Os vilões do efeito estufa

São os canos de descarga de veículos os principais responsáveis pela emissão de gases do efeito estufa no Rio de Janeiro

Cláudio Motta e Leonardo Cazes, O Globo, 20 de setembro de 2010

Um estudo encomendado pela prefeitura à Coppe/UFRJ revela que os meios de transporte rodoviário são os maiores poluidores, com 33% do total. Em seguida, vêm as emissões provenientes do lixo, com 25%, e a poluição industrial, com 10%. O trabalho foi apresentado em agosto no Fórum Carioca de Mudanças Climáticas, com dados das emissões de 2005.

Os meios de transporte hidroviário, ferroviário, aéreo e rodoviário emitiram 5.478 gigagramas de gás carbônico (CO2) num ano. Cada gigagrama (Gg) representa mil toneladas de CO2. A esmagadora maioria, cerca de 80%, veio do rodoviário.

Ou seja, carros, ônibus e motos lançaram 4.391 Gg de CO2. Os gases foram resultado da combustão principalmente de gasolina (1.459 Gg), óleo diesel (1.417 Gg) e gás natural veicular (1.389 Gg), em números arredondados pelos pesquisadores.

O álcool anidro foi responsável por quase 94 Gg e o hidratado, por apenas 32 Gg.

O estudo vai orientar as medidas que a prefeitura pretende tomar para reduzir as emissões em 8% até 2012, em 16% até 2016 e em 20% até 2020. De acordo com Altamirando Fernandes Moraes, subsecretário municipal de Meio Ambiente, a meta é que o Rio de Janeiro tenha até 2012 a maior malha de ciclovias da América Latina. Ele espera também que a cidade tenha o maior índice de uso de bicicleta da região.

— Cerca de 70% da emissão de gases vêm do binômio lixo e transportes. O aterro sanitário de Seropédica equacionará o primeiro (problema). A questão dos transportes também está sendo resolvida, com a introdução de um novo modelo, baseado em pistas exclusivas para ônibus: Transolímpica, Transcarioca, Transoeste e o provável corredor da Avenida Brasil. A ampliação do metrô até a Barra vai reduzir o número de veículos individuais na rua. Também esperamos que haja um impacto com mais trens tanto na SuperVia como no metrô — disse Altamirando.

Ideia é incentivar o uso da bicicleta

Para reduzir as emissões com os transportes, a bicicleta ganha importância e passa a ser uma estratégia da prefeitura. A ideia é que os cariocas pedalem, em ciclovias ou ciclofaixas (áreas separadas nas ruas), até a estação de um transporte coletivo, que passará a ter bicicletário.

Para tanto, a malha de ciclovias será dobrada, passando de 150 quilômetros para mais de 300.

Elas serão integradas entre si, além de ligarem bairros a estações de metrô, trem e corredores exclusivos de ônibus. Na quarta-feira, o Dia Mundial Sem Carros, nove bairros terão ruas onde o limite de velocidade será reduzido para 30km/h, as chamadas zonas 30. A medida também visa a estimular o uso de bicicletas.

— Estamos querendo chegar a esse nível de maior uso de bicicletas em 2012. Estamos ampliando as zonas 30, e as estações de aluguel de bicicleta passarão de 19 para pelo menos 50.

Com isso, vamos fazer com que seja mais fácil as pessoas chegarem a uma estação de transporte público via bicicleta — disse Altamirando.

O inventário de emissão de gases do efeito estufa também chama a atenção para a eficiência energética do metrô e dos trens. O transporte ferroviário foi responsável pelo deslocamento de 20% dos passageiros em 2005. No entanto, suas emissões representaram menos de 1% entre os diferentes meios de transporte.

— Temos uma matriz energética (a elétrica) praticamente limpa, com grande porcentagem sendo gerada em usinas hidrelétricas, nas quais a emissão é pequena. Seria ótimo aumentar a capacidade dos transportes que usam a eletricidade — disse Cláudia Costa, pesquisadora do Centro de Estudos Integrados Sobre Meio Ambiente e Mudanças Climáticas (Centro Clima) da Coppe/ UFRJ, coordenadora do estudo ao lado do professor Emilio La Rovere, da mesma instituição.

A pesquisadora explicou que o álcool leva grande vantagem em relação à gasolina, uma vez que as emissões de CO2 são praticamente todas compensadas durante o crescimento da cana de açúcar (a planta absorve os gases).

Durante um passeio ciclístico realizado ontem no Rio, o ministro das Cidades, Marcio Fortes de Almeida, a secretária estadual do Ambiente, Marilene Ramos, e o secretário estadual de Transportes, Sebastião Rodrigues, defenderam o uso da bicicleta como meio de transporte. Para Marilene, as cidades precisam se tornar mais amigas dos ciclistas, de forma que seja possível fazer o trajeto entre casa e trabalho com segurança.

A longo prazo, o menor uso de automóveis teria um impacto positivo na emissão de gases causadores do efeito estufa.

— Com mais bicicletas, o trânsito flui melhor e, imediatamente, diminui a quantidade de poluentes no ar. A longo prazo, vamos contribuir para um menor consumo de combustíveis fósseis, como o petróleo, que polui muito o meio ambiente e é responsável por uma ameaça ao planeta, que é o aquecimento global — defendeu a secretária, que se comprometeu a ir para o trabalho de bicicleta na quarta-feira.

Já Sebastião Rodrigues apontou a necessidade de integrar o transporte cicloviário a outras modalidades públicas já existentes, como a rodoviária, a metroviária e a aquaviária.

— Este é um jogo de ganha-ganha, porque é bom para o bolso, já que se economiza com o carro, faz bem para a saúde e para a natureza. Nós já temos um programa, o Rio Estado da Bicicleta, que visa exatamente à construção de bicicletários junto aos terminais de ônibus, metrô, trem e barcas. Nossas vias já estão saturadas de automóveis, e a tendência é a situação piorar ainda mais. Por isso, é preciso buscar alternativas — explicou.

O secretário disse que ficou impressionado com o que viu em Paris, onde pessoas vestidas de terno e gravata utilizam as ciclovias. Para Marcio Fortes, essa cultura também precisa ser introduzida no Brasil.

— Aqui no Rio de Janeiro, este meio já é muito usado como lazer, mas possui uma utilização limitada no dia a dia. A conscientização e o incentivo do poder público à construção de ciclovias e bicicletários são muito importantes para que se coloquem o paletó e a gravata em cima da bicicleta — disse o ministro.

Uma resposta

  1. Enquanto, cada vez mais, nos dedicamos a conflitar “verdades” (prós e contras) a respeito da problermática das Mudanças Climáticas, de identificar vilões, de misturar ciência com política, de estimar quanto custa resolver o problema, entre outros (apesar de discussões pertinentes), observa-se não haver nenhuma (ou quase nenhuma) preocupação em inserir (de forma eficaz) a sociedade nessa discussão, que ainda continua, infelizmente, uma discussão de “iniciados”. Será possível encontrar uma solução sustentável para este problema sem que a sociedade realmente participe (no que lhe couber, e não é pouco) dessa decisão? Estamos esquecendo a importância da varíavel tempo e do conceito de irreversibilidade.

    Núcleo de Estudos em Percepção Ambiental / NEPA
    roosevelt@ebrnet.com.br

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