Online ou offline? Usos e apropriações das novas tecnologias

IHU On-line entrevista Adriana Amaral, IHU On-line, 7 de setembro de 2010

A professora Adriana Amaral é online. Twitta e retwitta notícias relacionadas à área da comunicação, divulga oportunidades e interage com seus followers, atualiza seu blog com notas sobre cibercultura e cultura pop, usa seu Facebook e seu Orkut para manter novos e velhos contatos. Mas quando sai em férias é offline, se desliga desse mundo das notícias e interações rápidas. “Essa velocidade traz muito apagamento da memória a curto prazo, por isso é interessante que tenha outras manifestações para contrabalançar”, explica na entrevista que concedeu à IHU On-Line, direto da sua sala na Unisinos.

Adriana fala sobre como as novas ferramentas digitais estão entrando em nossas vidas e como estamos nos apropriando desses dispositivos. Além disso, ela analisa movimentos como o Slow Reading que sugere a leitura mais lenta e caracterizações dadas ao Twitter, como a de revolucionário. “Acredito que há usos interessantíssimos em termos de comunicação e resposta rápida de informação, mas também tem o lado de quem considera o Twitter uma ferramenta absolutamente não confiável”, aponta.

Adriana Amaral é formada em jornalismo. É mestre e doutora em Comunicação Social pela PUCRS. Atualmente, é professora da Unisinos. É autora de Blogs.com. Estudos sobre blogs e comunicação (São Paulo: Momento Editorial, 2009) e Visões Perigosas: uma arque-genealogia do cyberpunk (Porto Alegre: Sulina, 2006).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Podemos mesmo afirmar que eletrônicos com o Kindle e o Ipad vão criar um novo estilo de vida?

Adriana Amaral – Noto que esse processo da portabilidade do livro tem sido visto de forma positiva. Eu, pessoalmente, gosto muito do livro de papel, mas sabemos que no Brasil ele é muito caro. Esses dispositivos vêm para facilitar a leitura, para fazer com que a compra de livros aumente e para facilitar a logística de carregar livros por aí.

Toda tecnologia nova que entra no nosso cotidiano sempre causa um determinado efeito. Já saíram algumas pesquisas em termos de venda de livros online, que apontam que as vendas têm crescido muito em relação à versão impressa. Mas esse mesmo processo aconteceu com a venda de músicas digitais. A música viveu um processo anterior mais rápido, até pela questão do suporte, mas acho que o livro também vai entrar neste sistema. Além disso, outras obras podem entrar nesse sistema de E-readers, como pesquisas científicas e isso facilitará muito o processo de busca e acesso a esse vasto material.

IHU On-Line – Como você vê o nascimento de movimentos como o Slow Reading que se contrapõe à dinamização que o Twitter traz à leitura?

Adriana Amaral – Movimentos de resistência são normais. Às vezes, você lê tanta informação que não sabe mais de onde surgiu aquela fonte. Então, há momentos que causa o que eles chamavam de overload information. E isso dá um baque. Esses movimentos, para mim, são necessários.

Quando saio de férias, por exemplo, eu só pego livros de literatura para ler com mais calma, tento ler outras coisas que não são as mesmas que eu leio no dia a dia. Tem vezes que sequer o jornal consigo ler no domingo, que vem com aqueles megacadernos. Essa velocidade traz muito apagamento da memória a curto prazo, por isso é interessante que tenha essas outras manifestações para contrabalançar.

IHU On-Line – Manuel Castells diz que o “Twitter é fantástico para fazer a revolução”. Como você analisa essas definições e expectativas sobre o microblog?

Adriana Amaral – Eu não sei quanto tempo essa ferramenta vai durar, talvez as pessoas migrem para uma nova, porque diferentes formatos estão sempre surgindo, sejam eles mais instantâneos ou que façam essa volta a algo como sugere o Slow Reading. Sempre que surge uma ferramenta com o potencial e uso do Twitter, surgem discursos que veem a ferramenta como algo fantástico, que é uma revolução; e outros grupos vão dizer que não é positivo. Saramago foi uma das pessoas que criticou muito o Twitter dizendo que era uma coisa acéfala.

Eu tendo a não ir por um lado nem por outro, tento analisar o uso que as pessoas estão dando à ferramenta. Acredito que tem usos interessantíssimos em termos de comunicação e resposta rápida de informação, mas também tem o lado de quem considera o Twitter uma ferramenta absolutamente não confiável.

IHU On-Line – Como jornalista, você acha que o Twitter pode vir a substituir as agências de notícias?

Adriana Amaral – Neste sentido, eu não me arriscaria dizer que vai substituir por completo, porque, como eu disse, não sabemos quanto tempo vai durar essa ferramenta. Mas acredito que há uma maior diversidade e essa possibilidade existe. Há até autores que estão defendendo que está surgindo o “Twitter jornalismo”.

Além disso, a maioria dos usos ainda é limitado, é aquela coisa de só postar a informação ou link do site. O diálogo entre os jornalistas e os leitores é, para mim, o uso mais interessante, porque é justamente isso que as pessoas estão buscando. Tenho visto muito o movimento “estou fazendo uma matéria sobre tal assunto” em busca de fontes, Há um fator de agregar, alguém responder, enfim, é um caráter comunal. É uma coisa como uma “vizinhança”.

IHU On-Line – Por estar cada vez mais on-line, você acha que esse movimento de voltar às vizinhanças é algo que sentimos falta quanto a nossa vida offline?

Adriana Amaral – Pode ser uma das hipóteses. Tenho visto alguns usos no sentido de agregar pessoas, por exemplo, que moram fora e se comunicam com seu local de origem. De repente, eu sou um brasileiro, moro em outro país e tenho um blog para me comunicar com as pessoas da cidade onde morava. Algumas pesquisas mostram que os brasileiros que moram fora do país acessam com maior frequência os portais regionais, ou seja, ainda que more na China, ele quer saber o que está acontecendo em São Leopoldo (RS), por exemplo.

IHU On-Line – O Facebook chegou aos 500 milhões de usuários, consolidando seu status de site mais popular na história da internet. Por que no Brasil o Orkut ainda “impera”?

Adriana Amaral – Primeiro porque o Orkut era mais flexível em relação à privacidade, muito mais do que o Facebook, que é muito mais duro. É o caráter da espiadinha, metáfora usada no BBB, que liga os brasileiros ao Orkut. E outra questão é a interface. Hoje o Orkut está mais bagunçado do que o Facebook e o Twitter, mas no início sua interface era muito simples e isso facilitou bastante esta apropriação.

Outro fator: as pessoas estão lá há muito tempo, a maioria desde 2004, e têm dificuldade de sair porque o Orkut tem sua lista de contato. E como ele foi muito apropriado pela classe C e D, talvez por um bom tempo essa rede social ainda se mantenha.

IHU On-Line – Dá para dizer que o Orkut aqui no Brasil é mais teen e o Facebook mais intelectual?

Adriana Amaral – Não tenho certeza disso, porque tenho visto muitos adolescentes entrando no Facebook. Quando essa rede começou, estava associada à universidade, por isso o perfil da maior parte das pessoas ligadas a ele seja de quem tem mais de 20 anos.

IHU On-Line – A internet e as redes sociais estão nos conectando tanto quanto nós pensamos que seria possível?

Adriana Amaral – Nem imaginávamos essa possibilidade de conexão no início. A principal diferença da época quando a internet estava surgindo em relação a hoje é que ainda se discutia muito sobre a divisão entre real e virtual. No entanto, esses pontos nunca estiveram separados. Essa é a grande diferença.

IHU On-Line – Há um crescimento dos blogs temáticos. Como você vê a atuação dos blogs hoje? Quais foram as principais mudanças que os blogs passaram desde seu “boom” em 2000 até hoje?

Adriana Amaral – Eles funcionam de duas formas: um como uma espécie de uma procuradoria de uma memória histórica. Há blogs específicos de música ou moda, por exemplo, fazendo um resgate de coisas que talvez as pessoas nem tenham vivido. Os blogs têm essa característica; também se constituem um de caderno de anotações em que se guardam coisas e as compartilham com um determinado grupo.

Saímos da ideia de apropriação dos blogs como um diário para fazer um uso muito mais ligado a um álbum de recordes. Então, eu gosto de um determinado tema, que é muito específico, e no meu blog vou poder expressar isso, vou encontrar outras pessoas e vou trocar informações. Acho importante essa função crítica, seja qual for a área. Não no sentido da crítica formal, mas a partir do momento em que estou discutindo um produto cultural, sobre um seriado, então posso ter um blog sobre isso. De outra forma, essa voz não teria espaço na mídia tradicional. O blog é diferente porque quem vai compartilhar, ler, criticar, acessar são pessoas que se interessam por aquele tema.

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