Como ou cuido?

Dependendo de onde um ser humano nasce pode vir a achar o cão o seu melhor amigo ou o seu prato preferido. Será que um tem mais razão do que o outro?

Luísa Bastos, Esquerda.net, 10 de outubro de 2012

Um animal pode ser categorizado como carne ou como animal de companhia. Isto não tem a ver com caraterísticas especificas do animal, mas com preferências do ser humano que se fundem nos hábitos sociais. Enquanto para europeus, por exemplo, o cão é um animal de companhia e servi-lo ao jantar seria, no mínimo, algo repugnante, para alguns orientais eles são um verdadeiro petisco. Mas mesmo entre um mesmo grupo social, a linha divisória não é clara. O coelho, por exemplo, é tido muitas vezes em simultâneo como animal de estimação e como carne1. Já os porcos são animais pelo menos tão sensíveis e inteligentes como os cães, mas comemos um e cuidamos do outro.

Não é que estes hábitos sociais tenham alguma razão lógica. “Sempre foi assim!” é a frase que melhor explica estes comportamentos. Como explica a psicóloga social e autora do livro “Why we love dogs, eat pigs, and wear cows” (Porque amamos cães, comemos porcos e vestimos vacas), Melanie Joy2, esta categorização dos animais faz parte do nosso sistema de crenças. E não é nada fácil abalar uma crença. Então, será que, para além do hábito, conseguimos justificar cuidar de uns e comer outros?

Com alguns animais, desenvolvemos relações afetivas que, entre outras coisas, nos fazem sentir, no mínimo, responsáveis pelo seu cuidado e, muitas vezes, carinho por eles. É mesmo comum que pessoas crentes na inferioridade de todos os animais não humanos digam frases deste género: “Que estupidez! Eu sei que é só um cão… Mas vê-lo às portas da morte foi como se estivesse a perder alguém da família. Não consegui parar de chorar durante dias.”

Mesmo antes da relação afetiva que desenvolvemos com um animal de companhia, escolhemos responsabilizarmo-nos por ele quando optamos por adota-lo.

No entanto, embora a proximidade/distância social tenha um papel fundamental na forma como nos sentimos em relação a e nos relacionamos com os outros, não podemos dizer que temos responsabilidades especiais para com aqueles que estão mais próximos de nós, simplesmente porque escolhemos aceitar essas responsabilidades3. Se assim fosse, qualquer possibilidade de obrigações para prestar cuidados a outros distantes seria atropelada por obrigações para com aqueles mais próximos de nós. Portanto, nunca responderíamos a emergências morais para com alguém fora da nossa esfera pessoal e nunca assumiríamos responsabilidades não escolhidas por nós perante membros da nossa família.

Aliás, mesmo com animais de companhia, aceitamos responsabilidades morais que não escolhemos. Quando assumimos medidas de proteção de animais abandonados ou errantes, estamos a responsabilizarmo-nos por animais que desconhecemos.

É neste cenário que a filósofa Grace Clement apresenta4 a sua visão de uma ética de cuidado, defendendo que o fator crucial que determina a esfera de cuidado é a dependência e não a experiência de uma relação. Dado que o ser humano domesticou os animais que hoje nomeamos de companhia, tendo, no processo de domesticação, tornado estes animais dependentes dos seus cuidados, ele tem agora a responsabilidade de providenciar esse cuidado. No entanto, não estamos a ser bem sucedidos nessa tarefa quando matamos em massa estes animais nos canis e gatis, ou quando perpetuámos a criação de raças artificialmente “apuradas”, com deficiências genéticas que diminuem as suas capacidades físicas, provocam doenças, muitas vezes dores crónicas e, portanto, diminuem significativamente a sua qualidade de vida.

Mas então, se temos a responsabilidade de cuidar de seres que tornamos dependentes de nós, temos a responsabilidade de cuidar de animais que categorizamos como comida. Aliás, estes animais já foram tão alterados que, principalmente na produção intensiva, muitos deles são tão vulneráveis que não conseguiriam sobreviver sem a nossa assistência.

É claro que a forma como os animais categorizados como comida são tratados é errada porque não respeita a sua senciência, inteligência e natureza social. Mas para Grace Clement, o tratamento dado a estes animais é particularmente grave porque explora a extrema dependência que estes animais têm de nós, humanos.

Mesmo depois de colocar todos estes animais numa categoria de cuidado, tratar estes animais de uma forma ética terá de envolver a tarefa complexa de considerar as implicações da sua presente dependência de nós. Por exemplo, teremos de nos perguntar se será do interesse destes animais ter a sua dependência de nós eventualmente minimizada ou mesmo eliminada.

1 http://www.youtube.com/watch?v=d3gvHWf7ldY

2 http://www.carnism.com/index.php/carnism-presentation-video

3 Grace Clement, “Pets or Meat”? Ethics and Domestic Animals, Journal of Animal Ethics, 1(1), 2011, pp. 46-57. http://www.jstor.org/discover/10.5406/janimalethics.1.1.0046?uid=3738880&uid=2&uid=4&sid=21101249417461

4 idem

Luísa Bastos
Investigadora em engenharia biomédica

About these ads

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 689 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: