Santa Aliança: criacionistas e negacionistas da mudança climática adotam estratégias e discurso comuns

cReinaldo José Lopes, Folha de S.Paulo, 7 de março de 2010

Uma lei que acaba de ser aprovada pela assembleia da Dakota do Sul (Meio-Oeste dos EUA) faz recomendações para o ensino de ciências nas escolas públicas estaduais, advertindo “isso é uma teoria, não um fato científico comprovado” e pedindo a apresentação “equilibrada e objetiva” dos dados. Errou quem está achando que a lei versa sobre a teoria da evolução. O tema dela é o ensino do aquecimento global.

A semelhança de palavras-chave está longe de ser mera coincidência. A lei da Dakota do Sul parece apenas tomar de empréstimo a retórica dos criacionistas americanos e aplicá-la a mais uma questão polêmica, mas outros Estados americanos, como Texas, Louisiana, Oklahoma e Kentucky, também aprovaram ou discutiram legislação que cita, lado a lado, a teoria da evolução e as mudanças climáticas como assuntos que os professores deveriam explorar como controversos ou em aberto. Há uma convergência ao menos parcial de interesses entre criacionistas e céticos do clima (como são chamados os que negam o aquecimento global ou, ao menos, a contribuição majoritária do homem para o fenômeno).

Esse é o perfil, por exemplo, do senador James Inhofe (Partido Republicano de Oklahoma), ou dos membros do Discovery Institute, a organização americana que é a principal proponente do chamado design inteligente, versão repaginada do criacionismo.

Mas não se trata de um fenômeno restrito aos EUA. O representante do design inteligente no Brasil, Enézio de Almeida Filho, já se declarou com frequência um cético da mudança climática causada pelo homem em seu blog, “Desafiando a Nomenklatura Científica”. Cristãos criacionistas brasileiros, como o adventista Michelson Borges, editor da Casa Publicadora Brasileira e mantenedor do blog “Criacionismo.com.br”, reconhecem a aproximação entre os dois campos. “A convergência se dá simplesmente pelo fato de que os criacionistas, no esforço por se pautarem por pesquisas fidedignas e dados concretos, deram-se conta, já há algum tempo, de que estava havendo certo exagero na questão do aquecimento antropogenicamente causado”, afirma ele.

Joshua Rosenau, do Centro Nacional para Educação Científica dos EUA, lembra que os dados mais recentes sobre as atitudes da população americana em relação à ciência indicam uma proximidade estatística entre criacionistas e céticos da mudança climática.

“A correlação não é imensa, mas também não é trivial”, contou ele à Folha. “A aceitação do aquecimento global [causado pelo homem] é de duas a três vezes mais comum entre as pessoas que também aceitam a evolução. Por outro lado, entre os criacionistas, o número de pessoas que aceita o aquecimento é mais ou menos igual ao das que o negam”, diz Rosenau, citando levantamento feita no ano passado pelo Centro de Pesquisas Pew com cerca de 2.000 americanos.

Astros e chifres

A linguagem do projeto de lei original da Dakota do Sul (o qual, a rigor, não estabelece sanções, mas apenas faz recomendações aos professores) leva qualquer um a se sentir tentado a atribuir a aliança entre céticos do clima e criacionistas à ignorância compartilhada.

O texto falava da “variedade de dinâmicas climatológicas, meteorológicas, astrológicas, termológicas e ecológicas que podem efetuar [sic] os fenômenos mundiais do clima” e usava a criação de vacas leiteiras na Groenlândia medieval como exemplo dos benefícios de um planeta mais quente. Tanto a astrologia quanto os bovinos sumiram do texto final.

Retórica da “teoria que não é um fato” se tornou tão disseminada que seu uso pode até ser inconsciente

A parceria entre criacionistas e céticos do clima se fortalece num momento político complicado para a ciência climática. Uma série de deslizes na maneira como foi produzido o último relatório do IPCC, o painel do clima da ONU, foram usados para turbinar o descrédito contra as conclusões dos pesquisadores no começo deste ano. Também não ajudou o vazamento de uma série de e-mails trocados entre climatologistas, roubados dos servidores da Universidade de East Anglia, que os céticos do clima interpretaram como indícios de maquiagem dos dados sobre o aquecimento global.

As acusações foram rebatidas, em grande medida, mas sua divulgação tem ajudado a direita americana a encurralar o governo Obama em suas tentativas de aprovar leis capazes de limitar a emissão de gases do efeito estufa nos EUA.

Afinidades eletivas

As afinidades entre criacionistas e negacionistas do clima são complexas. Em parte, há a coincidência ideológica e social, já que ambos os grupos estão associados à direita de inspiração religiosa.

Alguns criacionistas, como Borges, têm reservas teológicas em relação ao movimento ambientalista associado ao combate à mudança climática global (leia entrevista à direita). E há, claro, o casamento de interesses econômicos.

“Dos negacionistas do aquecimento global, a maioria é motivada principalmente pelos negócios e pela política. Um número chocante de pessoas parece se opor à ideia porque não gostam de Al Gore. Muitos trabalham em empresas petrolíferas ou pertencem a indústrias que teriam de pagar pela mitigação do aquecimento”, diz Rosenau. “Então, creio que é uma aliança entre conservadores religiosos e conservadores econômicos. Descobriram táticas que funcionam e compartilham-nas livremente.”

Para Sandro de Souza, biólogo do Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer que abordou o movimento criacionista em seu livro “A Goleada de Darwin” (Editora Record), é mais fácil imaginar qual é o interesse político de criacionistas em apoiar o negacionismo climático. “É uma maneira de colocar as coisas no mesmo saco. Os criacionistas diriam: “Vocês viram como eles [os climatologistas] colocaram a ideologia na frente da ciência”. Ora, assim como a ideologia contaminou o clima, também poderia contaminar a teoria da evolução. Seria uma espécie de prova de princípio para eles”, exemplifica o biólogo brasileiro.

“Os criacionistas apoiam qualquer crítica do status quo científico porque acreditam que isso favorece seu argumento central: não aceitar as conclusões dos cientistas. Sobreposições culturais e sociais entre criacionistas e negacionistas existem, mas estão longe de serem precisas. Muitos negacionistas não apoiam o criacionismo”, adverte Francisco Ayala, ex-frade dominicano e biólogo da Universidade da Califórnia em Irvine que acompanha de perto os debates sobre a teoria da evolução nos EUA.

Exemplo disso é Richard Lindzen, do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), o qual, em suas apresentações, ironizou os próprios climatologistas que defendem o aquecimento global causado pelo homem comparando-os aos defensores do design inteligente.

Rosenau também lembra que nem todos os criacionistas aderiram ao campo negacionista. “Cristãos teologicamente mais liberais, que podem acreditar na criação divina mas não desejam que ela seja ensinada nas escolas, tendem a simpatizar com o movimento do Cuidado com a Criação [movimento ambientalista evangélico], e a aceitar o fato do aquecimento global justamente porque acreditam que Deus lhes deu o domínio sobre a Terra”, afirma.

Criacionista vê “paganismo”

O adventista Michelson Borges se considera um moderado. Diz que ele e seus pares não negam totalmente a contribuição humana para o aquecimento global e condena as tendências “pagãs” do movimento ambientalista. Leia trechos da entrevista. (RJL)

FOLHA – Ser criacionista hoje equivale automaticamente a negar a mudança climática?

MICHELSON BORGES – É bom que fique claro que os criacionistas não negam a mudança climática e nem a parcela de contribuição humana nisso. Contudo, os que têm estudado o assunto perceberam que o aquecimento global não é totalmente provocado pelo ser humano. Trata-se de um fenômeno natural para o qual a ciência ainda não tem um modelo que possa ser corroborado pelas evidências.

FOLHA – Os meios evangélicos e adventistas brasileiros parecem seguir muito de perto as tendências que nascem nos EUA. Não é problemático aceitar um discurso que talvez tenha mais a ver com necessidades sociais e econômicas americanas?

BORGES – Os criacionistas do Brasil reconhecem que a controvérsia entre darwinistas e criacionistas nos Estados Unidos tem certo tom político, uma vez que muitos que defendem o criacionismo por lá fazem parte da chamada nova direita cristã, fortemente envolvida na vida política do país.

Mas não podemos inferir disso que todos os criacionistas estão preocupados em impor suas ideias por via política. Prova disso é a posição da Sociedade Criacionista Brasileira sobre o ensino do criacionismo nas escolas públicas: somos contra.

FOLHA – Qual o motivo teológico de ver o ambientalismo com reservas?

BORGES – Os cristãos entendem que foram incumbidos por Deus de administrar a criação, não por motivações políticas ou movidos por algum tipo de crença pagã de que a Terra seria uma divindade. Se, de fato, órgãos como o IPCC “maquiaram” informações, por que fizeram isso? O medo de que a Terra estaria com seus dias contados foi alimentado. Vimos um fenômeno: o ambientalismo se tornando uma religião urbana de alcance mundial. A pauta ambiental, ao que parece, deve gerar uma mobilização interdenominacional em torno do domingo como dia de observância religiosa e de “repouso da Terra”, tendo em vista que esse dia é sagrado para a maioria dos cristãos [coisa inaceitável para os adventistas, para quem só o sábado é sagrado].

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