É preciso taxar carbono para ter economia verde

Thomas Friedman não pode ser suspeito de veleidades esquerdistas ou mesmo progressistas. Mas é um conservador com clareza sobre as mudanças climáticas e seu alcance. O artigo que publicamos abaixo registra a crescente consciência da ineficácia dos mercados de carbono para combater o aquecimento global. Mesmo conservadores lúcidos perceber que taxar as emissões de carbono é o único caminho para estimular a transição para uma economia de baixo carbono.

Thomas Friedman, Folha de S.Paulo, 22 de março de 2010

O jornalista americano Thomas Friedman, um dos principais colunistas do “New York Times”, afirma que os EUA podem “voltar aos trilhos” e recuperar sua liderança global com investimentos maciços em tecnologias de energia limpas, o que só será possível com uma estrutura tributária que preveja, por exemplo, taxação sobre o preço do carbono. Essa é a ideia central de “Quente, Plano e Lotado” (ed. Objetiva, 605 págs.), que chega às livrarias brasileiras na quarta-feira, 24. O livro é um aprofundamento do best-seller “O Mundo é Plano” (ed. Objetiva), que desde 2005 vendeu 85 mil exemplares só no Brasil.

FOLHA – A ideia-chave de “Quente, Plano e Lotado” pode ser resumida na frase do presidente Barack Obama: “A nação que liderar a economia da energia limpa será a que irá liderar a economia global; e os EUA precisam ser essa nação”. Que argumentos sustentam essa ideia?
THOMAS FRIEDMAN – Algumas pessoas não acreditam no “quente”. Tudo bem, deixemos apenas o plano e o lotado. Plano é minha metáfora para mais e mais gente se juntando à classe média mundial e vivendo como americanos, quer estejam no Brasil, na Índia ou na China.
Lotado é porque há cada vez mais e mais pessoas. No mundo plano e lotado há cada vez mais gente com casas, carros e Big Macs do tamanho americano. É claro para mim que a próxima indústria global será a tecnologia energética (TE), que vai capacitar mais e mais gente a melhorar seu padrão de vida sem queimar e destruir o planeta. O país que detiver TE terá mais segurança energética, nacional e econômica, companhias inovadoras e respeito global. Claro, quero que esse país seja o meu, mas quero que todos aspirem a ser essa nação.

FOLHA – O sr. não crê em decisões tomadas em conferências globais.
FRIEDMAN – Exatamente. Alguém tem de me provar que funciona. Não sou contra o Protocolo de Kyoto ou o esforço de Copenhague, mas, se você conseguir fazer com que 193 países concordem, Deus te abençoe. Na falta disso, quero liberar meus inovadores e engenheiros para tentar o mesmo objetivo por meio da inovação.

FOLHA – O que deve ser feito para estimular esse tipo de iniciativa?
FRIEDMAN – Precisamos de políticas tributárias para incentivar, a longo prazo, a pesquisa e o desenvolvimento de tecnologia limpa. Houve um pouco no pacote de estímulo, mas é necessário muito mais. É preciso uma política de preços para o carbono. Sem isso, nada acontecerá. Sou um crente no mercado. Uma taxação de longo prazo, fixa e durável, estimularia 10 mil inovadores verdes em 10 mil garagens, tentando 10 mil coisas. Mil serão promissoras, cem serão realmente legais, e duas, os próximos Google e Microsoft limpos, que nos darão o que precisamos: elétrons confiáveis, limpos, baratos.

FOLHA – Uma pesquisa do Instituto Gallup mostrou que há mais céticos do aquecimento global hoje do que em 1997. Em que o discurso das mudanças climáticas está falhando?
FRIEDMAN – Infelizmente, a combinação tóxica de “climagate” [divulgação de e-mails de climatólogos, revelando tentativa de negar informação a céticos do clima], “relativamente pequenos” erros no IPCC [acusado de ter cometido erros em relatório] e recessão -e o fato de as pessoas mais do que nunca quererem energia barata- permitiu aos negacionistas confundir as pessoas e poluir o debate. Quem não queria acreditar ganhou razões para isso. E cientistas, políticos e membros do governo fizeram mau trabalho defendendo o caso.

FOLHA – Em ano de eleição, é possível algo favorável no Congresso?
FRIEDMAN – No momento, a estratégia está mudando. Pessoalmente, creio que o projeto “cap-and-trade” [comércio de permissões para emitir CO2] esteja morto. Agora, os senadores John Kerry, Lindsey Graham e Joe Lieberman estão trabalhando numa estratégia baseada em três princípios. O primeiro: nunca use a palavra “clima”. Fale sobre “limpar o ar”. “Clima” se tornou uma palavra suja. Segundo: dizemos que estamos fazendo isso para criar empregos; energia solar, baterias, eficiência energética, tudo isso rende muito emprego. E, terceiro, dizemos que estamos fazendo isso por segurança nacional, para ficarmos menos dependentes do petróleo do Oriente Médio. Esse é o novo consenso bipartidário, democratas e republicanos. Mas, se haverá senadores o suficiente para isso, não sei.

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