Brasil tem condição de ser a primeira potência ambiental tropical, afirma Carlos Nobre

Fabiula Wurmeister entrevista Carlos Nobre, Gazeta do Povo, 8 de dezembro de 2010. Reproduzido de IHU On-line.

Categórico em afirmar que a sociedade moderna industrial se tornou uma força de transformação de proporções idênticas à da natureza, o pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e presidente do Conselho Diretor do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas, Carlos Nobre, acredita que apesar de já ter atingido estágios irreversíveis, o aquecimento global e alguns de seus efeitos podem ser amenizados. O resultado seria a prorrogação do que cientificamente é apontado como inevitável: o colapso total dos sistemas naturais que regem a vida na Terra.

O alerta e as sugestões foram apresentados pelo cientista na palestra de abertura do 7.º Encontro Anual do Progra¬ma Cultivando Água Boa, em Foz do Iguaçu. De acordo com Nobre em entrevista à Fabiula Wurmeister da Gazeta do Povo, 08-12-2010, o Brasil tem condições de ser a primeira potência ambiental tropical.

Eis a entrevista.

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) está traçando o novo cenário das mudanças climáticas no Brasil. O que já podemos adiantar?

O cenário geral que enxergamos para o final do século é uma diminuição de chuvas em grande parte do Brasil, em especial no Norte, e aumento das chuvas na Argentina, Uruguai e Sul do país, com aumento também da severidade dessas chuvas, com mais tempestades, ciclones e ressacas. Para o Nordeste, a previsão é de mais secas.

Que consequências essas mudanças devem trazer?

Qualquer perturbação do clima com o qual nós estamos acostumados traz impactos negativos. Nem sempre dizer que choverá mais no Sul do país é bom. Tudo o que se desenvolveu até agora para atividades que dependem do clima foi feito em função do clima que caracteriza aquela determinada região. Exemplos disso são as hidroelétricas, previstas com base em um certo regime pluviométrico. Da mesma forma vemos as estradas a cada ano se degradando por causa de um volume cada vez maior de chuva. A isso, porém, é mais fácil de se adaptar. O mesmo não acontece com a agricultura e o aumento do nível do mar, que nos obriga a quase pensar em um novo modo de vida, tamanha a dificuldade de adaptação e o investimento científico.

O cenário que se aproxima pode mudar?

O aquecimento global é inequívoco, mas infelizmente não podemos afirmar que teremos mais ou menos chuvas de granizo nos próximos anos, como já vem ocorrendo nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e mais recentemente no Paraná. É cedo para dizer que o que estamos vendo agora são evidências claras do que podemos esperar para os próximos anos. Esses fenômenos são naturais e sempre vão acontecer. Com a disseminação das redes de televisão e rádio para o interior do país, vemos na mídia um aparente aumento na incidência e na força desses eventos climáticos extremos, como as chuvas, as inundações e as secas, mas não há como dizer que aumentou de verdade. Ainda não conseguimos demonstrar que isso esteja acontecendo nessas proporções. Quando afirmo que ainda há tempo de salvarmos o mundo, na verdade estamos no limiar de saber se ainda há tempo ou não de evitarmos os riscos de um colapso dos sistemas naturais que mantêm a vida no planeta.

Quando poderemos ter certeza do que realmente acontecerá?

Que o clima mudou, nós sabemos. Mas para ter certeza que o clima hoje é diferente do que era há cinquenta anos, por exemplo, precisamos de pelo menos duas décadas. Por isso, quando falamos de mudanças, ainda estamos observando se elas serão permanentes ou se isso é uma flutuação natural do clima, com possibilidades de voltar ao que era. Algumas mudanças, como ondas de calor em muitas partes do Brasil, já vêm se repetindo por muitas décadas. Chuvas intensas, da mesma forma, há dez, vinte anos.

Como podemos evitar um possível colapso ambiental?

A única maneira é reduzirmos rápida e drasticamente a emissão dos gases que causam o aquecimento global. Isso significa uma enorme mudança na matriz mundial de energia, de produção de gases do efeito estufa e, principalmente, de consumo. Não podemos ter a ilusão de que reverter ou reduzir o risco futuro de colapsos de ecossistemas possa ser feito somente por meio da tecnologia. Essa é uma condição necessária, mas ainda não suficiente. Precisamos começar uma profunda mudança comportamental e global. Hoje a maioria dos empregos está ligada ao consumismo. Só começaremos a observar mudanças importantes quando migrarmos para os empregos do futuro, os empregos do intelecto, ligados à criação, à criatividade, às artes, à tecnologia, à saúde, aos cuidados com os idosos.

Estamos longe dessa mudança?

O que vemos hoje não caminha para essa consciência de consumo. Assim que os países em desenvolvimento adquirem status de economias emergentes de rápido crescimento, a população das classes mais pobres que evolui para a classe média começa a reproduzir um padrão de consumo muito alto, parecido com o dos EUA. Sabemos como fazer a mudança, mas essa ponte que liga o consumismo ao consumo consciente, do desenvolvimento social, é bem difícil de ser construída. Em 2050, mais de 80% dos 9 bilhões de consumidores do mundo estarão tentando atingir os padrões de vida dos países desenvolvidos.

O meio ambiente é um dos temas polêmicos da pauta internacional. Há mais avanços ou resistência?

É muito difícil enxergarmos perspectivas positivas nesse momento. Há muito mais resistência dos que participam das convenções climáticas internacionais. Os países desenvolvidos têm uma resistência muito grande em zerar as emissões de gases de efeito estufa. Precisaríamos conseguir reduzir essas emissões em 80% para não superaquecermos o planeta. Há uma contradição grande nessas negociações. As populações pobres, que menos contribuíram para esse problema, serão as que mais sofrerão com a crise, em especial com a redução drástica do acesso à água, um dos principais efeitos do aquecimento global. O interesse econômico da indústria da energia fóssil, que usa petróleo, gás natural e carvão, atrapalha muito nessa transformação.

A posição do Brasil é importante?

Pelo menos no papel, o Brasil deu um passo muito importante na Convenção de Copenhague, em 2009, e se comprometeu a reduzir de 36% a 39% a emissão de gases, o que significa 25% do que era emitido até 2005. Somos o primeiro país do mundo a ter uma lei como essa aprovada.

Na prática, como isso pode ser feito?

O Brasil poderia assumir o papel de primeira potência ambiental tropical. Temos condições suficientes para isso: 46% da nossa matriz energética vêm de fontes renováveis, podemos desenvolver nossa agricultura sem avançar sobre os ecossistemas e, desde 2004, conseguimos reduzir o desmatamento em 60%. Temos o dever de criar, inventar, um novo modelo de desenvolvimento baseado no caso da América do Sul, com base no uso racional desse imenso potencial natural, somado à inteligência. Esse será o nosso maior desafio para o século XXI

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