar avante nossa vida e a civilização.

Ora, estas condições estão sendo minadas pelo atual processo produtivista e consumista. Já não se trata de salvar nosso bem estar, mas a vida humana e a civilização. Se não moderarmos nossa voracidade e não entrarmos em sinergia com a natureza dificilmente sairemos da atual situação. Ou substituímos estas premissas equivocadas por melhores ou corremos o risco de nos autodestruir.A consciência do risco não é ainda coletiva.

Importa reconhecer um dado do processo evolucionário que nos perturba: junto com grande harmonia, coexiste também extrema violência A Terra mesma no seu percurso de 4,5 bilhões de anos, passou por várias devastações. Em algumas delas perdeu quase 90% de seu capital biótico. Mas a vida sempre se manteve e se refez com renovado vigor.

A última grande dizimação, um verdadeiro Armagedon ambiental, ocorreu há 67 milhões de anos, quando no Caribe, próximo a Yucatán no México, caiu um meteoro de quase 10 km de extensão. Produziu um tsunami com ondas do tamanho de altos edifícios. Ocasionou um tremor que afetou todo o planeta, ativando a maioria dos vulcões. Uma imensa nuvem de poeira e de gases foi ejetada ao céu, alterando, por dezenas de anos, todo o clima da Terra. Os dinossauros que por mais de cem milhões de anos reinavam, soberanos, por sobre toda a Terra, desapareceram totalmente. Chegava ao fim a Era Mesozóica, dos répteis e começava a Era Cenozóica, dos mamíferos. Como que se vingando, a Terra produziu uma floração de vida como nunca antes. Nossos ancestrais primatas surgiram por esta época. Somos do gênero dos mamíferos .

Mas eis que nos últimos trezentos anos o homo sapiens/demens montou uma investida poderosíssima sobre todas as comunidades ecossistêmicas do planeta, explorando-as e canalizando grande parte do produto terrestre bruto para os sistemas humanos de consumo. A conseqüência equivale a uma dizimação como outrora. O biólogo E. Wilson fala que a “humanidade é a primeira espécie na história da vida na Terra a se tornar numa força geofísica” destruidora. A taxa de extinção de espécies produzidas pela atividade humana é cinquenta vezes maior do que aquela anterior à intervenção humana. Com a atual aceleração, dentro de pouco – continua Wilson – podemos alcançar a cifra de mil até dez mil vezes mais espécies exterminadas pelo voraz processo consumista. O caos climático atual é um dos efeitos.

O prêmio Nobel de Química de 1995, o holandês Paul J. Crutzen, aterrorizado pela magnitude do atual ecocídio, afirmou que inauguramos uma nova era geológica: o antropoceno. É a idade das grandes dizimações perpetradas pela irracionalidade do ser humano (em grego ántropos). Assim termina tristemente a aventura de 66 milhões de anos de história da Era Cenozóica. Começa o tempo da obscuridade.

Para onde nos conduz o antropoceno? Cabe refletir seriamente.

3 Respostas

  1. Depende da homeostase planetária.

  2. Uma análise rádical, rigorosa e de conjunto, própria de uma grande filósofo que muito tem contribuido com as reflexões intra-humanas, intra-eclesiais, sócio-políticas, etc, etc.

  3. Parabéns pelo artigo “O antropoceno: uma nova era geológica”

    Não sou nenhum especialista em ecologia e meio ambiente, mas acompanho, sempre que possível, descobertas, estudos e comentários sobre qualquer tema relevante que sirva para explicar ou me fazer entender as origens e a evolução da Vida no nosso planeta e nossa ascendência, como especie hegemônica no planeta e as consequências dessa “evolução” nestes dois últimos séculos.
    Acredito que, se estivéssemos – hoje – ameaçados pela possibilidade concreta de extinção pelo impacto de um objeto semelhante ao que atingiu a Terra há mais de 60 milhões de anos varrendo da face da Terra os dinossauro e muitas outras espécies, teríamos, em tese, tecnologia para evitarmos o desastre parcialmente ou até em sua totalidade. E sabe por quê? Porque somos “reativos”. Só nos unimos e nos mobilizamos para enfrentar eventuais ameaças à raça humana quando elas são iminentes: daqui a algumas horas, um mês ou até um ano, por exemplo.
    Ironicamente, teria sido graças ao evento que ocasionou o desaparecimento dos dinossauros (que reinaram absolutos sobre a Terra por cerca de 150 milhões de anos), que os ancestrais da nossa espécie tiveram a chance de “descer das árvores”, evoluir, desenvolver autoconsciência, inteligência e, finalmente, tecnologia; a ponto de, atualmente, não apenas termos a capacidade de mapear e “monitorar” corpos celestes com rotas regulares ou errantes na nossa Galáxia, como também criarmos o que for possível e necessário – e certamente nos uniríamos para isso – em termos de artefatos de destruição para tentarmos explodir ou alterar a rota de um corpo dessas proporções, em pleno espaço, a meses ou anos de distância do seu alvo: nosso planeta.
    Para mim, o “cataclismo da vez” (65,5 milhões de anos mais tarde), é a possibilidade vertiginosa do “Aquecimento Global irreversível”, por nossa falta de capacidade de mobilização social e vontade política para modificarmos nossos hábitos de consumo, modelos de produção e crescimento, trocando, por exemplo, o crescimento puramente econômico pelo crescimento humano, como, aliás, já foi preconizado por economistas do porte de Sérgio Besserman e Hugo Penteado, entre outros.

    Efeito “Sapo na panela quente”

    Se você jogar um sapo dentro de uma panela com água quente ele saltará de dentro dela imediatamente para salvar sua vida. Se você puser o mesmo sapo dentro da mesma panela com água fria e for aquecendo-a, gradativamente, ele irá se adaptando e suportando o calor até morrer.

    O aquecimento Global não é uma ameaça que vem de “fora” (do espaço exterior, por exemplo) e que, em alguns segundos, nos atingiria sem qualquer aviso ou chance de reação. A “ameaça” já está aqui! E foi iniciada – como o senhor brilhantemente relata – por nós mesmos por volta do início da Revolução Industrial, há quase 200 anos,como consequência direta do nosso sistema de produção de bens de consumo, máquinas e equipamentos para suprir as demandas internas e externas de uma população mundial que passa a crescer rapidamente a partir da primeira metade do século 19 e continua a crescer – agora quase que vertiginosamente a partir dos anos 1960 – até nossos dias, totalizando, atualmente, mais de 7 bilhões de habitantes.
    Acredito que como os efeitos mais graves desta ameaça ainda acontecem de forma dispersa (embora crescente) pelo planeta como mudanças climáticas severas e repentinas em diferentes regiões do planeta, causando tragédias como ondas de frio ou calor excessivo, crises econômicas por quebra de safras, fome em países sub desenvolvidos, entre outros, “vamos levando…” E, assim, cada um de nós (enquanto indivíduo ou nações) ainda nos comportamos como se a “tragédia ambiental” do outro não tivesse nada a ver conosco. Esquecemo-nos de que somos todos parte de uma só comunidade humana. Meu almoço de hoje pode depender do arroz produzido na China, do milho produzido nos Estados Unidos, do trigo produzido na Argentina etc, só para citar alguns exemplos…
    “Estamos todos totalmente interligados”, como reafirmam os cientistas, ambientalistas, economistas, filósofos e outros estudiosos deste tema.

    “Aquecimento global «rouba» 1,6% do PIB mundial por ano devido ao Aquecimento Global

    Como “a parte que mais dói no nosso corpo (e no corpo das nações) é o bolso”, quem sabe os “1,2 bilhões de dólares (1,6% da riqueza gerada anualmente em todo o mundo) que o Aquecimento Global «rouba» por ano,conforme estudo realizado e apresentado há mais de um ano e meio em Nova Iorque (Fonte: Diário Digital, 26-09-2012), possa, enfim, ser o grande “alerta” – ou termômetro –, para tomarmos atitudes mais concretas sobre o enfrentamento definitivo desta questão fundamental para que “pulemos da panela” enquanto ainda há tempo, de mudarmos nossos hábitos de consumo, valores e tecnologias reutilizando, replantando, reciclando e devolvendo tudo o que for possível à natureza para tentarmos “restaurar” o equilíbrio necessário a nossa própria continuidade enquanto espécie sobre o planeta.

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