Insensível

O nível de mortes devidas a invernos rigorosos no Reino Unido é maior do que na Sibéria. A razão é esta.

George Monbiot, Esquerda.net, 10 de janeiro de 2011

Ao enumerar os factores que distinguem a civilização da barbárie, há um que viria perto do topo: os idosos não são abandonados para morrer de frio. Por esta bitola, o Reino Unido é um país cruel. Apesar de normalmente termos uma das menores diferenças entre as temperaturas de Inverno e de Verão nestas latitudes, temos um dos maiores níveis de mortes devidas a invernos rigorosos. Morrem aqui quase o dobro das pessoas, per capita, do que na Escandinávia e noutros locais do Norte da Europa, embora os nossos invernos sejam tipicamente mais amenos(1). Mesmo a Sibéria tem níveis de mortalidade devida a invernos rigorosos inferiores aos nossos(2). Cá, entre 25 000 e 30 000 pessoas por ano são levadas à sepultura devido ao frio(3) – este Inverno pode ser muito pior.

Porquê? Desigualdade. Temos uma elite económica, insensível e indiferente aos males que afligem as outras pessoas, que sobrevive a todas as mudanças de governo. A sua necessidade de obter lucro supera a necessidade de sobrevivência das outras pessoas. Por aqui se vê como funciona o nosso sistema desumano.

A pobreza de combustível é definida como ter de gastar 10% ou mais do seu rendimento para manter a casa a uma temperatura decente. Entre 2003 e 2008 (últimos dados disponíveis), o número de famílias em pobreza de combustível aumentou de 2 para 4,5 milhões(4). E não se trata de pessoas, mas de famílias: este flagelo já atinge 18% da população do Reino Unido. No entanto, desde 2000, mais de 25 mil milhões de libras do nosso dinheiro foi gasto em programas ostensivamente destinados a impedi-la. É certo que grande parte dessa despensa não tem de facto nada que ver com combustível. O pagamento de combustível no inverno é, na verdade, um complemento de pensão universal que as pessoas podem gastar como quiserem: ajuda uma grande parte dos idosos a sobreviver. Mas a maioria dos outros programas de consumo são mal concebidos, injustos e sem objectivo definido.

Mesmo antes da coligação tomar posse, os assessores do governo estimaram que 7 milhões de famílias irão sofrer de pobreza de combustível em 2016, que é a data em que o New Labour se comprometera a eliminar a pobreza de combustível. Como os rendimentos dos pobres diminuem e os Tories continuam o processo de desregulamentação, pode tornar-se ainda pior.

A principal razão é que se permitiu às empresas de serviço público, privatizadas e liberalizadas, ficarem impunes em relação às mortes. No seu livro «Fixing Fuel Poverty», Brenda Boardman demonstra que a pobreza de combustível cresceu desta forma abrupta no Reino Unido, porque o controle público sobre as empresas de energia é demasiado fraco(7). Em 2002, o regulador, Ofgem, decidiu que deixaria de regular os preços no consumidor. As empresas de energia aumentaram imediatamente as suas margens de lucro: dez vezes, no caso de uma delas(8). Quando os preços mundiais da energia sobem, as empresas aumentam as suas tarifas, por vezes muito mais rapidamente do que o preço por grosso justificaria. Quando descem, os preços de mercado são frequentemente mantidos.

Os aumentos de preços são agravados por políticas que penalizam os mais pobres. As pessoas que usam contadores de pré-pagamento para comprar gás e electricidade (geralmente os mais pobres) são lesados em mais 120 libras por ano(9). Os que consomem mais energia (geralmente, os ricos) são subsidiados por todos os outros: pagam uma tarifa mais baixa para além de um certo nível de utilização. Deveria ser o contrário: as primeiras unidades que se consomem deveriam ser as mais baratas. Antes das eleições, tanto os conservadores como os liberal-democratas exigiram um inquérito sobre a concorrência no mercado da energia. Agora, deixaram de o exigir(10).

Deveria haver uma sinergia perfeita entre as alterações climáticas e as políticas de justiça social. Como a Comissão das Alterações Climáticas e da Energia da Câmara dos Comuns salientou “melhorar a eficiência energética das habitações é a maneira mais eficaz de combater a pobreza de combustível”(11). Mas as políticas verdes do governo são totalmente injustas e retrógradas: todos pagam a uma taxa igual para reduzir as emissões devidas ao consumo de energia, mas aqueles que mais precisam de ajuda, para tornarem as suas habitações mais ecológicas e reduzir os seus custos, não a recebem. Políticas como o sistema europeu de comércio de emissões, a meta de redução de emissões de dióxido de carbono e a tarifa de alimentação de corrente, de acordo com a Comissão das Alterações Climáticas do governo, provavelmente lançarão mais 1,7 milhões de pessoas para a pobreza de combustível até 2022(12). Isto é um escândalo.

O principal plano para melhorar as habitações dos que padecem de pobreza de combustível, o Warm Front, é tão defeituoso e mal construído que, se fosse uma casa, estaria destinada a ser demolida. Apenas 25% do dinheiro gasto atenua a pobreza de combustível. Não se exige que as casas em pior estado sejam arranjadas ou que atinjam um nível de eficiência energética aceitável. Boardman descobriu que “a proporção da despesa concedida aos que sofrem de pobreza de combustível é menor do que a sua contribuição”.

Agora, o plano foi suspenso. O governo lançou uma consulta sobre como poderia funcionar melhor quando for reiniciado, mas haverá muito menos dinheiro(15): mesmo que comece a funcionar, irá abranger apenas uma parte do crescente problema.

Nada se fará para reduzir a pobreza de combustível até que os governos disciplinem um dos menos regulados mercados energéticos dos países ricos – controlando os lucros e os preços – e ajudem aqueles que mais precisam.

As políticas verdes têm de ser financiadas transferindo dinheiro dos consumidores mais ricos para os mais pobres. É um escândalo que nada disso tenha sido feito pelo governo trabalhista. eria quase um milagre se fosse enfrentado pelos Conservadores. as até que algo seja feito, o frio vai continuar a matar, em níveis que mesmo os siberianos não têm de suportar.

Publicado no Guardian a 28 de Dezembro de 2010.

http://www.monbiot.com

Tradução de Paula Coelho para o Esquerda.net

Referências:

1. Brenda Boardman, 2010. «Fixing Fuel Poverty», p. 168. Earthscan, Londres.

2. Idem, p.168.

3. Idem, p.168.

4. Departamento de Energia e Alterações Climáticas, 2010. Relatório Anual sobre Estatísticas da Pobreza de Combustível 2010. Tabela 1, página 3.

http://www.decc.gov.uk/assets/decc/Statistics/fuelpoverty/610-annual-fuel-poverty-statistics-2010.pdf

5. Comissão das Alterações Climáticas e da Energia da Câmara dos Comuns, 30 de Março de 2010. Pobreza de Combustível: Quinto Relatório da Sessão de 2009–10, Volume I, página 6. http://www.publications.parliament.uk/pa/cm200910/cmselect/cmenergy/424/424i.pdf

6. Grupo Consultivo para a Pobreza de Combustível, citado pela Comissão das Alterações Climáticas e da Energia da Câmara dos Comuns, idem, página 7.

7. Brenda Boardman, idem.

8. Em 2002, a Centrica aumentou as suas margens de lucro nas vendas de energia doméstica de 0,4% para 4,2%. Em 2008, voltaram a subir, para 8,8%. Brenda Boardman, idem, página 77.

9. Brenda Boardman, idem, página 82.

10. http://www.guardian.co.uk/business/2010/oct/29/energy-bills-rise-price-increase?INTCMP=SRCH

11. Comissão das Alterações Climáticas e da Energia da Câmara dos Comuns, idem, página 3.

12. Citado por Brenda Boardman, idem, página 92-93.

13. Citado por Brenda Boardman, idem, página 148.

14. Citado por Brenda Boardman, idem, 92.

15. http://www.telegraph.co.uk/finance/personalfinance/consumertips/household-bills/8206453/Warm-Front-abolished-for-this-year-and-cut-back-in-the-future.html

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