As ciências do Sistema Terra e as disputas epistemológicas do século XXI

A ciência moderna nasce com uma dupla vocação, buscando um entendimento abrangente e verificável da realidade e o controle das forças da natureza. Mas as ciências do sistema Terra, consolidadas nas últimas décadas, apontam a necessidade não da humanidade ampliar seu controle sobre a natureza, mas refrear seu ímpeto de modela-la – apontam para o auto-controle da intervenção da sociedade sobre seu meio ambiente. Isto provoca um choque político entre cientistas e governos: figuras de proa das ciências da Terra tem sofrido censura e perseguição por suas posições. Mas há também um confronto epistemológico, um questionamento à tradição baconiana da ciência.. Poderão estas ciências oferecer um novo paradigma de cientificidade, distinto aquele que tem prevalecido nos últimos séculos?

José Correa Leite, Revista FACOM, maio de 2012

A ciência nasceu, no século XVII, com uma alma dupla, buscando um entendimento abrangente e verificável da realidade e o controle das forças da natureza. Descartes e Bacon expressam esta dupla vocação desta nova forma de conhecimento, a ciência experimental e matematizável, desenvolvida por Galileu e Newton. Sua trajetória posterior confirmou esta simbiose entre os dois aspectos – tendo cada vez mais o domínio da natureza como força motora. A transformação da tecnociência em um grande empreendimento capitalista, a partir do final do século XIX, coloca esta atividade no coração da economia contemporânea – fonte do crescimento e, portanto, do “progresso”.

O lugar da ciência na sociedade e o papel que nela desempenhava o cientista estavam desenhados com clareza em todas as disciplinas. Tratava-se de decifrar os segredos do mundo físico para colocar o ser humano numa posição de comando, apoiando-se no conhecimento das leis naturais e reduzindo o papel do acaso no mundo. Mesmo em casos extremos e duvidosos, como o desenvolvimento das armas nucleares, não se questionava esta “verdade” (SMITH 2008). Conhecimento é poder e deve ser usado.

Mas o impacto da atividade humana sobre a biosfera e os fluxos naturais do planeta foram se tornando, no curso da modernidade, cada vez maiores e são hoje tremendos. A humanidade entra em uma nova era geológica, o Antropoceno. Temos agora uma série de disciplinas científicas que trabalham em um sentido muito diferente do caráter prometeico ou faustico da ciência concebida como empoderamento do homem. Elas apontam para um auto-controle por parte da humanidade na utilização de seu poder potencial e para a necessidade do respeito aos frágeis ciclos da natureza e dinâmicas dos ecossistemas. Apontam não para o controle, mas para a sabedoria como ideal do conhecimento; o conhecimento científico deve orientar a humanidade a se abster de interferir em processos vitais do planeta, deve propiciar ao ser humano o respeito à natureza e preservação da sua integridade frente a ameaça que é constituída pela própria humanidade – sob o risco de vivermos em uma biosfera empobrecida e dilapidada, em um mundo desolado.

O maior desafio da humanidade

A questão ambiental é o mais espinhoso problema da atualidade. Ganhos de eficiência ou produtividade na utilização dos recursos – isto é, as conquistas tecnológicas – são rapidamente superados pelos números absolutos da lógica do crescimento permanente da produção e do consumo. Pouco crescimento ou ausência dele significam, no atual sistema econômico, crise econômica; crescimento significa crise ambiental. Na medida em que a economia cresce, vislumbra-se apenas o agravamento dos problemas ambientais. O aquecimento global e a perda de biodiversidade – as duas dimensões mais evidentes da crise ambiental – são consideradas por muitos analistas e líderes políticos os maiores desafios já enfrentados pela humanidade.

Isso foi, de certa forma, surpreendente para os governos. A primeira expressão da crise ambiental global, a formação do buraco na camada de ozônio na Antártida, foi rapidamente confrontada pela adoção de medidas bem-sucedidas para combater a destruição do ozônio estratosférico através do Protocolo de Montreal, de 1987 (BENEDICT 1999). Foi na sua seqüência que a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (a Rio-92 ou Eco-92) delineou o ambicioso objetivo de combater as mudanças climáticas de causas antropogênicas e a perda de biodiversidade, viabilizar o manejo sustentável das florestas e combater a desertificação (temas de quatro convenções “filhas” da Rio92) – além de adotar as diretrizes para o desenvolvimento sustentável de longo prazo (a Agenda 21). Mas esta agenda encontra-se, hoje, globalmente bloqueada por grandes diferenças entre os atores do sistema internacional e pelas enormes demandas de mudanças que ela coloca para a organização sócio-econômica estabelecida.

Com o crescente impacto da sociedade industrial sobre o ambiente natural (GOULDIE 2006), iniciativas em terrenos como geração de energia, transporte, agricultura e uso do solo, gestão da água doce, mineração, etc., tornam-se cada vez mais determinantes para a dinâmica do sistema Terra. Tornamos-nos “senhores do clima” (FLANNERY 2007).  Este impacto atingiu uma dimensão tal que a Comissão de Estratigrafia da Sociedade Geológica de Londres propôs reconhecermos que transitamos para uma nova era geológica, do holoceno para o antropoceno (CRUTZEN 2002; STEFFEN 2007). Assim, o denso e convergente corpo de conhecimentos que rapidamente se forma nas ciências da Terra não pode se furtar de lançar advertências e prescrever mudanças que demandam a modificação de muitas práticas da sociedade industrial globalizada e consumista – em especial na medida em que se observam desequilíbrios crescentes em muitos fluxos vitais para a manutenção das condições mais favoráveis à vida no planeta (JORGENSEN e FATH 2010; ROCKSTRON et al 2009).

O Sistema Terra e o impacto humano sobre os fluxos planetário

Steffen, Crutzen e Mcneill definem o Sistema terra como “a seqüência de ciclos físicos, químicos e biológicos interagindo em escala global e fluxos de energia que fornecem o sistema de suporte para a vida na superfície do planeta”. Para eles:

“Esta definição do Sistema Terra vai muito além da noção geofísica de processos envolvendo os dois grandes fluidos da Terra – o oceano e a atmosfera –, envolvendo o próprio sistema planetário de suporte de vida. Em nossa definição, processos biológicos/ecológicos são uma parte integral do funcionamento do Sistema Terra e não meramente receptores das mudanças na parte integrada oceano-atmosfera do sistema. Um segundo aspecto crítico é que forçantes (forcings) e retro-alimentações (feedbacks) dentro do sistema Terra são tão importantes quanto motores externos de mudanças, como o fluxo de energia do sol. Finalmente, o Sistema Terra inclui os humanos, nossas sociedades e nossas atividades; assim, os humanos não são uma força externa perturbando um sistema no demais natural, mas ao contrário uma parte integral e interativa do próprio Sistema Terra (STEFFEN, CRUTZEN e MCNEILL 2007).

O aspecto mais visível impacto planetário da ação humana é a emissão de gases do efeito estufa e o decorrente aquecimento global, que foi objeto de inúmeros estudos e debates (ARCHER e RAHMSTORF 2010; HANSEN 2009; PITTOCK 2009; RICHTER 2010) e sobre o qual já se estabeleceu um amplo consenso institucional a partir dos relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, em especial o Quarto (IPCC 2007). Mas outros problemas ambientais muito graves vêm sendo trazidos para a pauta (como o impacto da agricultura industrial e da pecuária): a demanda crescente de água doce e o rápido esgotamento das suas fontes (MODEN 2007; SHIKLOMOV e RODDA 2003), a demanda de terras e a derrubada das florestas remanescentes (FOLEY 2005), a crescente perda de biodiversidade, as modificações dos ciclos do nitrogênio e fósforo, a acidificação dos mares e seu impacto sobre a vida marinha, a emissão de aerossóis atmosféricos, bem como a ainda pouco conhecida dinâmica da poluição química.

Estas temáticas impulsionaram e foram visibilizadas pelos desenvolvimentos, em paralelo, tanto das ciências ambientais como das geociências. De uma lenta evolução como um ramo da biologia, a ecologia foi crescendo para se tornar o estudo abrangente das condições da vida em nosso planeta, nos diferentes nichos ecológicos e para as diferentes espécies, inclusive a nossa (ACOT 1990; BOWLER 1998; DELÉAGE 1991; JORGENSEN e FATH 2010; ODUM e BARRETT 2011; REAL e BROWN 1991; TIEZZI 1988). As geociências foram nucleada no século XIX pela geologia, mas passaram a assistir – com os avanços na geofísica e a comprovação da tectônica de placas – à integração de disciplinas antes separadas, como a meteorologia e a oceanografia, e a formação, nas últimas décadas, de uma série de disciplinas responsáveis por uma verdadeira explosão de novos conhecimentos (ALLABY 2008; BOWLER 1998; GAUTIER 2010; TARBUCK e LUTGENS 2009). Ao mesmo tempo, com a constatação de que há um “controle biológico do ambiente geoquímico” (ODUM e BARRETT 2011: 42) e, portanto, que a biosfera modela também a face do planeta (JORGENSEN e FATH 2010), a ecologia se torna uma componente central das ciências da Terra, que tem que abarcar tanto o estudo das dimensões geoquimicofísicas como biológicas do planeta.

Temos, pois, um conjunto mais ou menos articulado de dezenas de disciplinas, oriundas da antiga história natural, que descrevem os fluxos e processos físicos do Sistema Terra, analisam suas interações e interdependências, situam nele a vida, suas interações e condições de manutenção e projetam tendências, disciplinas hoje agrupados nos estudos interdependentes da ecologia global e das geociências, que tem sido abarcadas sob a designação de Ciências do Sistema Terra.

Da geologia às geociências

Os diferentes saberes ancestrais que estudam os relevos, as rochas, os ciclos naturais, o clima, os mares, as plantas e os animais são objeto de debates e sistematizações pelos pensadores gregos, romanos e árabes e chegam na modernidade ocidental na forma da história natural. É uma parte da história natural que se transforma, a partir do século XVIII, na disciplina da geologia – sem que isto elimine, de imediato, a figura do naturalista. Por um século acumulam-se observações e teorias com as obras de Werner, Hutton e Lyell, com suas polêmicas entre o catastrofismo, de um lado, e o metamorfismo e o uniformismo, de outro (ou entre o “netunismo” e o “plutonismo”); com o estabelecimento das redes de observatórios meteorológicos de meados do século XIX; e com expedições como a do Challenger que, entre 1872 e 1876, explorou os oceanos do planeta. A geologia – em conjunto com a oceanografia e a meteorologia – avança na descrição física da Terra – neste momento ainda separada do resto do universo, objeto da astronomia – e firma-se como disciplina acadêmica, obedecendo a dinâmica de especialização e fragmentação das ciências que seguiu pelo século XX adentro. A exploração do petróleo e as atividades de mineração ainda no século XIX, as demandas militares na navegação e aeronáutica, a busca de previsão do clima e o estudo dos sismos alimentam as pesquisas cientificas na área em sintonia com o espírito dominante na ciência da época (BOWLER 1998; GAUTIER, 2010).

Foi somente na seqüência da descoberta da radioatividade por Becquerel em 1896 e sua pesquisa por Rutherford, que a moderna geofísica firmou os fundamentos para uma compreensão mais profunda do núcleo do planeta e da dinâmica do “sistema” Terra. No início do século XX, as pesquisas sobre a história da Terra já começavam a apontar para uma idade de vários bilhões de anos (até atingir 4,56 bilhões de anos nas pesquisas atuais). É neste contexto que a obra de Alfred Wegener e sua teoria da deriva continental polarizou os debates a partir de 1915. Uma das grandes conquistas científicas do século XX, a demonstração da tectônica de placas exigia o desenvolvimento de novos conhecimentos (como o paleomagnetismo) e pesquisas na oceanografia, que mostrassem a expansão dos fundos marítimos. Na década de 1960, Hess, Wilson, Morgan, McKenzie e Pichon estabeleceram a grande síntese (GLEN 1982; LE GRAND 1988; ORESKES 1999; ORESKES e LE GRAND 2003; STEWART 1990; WOOD 1985). Em menos de dez anos, “constituiu-se a teoria da tectônica de placas, que esclarece com um conceito unificador uma enorme quantidade de observações sem relação aparente. Finalmente, os geólogos e os geofísicos podem traçar, nas suas grande linhas, a evolução da Terra” (GAUTIER 2010: 82).

Esta Terra tectônica tem sua superfície modelada pela hidrosfera, atmosfera, biosfera e agora, reconhece-se, também por sua interação com o sistema solar. A Terra transforma-se, a partir da década de 1960, no sistema complexo e integrado como a compreendemos hoje – que só pode ser apreendido plenamente por uma abordagem holista que integra as diferentes especialidades, na contramão das especializações das disciplinas, que seguem aprofundando seus estudos particulares. Os cientistas conseguem agora medir o impacto das erupções vulcânicas no clima da Terra. A oceanografia explora as regiões abissais e permite entender a interação dos oceanos tanto com o magma nas dorsais como com a atmosfera. O uso dos computadores permite a manipulação de grandes quantidades de informações e viabiliza a operacionalização dos primeiros modelos climáticos. Satélites colocam instrumentos sofisticados em órbita e ampliam enormemente a coleta de dados sobre os processos geofisicoquimicos. A trajetória da Terra é inserida na história dinâmica do nosso sistema estelar e confrontada com as descobertas realizadas pelas sondas que pesquisam outros astros do sistema solar e, em breve, de outros sistemas estelares. Seu estudo torna-se, assim, depois dos anos 1970, parte das ciências planetárias. A Terra se torna um corpo celeste bombardeado periodicamente por asteróides e cometas, responsáveis, supõe-se, por boa parte da água líquida existente, mas também por alguns dos fenômenos de extinções em massa da história da vida, um planeta que conhece oscilações de longo prazo em seu movimento ao redor do Sol – os três parâmetros propostos pela primeira vez por Milankovich nos anos 1930 e comprovados 1976, que explicam a recorrência das eras glaciais e as mostram como resultado das variações na órbita da Terra.

A nova ciência da climatologia, informada pela paleoclimatologia (as perfurações no gelo na estação Vostok, na Antártica, atingem 3623 metros em 1998, revelando o clima dos últimos 420 mil anos) (PETIT et al. 1999), começa, na década de 1970, a discutir de forma mais detida o impacto das modificações na química da atmosfera sobre a temperatura do planeta. O estudo dos ciclos biogeoquímicos dos elementos fundamentais para a vida – a água, o carbono, o nitrogênio, o fósforo, o cálcio, o ferro, o oxigênio, o enxofre – permitiu aprofundar o conhecimento da dinâmica do ambiente global e ajudar a definir fronteiras (boundaries) planetárias que tem que ser respeitadas para que as condições climáticas do planeta no Holoceno, que viabilizaram a agricultura, o sedentarismo e a civilização, sejam preservadas (ROCKSTROM, 2009).

O reconhecimento da diminuição do ozônio estratosférico por substâncias industriais e a negociação de seu banimento foi a primeira grande façanha da ciência da climatologia e da política do clima. Como o ozônio estratosférico bloqueia parcialmente a radiação ultra-violeta, sua manutenção é vital para a preservação da vida. Paul Crutzen (em 1970) e, depois, Frank Rowland e Mario Molina (em 1974) descobriram que o óxido nítrico e os clorofluorcarbonos liberados a partir das atividades industriais humanas catalisavam a destruição deste ozônio. Depois do reconhecimento de que haviam evidências científicas deste processo, os EUA baniram a produção de CFCs em 1978; mas os demais países continuaram produzindo-os. Por pressão da Agência de Proteção Ambiental dos EUA, o tema entrou nas negociações internacionais e quando, em 1985, foi anunciada a descoberta do buraco na camada de ozônio sobre a Antártida as conversas se intensificaram, levando à assinatura do Protocolo de Montreal. Em 2005, a concentração de gases que destroem a camada de ozônio tinha diminuído 8%-9% em relação ao seu pico em 1992-1994. Apesar disso, o buraco que se forma nas primaveras na Antártida deve continuar por algumas décadas.

Mas esta façanha não se repetiu frente ao problema do aquecimento global – objeto hoje de intensos conflitos internacionais e provavelmente a mais complicada questão confrontando os líderes mundiais. Elementos para a compreensão das mudanças climáticas começaram a ser debatidos ainda no século XIX (Fourier, Tyndall, Arrhenius), quando se descobriu que o dióxido de carbono criava um efeito estufa na atmosfera. O tema voltou a ser tratado, entre as décadas de 1930 e 1960, por Callendar, Plass, Revelle e Suess, mas foi só a partir de 1958, quando Charles Keeling passou a monitorar os níveis de CO2 na atmosfera, detectando o seu sistemático aumento anual, que uma base de dados confiável permitiu o avanço das pesquisas sobre o tema.

A climatologia foi gestada na décadas de 1960 pelos estudos convergentes da nascente ciência planetária ligada aos programas espaciais, da análise dos dados obtidos com o auxílio de satélites (o Nimbus III empreende, em 1969, um levantamento abrangente da temperatura da atmosfera), dos avanços na computação e na compreensão teórica e lógica dos sistemas complexos que sustentam os primeiros modelos climáticos, do estabelecimento do Programa Internacional de Pesquisa da Atmosfera Global, dos estudos sobre o efeito de feedback do albedo das calotas de gelo, das análises do paleoclima através dos estudos de anéis de árvores de vida longa e de núcleos de gelo extraídos de grandes profundidades, entre outros. Novos instrumentos, técnicas, programas de pesquisa, conceitos e paradigmas são construídos e formulados, desabrochando na década seguinte não só na discussão sobre a camada de ozônio, mas em temas mais controversos como o “inverno nuclear” (o debate sobre o impacto que uma guerra nuclear teria sobre o clima do planeta) e o cada vez mais evidente aquecimento global decorrente do efeito estufa provocado principalmente pelas emissões de CO2.

É entre 1976 e 1979 que uma série de estudos consolidam, de maneira inequívoca o entendimento de que o aquecimento global é o grande risco climático colocado para a Terra (PETERSON, CONNELLEY e FLECK 2008). O primeiro Congresso Climático Mundial é realizado em Genebra, em 1979, e leva à formação do Programa Climático Mundial para coordenar a pesquisa internacional sobre o tema. Um estudo da Academia Nacional de Ciências dos EUA, daquele ano, afirma que dobrando as emissões de CO2, a temperatura global aumentaria entre 1.5 to 4.5°C. E se consolidava a compreensão do balanço radiativo do planeta frente a radiação solar que, associada ao entendimento da química da atmosfera e aos dados da paleoclimatologia, permitia apreender o impacto da civilização moderna sobre a atmosfera, os oceanos e o clima de conjunto do Sistema Terra (HANSEN 2009).

Todas estas pesquisas começaram a repercutir institucionalmente. A ONU estabeleceu, em 1988, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC); seu primeiro relatório, dois anos depois, afirmava que os gases do efeito estufa estavam aumentando e provocariam um aquecimento global. Na Rio-92 foi criada a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança Climática, que formalizaria, em 1997, o Protocolo de Kyoto – visando reduzir até 2012 as emissões dos países industrializados 5,2% abaixo do nível de 1990. Em 2001 o terceiro relatório do IPCC declarava que o aquecimento global por causas antropogênicas era incontroverso. As temperaturas globais médias aumentaram consistentemente pelos últimos quinze anos, o período mais quente que a humanidade viveu. O gráfico da evolução das temperaturas globais, resultado do trabalho de Mann, Bradley e Hughes (MANN et al, 1999), seria popularizado como o “taco de hóquei” e se transformou em objeto de ácidas polêmicas.

Mas no mesmo ano de 2001, os Estados Unidos sob o governo Bush, então o maior emissor de CO2 do mundo, abandonou o Protocolo de Kyoto e passou a questionar sistematicamente o consenso científico sobre o tema, chegando inclusive a censurar o trabalho de climatologistas (BOWEN 2007). Empresas de petróleo e carvão organizaram um forte lobby para deslegitimar as pesquisas que evidenciam a relação entre as emissões de gases do efeito estufa e o aquecimento global e passaram a promover os estudos dos “céticos do clima” – uma iniciativa que recorda a reação da industria do cigarro frente as acusações de que fumar provoca câncer de pulmão (ORESKES e CONWAY 2010). Nem mesmo a eleição de Obama, em 2008, desbloquearia o quadro interno do acirrado debate norte-americano e o caráter ideológico que os interesses ligados à indústria de energia imprimiu ao debate.

Em 2006 e 2007, uma série de elementos reforçaram a percepção pública da centralidade do tema: o impacto do documentário “Uma verdade inconveniente”; a publicação do relatório STERN (2006), coordenado pelo ex-economista chefe do Banco Mundial; a divulgação do quarto relatório do IPCC (2007). Mas somente para, na seqüência, haver uma frustração com a renegociação do Protocolo de Kyoto (cuja vigência termina em 2012), em uma série fracassada de conferências internacionais – as COPs 15, em 2009, 16, em 2010, e a 17, em 2011. Pelo acordado em Durban, na COP 17, vai se tentar negociar um acordo até 2015, para começar a vigorar em 2020 – quando os cientistas dizem que o carbono acumulado na atmosfera causará um aquecimento global muito além do nível considerado seguro para a humanidade (um acordo que só pode ser considerado positivo como exemplo de contorcionismo diplomático).

O aquecimento global é hoje o mais complexo e abrangente desafio com o qual se confrontam os dirigentes das grandes potências. Apesar dos alertas convergentes de cientistas de diferentes áreas das ciências da terra, apoiados em evidências cada vez mais sólidas, o establishment econômico e político resiste a empreender as mudanças necessárias rumo a uma economia de baixo carbono (HULME 2009; PEARCE 2010) E a percepção das rupturas de outras dinâmicas essenciais do Sistema Terra, como as dos ciclos da água e do nitrogênio ou ainda a perda de biodiversidade, que exigem mudanças sócio-econômicas igualmente profundas na agricultura industrial e nos sistemas de transportes, é ainda mais limitada na opinião pública e entre as lideranças políticas. A inércia do ethos cientifico-comercial vigente resiste a assumir as conseqüências dos estudos das ciências da Terra que apontam para mudanças que introduzem cenários cada vez mais dramáticos nas décadas vindouras.

Da ecologia às ciências ambientais

Da história natural nasce, no século XVIII, não apenas a história dos relevos, das rochas e dos mares, como também a história dos seres vivos, a biologia, que procura explicar a formação das espécies. A revolução conceitual da evolução por seleção natural estabelece as bases para o entendimento da vida, sua história, formas e dinâmica (BLANC 1994). É a partir da obra de Darwin que surgiu na biologia uma disciplina cujo propósito é a análise das relações dos seres vivos com seu meio ambiente (o termo foi cunhado Haeckel, em 1868). Na virada para o século XX, inúmeros botânicos e zoólogos avançam para além das ecologias vegetal e animal e formularam idéias como a biocenose – depois expandida para a de biogeocenose (PUZACHENKO 2010) –, as comunidades bióticas como sistemas estruturados, as sucessões bióticas, os nichos ecológicos, as cadeias alimentares e estudaram a dinâmica das populações, até que TANSLEY (1935) e principalmente LINDEMAN (1942) desenvolvem o conceito de ecossistema – integrando os seres vivos e o ambiente externo. Paralelamente, avançam na União Soviética as investigações dos processos biológicos em termos de fluxos físicos (matéria e energia) e florescem as pesquisas de Vernadsky – primeiro formulador do conceito de biosfera (e de noossistema) (SVIREZHEV e SVIREJVA-HOPKINS 2010)

As bases teóricas da ecologia dialogariam e ganharíam sinergia com o estudo da termodinâmica dos seres vivos (MURPHY e O`NEILL 2007) e da cibernética. “Por volta do fim dos anos 1950, a elaboração de modelos de ecossistemas que utilizavam concepções tomadas da cibernética, liga-se diretamente à aplicação, na ecologia, dos aportes da termodinâmica dos seres vivos e da matemática. De fato, o conjunto dos mecanismos de equilíbrio que aparecem no seio de um ecossistema pode ser descrito… em termos de mecanismos de retroação (feedback), conceito central da cibernética” (ACOT 1990: 100). Eugene e Howard Odum utilizam, na seqüência, a linguagem da termodinâmica para descrever as características dos ecossistemas e os fundamentos da ecologia (ODUM e BARRETT 2007).

Desde os dust bowls dos anos 1930 nos EUA, cresceu a compreensão de que as práticas ecológicas e agrícolas devem estar ligadas, levando ao desenvolvimento da estudos sobre erosão dos solos. A partir da década de 1950, as transformações da agricultura passam colocar os problemas para uma ecologia agrícola (o estudo dos agroecossistemas), com o uso dos pesticidas e de controles biológicos. Crescem também os estudos sobre o impacto de espécies invasoras, manutenção e restauração de serviços ecossistêmicos, preocupações com a homogeneixação da biota (LOVEI 1997), valorização da biodiversidade para a manutenção das práticas agrícolas tradicionais, etc.

A ecologia como disciplina cientifica dialogaria e seria alimentada, a partir da década de 1960, pelo seu grande boom como movimento não só conservacionista, mas ambientalista – avançando também na consolidação de uma ecologia humana, situada na intersecção entre natureza e sociedade. A publicação de Primavera silenciosa, por Rachel Carsons, em 1962, com sua forte denuncia das conseqüências do uso dos pesticidas, pode ser considerada o ponto de partida para a sensibilização de setores cada vez mais amplos para as questões ambientais e para o desenvolvimento de um vasto movimento social (com o Sierra Club e os Amigos da Terra, depois com o Greenpeace e milhares de outras organizações). Obras como a de EHRLICH (1968) lançam o debate ecológico para fora dos círculos especializados da disciplina, que ganha projeção institucional com a Conferência de Estocolmo, em 1972. Os anos seguintes assistiriam a assimilação de preocupações ambientais moderadas até mesmo pelo mainstream político e econômico na forma do conceito de desenvolvimento sustentável. Ao mesmo tempo, o questionamento da idéia de desenvolvimento como crescimento é aprofundado mesmo no âmbito da economia (NUSSBAUM E SEN 1993; SEN 1999).

Entrementes, a ecologia continuava avançando como disciplina científica. NAVEH (1982 e 2000) introduz a idéia de tecnoecossistema que – estabelecidos pela sociedade moderna – são competitivos e parasitários dos ecossistemas naturais. E as pesquisas e debates na área da ecologia global avançam significativamente, não apenas no estudo dos ciclos biogeoquímicos globais, seus equilíbrios e fluxos, mas também com novas hipóteses abrangentes, na tradição de Vernadsky. LOVELOCK e MARGULIS (1973) vão formular a hipótese Gaia, pela qual os organismos e o ambiente físico evoluíram juntos em um sistema auto-regulatório – que mantém as condições favoráveis a vida no planeta (também LOVELOCK 1991 e 2006, BOSTON 2010). Fortalece-se, dentro deste enfoque holista, a compreensão de que há um controle biológico sobre o ambiente geofísico – que mantêm as condições favoráveis a vida no planeta. Em 1986 é lançado o Programa Internacional Geosfera-Biosfera para estudar as mudanças globais, que acumula resultados expressivos.

A importância crescente da ecologia como ciência está igualmente ligada ao crescimento, desde a década de 1970, dos problemas ambientais e a consciência da urgência de enfrentá-los. Multiplicaram-se catástrofes ambientais – dos naufrágios de petroleiros, com as sucessivas marés negras, ao gigantesco envenenamento de Bhopal, da rápida destruição de incontáveis ecossistemas às extinções de espécies e redução da biodiversidade. A pesca indiscriminada e a poluição dos mares estão reduzindo as populações marinhas. A poluição urbana e industrial produzem chuvas ácidas que desequilibram ecossistemas. A água potável e para agricultura se torna um bem cada vez mais escasso, ao qual parte importante e crescente da população da Terra tem acesso limitado. A expansão da agricultura e da pecuária destroem parcelas cada vez maiores das últimas florestas tropicais preservadas – com um destaque especial para a Amazônia. A radicalização das práticas empresariais de descartabilidade e obsolescência planejada ampliam o desperdício de recursos. O descarte de dejetos e resíduos sólidos se torna um enorme problema para todos os paises industriais. Mesmo a extensão do uso da energia nuclear, apresentada como uma alternativa ao uso de combustíveis fósseis, traz problemas dramáticos, evidenciados por sucessivos acidentes, particularmente os das usinas de Tchernobyl e Fukushima.

Em torno de cada um destes temas e de muitos outros, grandes confrontos políticos tem se estabelecido. As repercussões da apropriação pela sociedade de uma parcela tão grande dos recursos da biosfera terrestre amplia a crítica do consumismo como modo de vida característico da sociedade industrial. O conservacionismo ganha a adesão de parcelas importantes das populações urbanas, que também aderem a movimentos como o do decrescimento (LATOUCHE 2009). As demandas e movimentos das populações tradicionais para preservar seus territórios da exploração mineral ou agropecuária ganham uma conotação ambientalista. Movimentos camponeses que se opõem ao agronegócio buscam legitimar sua luta afirmando que contribuem para combater o aquecimento global. Apenas a título indicativo, três debates centrais no ano de 2011 mostram a presença destes temas na agenda política brasileira: a reforma do Código Florestal, a construção da usina hidroelétrica de Belo Monte e a continuidade da construção de usinas nucleares no país.

A convergência de saberes e as conseqüências da Grande Aceleração

A convergência entre as ciências da terra e as ciências ambientais nas Ciências do Sistema Terra tem produzido uma série de novos conceitos que vão desenhando um poderoso marco de análise para se compreender também as possibilidades e limites colocados para a ação das sociedades humanas. A partir da idéia de pegada ecológica (WACKERNAGEL e REES 1996), passou a ser possível quantificar o impacto da humanidade, de cada país, cidade ou mesmo grupo social sobre a biosfera e o equilíbrio dos ciclos biofísicoquímicos planetários.

A introdução da idéia de que vivemos em uma época antropocena – um tempo geológico distinto do estado interglacial natural do planeta, o holoceno – ilumina a responsabilidade humana sobre o destino da superfície da Terra e as formas de vida nela existentes.

Recentemente, STEFFEN, CRUTZEN E MCNEILL (2007) refinaram mais a idéia, propondo caracterizar o período mais recente de “Grande Aceleração”:

“O empreendimento humano acelerou subitamente depois do final da Segunda Guerra Mundial. A população dobrou em apenas 50 anos, para mais de 6 bilhões no final do século XX, mas a economia global aumentou mais de 15 vezes. O consumo de petróleo cresceu por um fator de 3.5 desde 1960 e o número de veículos motorizados aumentou dramaticamente de cerca de 40 milhões no final da Guerra para quase 700 milhões em 1996… A pressão sobre o ambiente global deste florescente empreendimento humano está se intensificando de forma aguda… A Terra está em seu sexto grande evento de extinção, com taxas de perdas de espécies crescendo rapidamente nos ecossistemas terrestres e marinhos. A concentração atmosférica de vários gases importantes do efeito estufa aumentou substancialmente, e a Terra está aquecendo rapidamente. Mais nitrogênio é agora convertido da atmosfera em formas reativas pela produção de fertilizantes e a queima de combustíveis fósseis do que por todos os processos naturais nos ecossistemas terrestres juntos. A notável explosão do empreendimento humano a partir de meados do século XX e o impacto em escala global associado a isso em muitos aspectos do funcionamento do Sistema Terra marca o segundo estágio do Antropoceno – a Grande Aceleração”.

As pesquisas recentes do Centro de Resiliência de Estocolmo deram origem à idéia de fronteiras planetárias, limites quantificáveis dentro de cujos marcos a humanidade pode operar de forma segura na Terra.”Transgredir uma ou mais fronteiras planetárias pode ser deletério ou mesmo catastrófico devido ao risco de cruzar limites que desencadearão mudanças abruptas, não lineares em sistemas de escala continental ou planetária” (ROCKSTROM et al. 2009). Três fronteiras já teriam, segundo estes pesquisadores, sido cruzadas: a da mudança climática pelo aquecimento global devido às emissões de CO2, a perda de biodiversidade e o desequilíbrio do ciclo biogeoquímico do nitrogênio.

As opções para a humanidade parecem claras: 1) manter o curso atual, aprofundar os desequilíbrios já existentes e introduzir novos, até o ponto de uma ruptura catastrófica do equilíbrio atual do Sistema Terra, o que poderia conduzir ao colapso da moderna sociedade globalizada; 2) mitigar o impacto das atividades humanas sobre o ambiente global, procurando manter-se dentro das condições do holoceno, o que envolveria não somente modificações tecnológicas no sentido de se obter maior eficácia energética e biológica (no caso da agricultura) e menos impacto ambiental, mas também uma alteração substancial dos valores societários e individuais, a começar pela ruptura com o consumismo; 3) e o recurso da geoengenharia – tanto complementar ao segundo caminho, basicamente com tecnologias de seqüestro de carbono, quanto como parte estruturante do primeiro caminho, em casos como o do uso de aerossóis de SO2 para resfriar a temperatura do planeta, com riscos imprevisíveis para o Sistema Terra.

Na raiz de boa parte dos problemas ambientais, está o confronto entre o tempo dos processos naturais, físicos e biológicos, os ritmos de renovação da vida, e os tempo acelerado da economia capitalista e seus critérios reducionistas de valorização (TIEZZI 1988). Revela-se cada vez mais ingênua a idéia de que as necessidades crescentes de uma humanidade cada vez mais numerosa poderiam ser solucionadas por uma combinação de progresso técnico e expansão ilimitada da economia. Os critérios de rentabilidade mercantil tornam a capacidade de previsão e controle limitadas e os desenvolvimentos das novas referências teóricas apontam para a existência, em todo caso, de efeitos imprevisíveis, seja pelas consequências cumulativas de processos conhecidos, seja pela introdução de novas tecnologias e seus desdobramentos. A crítica ecológica revela a irracionalidade da estrutura econômica da sociedade contemporânea, com a busca do crescimento pelo crescimento como principio ordenador do capitalismo, com o consumo supérfluo como ideal de felicidade e com a impossibilidade de generalizar o padrão de consumo hoje já existente em alguns países.

Outro modelo de desenvolvimento ecologicamente sustentável significa uma ruptura desta lógica hoje dominante – seja pelo decrescimento, seja pela economia do estado estacionário – e o abandono de boa parte da infra-estrutura de geração de energia e de transportes existente. As resistências a critica ecológica são, pois, muito fortes e profundamente enraizadas nas estruturas de poder estabelecidas, buscando bloquear as iniciativas de mudança sócio-econômicas e, frequentemente, paralisar muitas das pesquisas das ciências da terra.

Aprofundar vocação prometéica ou restringir a ação humana sobre a natureza?

Ecologistas, climatologistas, oceanógrafos, meteorologistas, biólogos, glaciologistas, planetologistas e cientistas de várias outras disciplinas se confrontam com os dilemas colocados pelo impacto humano sobre processos naturais que eles estudam e cuja manutenção percebem serem essenciais para garantir as condições adequadas à vida e à civilização humana – processos cujas modificações e riscos que carregam eles evidenciam para a sociedade (HANSEN 2009; SCHENEIDER 2009). Parte significativa destes cientistas retira das conclusões de seus estudos a necessidade de se deslocarem para o amplo e crescente campo sócio-político ecologista – que deve ser distinguido da ecologia como disciplina científica (BOWLER 1998). Mesmo figuras por vezes conservadoras acabam assumindo a condição de profetas dos desastres ambientais que se colocam no horizonte da sociedade industrial, com sua economia fossilista e consumista em perpetua expansão, se não forem feitas mudanças de rumo no curso do “desenvolvimento” moderno.

Este não é, todavia, o único caminho possível para estes pesquisadores. Outros cientistas, representando uma parcela ainda marginal destas disciplinas, mas coerentes com a vocação prometéica da ciência moderna, começam a formular ambiciosos projetos de geoengenharia, apostando que o uso da tecnologia poderia mitigar os impactos mais perigosos em escala planetária da atividade humana (CRUTZEN 2006).

Mas, para a maioria destes cientistas, esta ruptura com a tentação faustica da tecnociência moderna, que hoje marca as ciências da Terra, representa uma inserção social e política inédita para parte da comunidade científica e para a ciência por ela praticada. Passam a sofrer não apenas restrições de acesso a verbas para continuarem suas pesquisas, sob governos comprometidos com o fossilismo, mas chegam mesmo a receber ordens de manterem silêncio sobre suas descobertas. E isso não para funcionários menores, mas para os mais conhecidos cientistas de suas áreas, como é o caso de James Hansen, diretor do Centro Goddard para Estudos Espaciais da NASA (HANSEN 2009).

Esta inserção traz profundas conseqüências pelo papel que as ciências da Terra tendem a desempenhar nas décadas vindouras e pela rota de colisão com a economia estabelecida em que elas se encontram. Talvez a analogia mais pertinente, em termos de conflito com o establishment, mas ainda assim muito distante, seria com a dos confrontos que marcaram o nascimento da ciência experimental e seu choque com as Igrejas no século XVII (MARICONDA e LACEY 2001).

Como afirma Hugh Lacey,

“Desde suas origens, a tradição da ciência moderna foi representada respondendo a dois ideais: o ideal cartesiano de um entendimento abrangente da realidade e o ideal baconiano do controle da natureza a serviço da humanidade. A influência recíproca entre os dois tem se refletido na persistente dialética entre ciência e tecnologia avançada, uma dialética que se tornou tão complexa e tão arraigada, que aparece como uma necessidade, ou como um componente integral, da racionalidade” (LACEY, 1998: 141).

O controle de objetos naturais esta presente em todas as formas de cultura humana. Mas a prática do controle da natureza sofre uma mutação na modernidade, ampliando-se exponencialmente com o concurso da ciência e de sua “realização” como tecnologia – em especial graças às estratégicas de pesquisa que LACEY (2008) chama de descontextualizadas, adotadas por seu valor instrumental. Este controle ou domínio contrasta com outras formas de relação com a natureza que priorizam a reciprocidade, a mutualidade e o respeito (LACEY 1999).

Este propósito constitutivo da ciência moderna tornou-se claramente visível na condução do trabalho científico no século XIX e terminou modelando a sociedade do século XX, na forma de tecnologização da ciência (OLIVEIRA 2008), de constituição da tecnociência – das indústrias de base à microeletrônica, da agricultura industrial à geração de energia e sistemas de transportes. Durante grande parte do século passado, a física foi sendo reafirmada como ciência paradigmática e tornou-se responsável não só pela revolução da eletrônica, mas também pela humanidade viver por muitas décadas sob a sombra do holocausto nuclear – o estudo de SMITH (2008) é emblemático das implicações desta dupla alma da ciência para a humanidade. A aspiração baconiana é hoje reafirmada também quando olhamos para as ciências da vida, cujo desenvolvimento recente foi cada vez mais modulado pelas demandas das biotecnologias e da medicina e que, graças aos avanços da informática, gerou a engenharia genética – disciplinas que canalizaram boa parte dos investimentos de pesquisas no ultimo período (GARCIA, 2006 e LACEY 2006) –, além de levar as implicações éticas da manipulação da vida a novos patamares (MARICONDA e RAMOS 2003).

Mas a dinâmica de tecnologização da ciência, de estabelecimento da tecnociência, convergiu com a da mercantilização da pesquisa e da ciência no mundo contemporâneo, isto é, fundiu-se com o ethos científico-comercial (LACEY 2008). Passa a ser central na definição das estratégias de pesquisa as demandas de rentabilidade dos investimentos privados (OLIVEIRA 2008; LANGLEY e PARKINSON 2009).

Este processo mina profundamente a autonomia da ciência, como podemos ver em muitas áreas, embora nenhuma com tanta força como nas ciências da terra (MARKOWITZ e ROSNER, 2002; KRIMSKY 2003; MCGARITY e WAGNER 2008; MICHAELS 2008; ORESKES 2007; ORESKES e CONWAY 2010). Frente à censura da ciência (BOWEN 2007) e aos esforços por parte de poderosos interesses corporativos e governamentais de bloquearem pesquisas que confrontam interesses privados, a reivindicação da autonomia da ciência pode significar a defesa da liberdade para aprofundar a fusão entre capitalismo e tecnociência, mas pode ser também a reivindicação da possibilidade de se produzir um conhecimento que vá no sentido oposto, de crítica as estratégicas de controle da natureza e de transição para um auto-controle da sociedade de seu metabolismo com o meio-ambiente, com um profundo impacto crítico sobre a forma como a economia e o poder se organizam hoje (OLIVEIRA 2008).

Busca, de outra parte, debater as dimensões epistemológicas de uma atividade científica que, lutando para manter a objetividade e neutralidade reivindicadas historicamente pelas ciências naturais, rapidamente se vê obrigada a prescrever enormes modificações sócio-econômicas e tem sua autonomia sistematicamente contestada pelo poder ligado ao ethos científico-comercial. Estas ciências tendem, assim, a se colocarem em um lugar muito diferente daquele que foi ocupado pelas disciplinas que estruturaram a tecnociência hegemônica e podem fornecer um novo paradigma para se conceber a atividade científica na sua relação entre conhecimento e atuação social e política, entre controle da natureza e o necessário auto-controle pela humanidade de seu impacto sobre a biosfera do planeta.

Uma nova epistemologia?

A ciência moderna, experimental e quantitativa, tornou-se um empreendimento extremamente bem sucedido, impondo-se como a visão de mundo moderna. Desvendando os segredos da natureza – um livro escrito em linguagem matemática, diria Galileu – ela forneceu à humanidade a chave para a compreensão da natureza que seria passível não só de previsão, mas também de manipulação e controle (OLIVEIRA 2002). Como afirmava BACON (1973), “conhecimento e poder são para o homem uma única coisa”. Esta ciência nascida da crise pirrônica dos séculos XVI e XVII, em uma Europa dilacerada pela disputa entre crenças religiosas e ansiando por certezas, parecia oferecer garantias de neutralidade axiológica, buscando separar rigorosamente fatos de valores (MARICONDA 2006).

A formação da ciência deu-se no marco de uma cosmologia em que o homem não vivia mais no interior de um “mundo fechado”, mas sim de um “universo infinito” (KOYRÉ 1979). Ela forneceu os alicerces epistemológicos para o Iluminismo, com sua valorização da razão e da universalidade, e para a Revolução Industrial, que se deu no interior do universo cognitivo criado ou consolidado pela ciência no século XVII: mecânico, atomista, determinista, valorizando as práticas experimentais. Neste mundo, a ciência reduzia o papel do acaso na existência, dissolvia o cosmos – como totalidade portadora de sentido para todas as coisas, agora substituído pelo universo imanente da res extensa, da necessidade bruta, do conhecimento em que valores são rigorosamente separados dos fatos (a exceção do valor do controle do mundo físico como móvel do conhecimento) – e surgia como garantia de verdades demonstráveis, estabelecendo sua supremacia sobre conhecimentos baseados na fé ou na argumentação descolada da experimentação controlada. Esta ciência baseada em evidências empíricas empoderaria a sociedade moderna frente à natureza.

Este salto cognitivo da humanidade tem que ser defendido e esta defesa se identifica, em boa medida, com a defesa da ciência. Mas, ao desencantar a natureza e transformá-la em substrato inerte da ação humana, a ciência clássica privou a humanidade de uma compreensão mais profunda da complexidade do Sistema Terra e da profunda dependência que a humanidade mantêm em relação a ele.

A autoridade da ciência fundamenta-se em sua pretensão – em parte bem sucedida – de objetividade, neutralidade e autonomia perante os sistemas de crenças que percorrem o tecido social e as instituições que os representam, em especial as religiões. Ciência livre de valores quer dizer ciência fora dos valores sociais e colocada como um valor universal (OLIVEIRA 2008).

Mas não livre de aspectos normativos. LACEY (1998) vai, salvaguardando a objetividade da ciência frente aos relativismos, elaborar uma lista de valores cognitivos abrangentes (desdobrados em inúmeros outros), utilizados na escolha de paradigmas ou estratégias: adequação empírica, consistência, simplicidade, fecundidade (fertilidade), poder explicativo e verdade ou certeza; ele as distingue das “virtudes científicas” que fundamentam uma autonomia da ciência, como objetividade, distanciamento, honestidade, integridade, razoabilidade, submissão à evidência. PUTNAM (2008) retoma a tradição pragmática para lembrar que toda a experiência é permeada de valor e normatividade; a ciência é carregada de valores epistêmicos: coerência, plausibilidade, razoabilidade, simplicidade, naturalidade, beleza de uma hipótese, sucesso preditivo passado, etc.

Mas os valores cognitivos que garantem a objetividade do empreendimento científico são distintos dos valores sociais que orientam a escolha das linhas e temas de pesquisa. Muitas vezes estratégias descontextualizadas são escolhidas por sua rentabilidade para os negócios. Não podemos, pois, nos furtar de perguntar que valores almejamos para a atividade cientifica, para além das “virtudes científicas”. Serão aqueles que colocam a ciência como parte da tecnociência, orientada pelo ethos científico-comercial? Ou conduzida, como coloca LACEY (2008: 297), de maneira “a assegurar que a natureza seja respeitada – que suas potencialidades regenerativas não seja ulteriormente solapadas, e que sejam restabelecidas onde quer que seja possível – e que o bem-estar de todos, em todos os lugares, possa ampliar-se?” Esta não é uma questão apenas ética, mas social (SHINN e RAGOUET 2008), política (OLIVEIRA 2011) e epistemológica, que define o modo como a ciência efetivamente opera no mundo.

Será que a lógica da pesquisa científica, nas suas culturas teóricas, seus resultados e nos sistemas técnicos decorrentes é a mesma se o objetivo é o controle de processos naturais, medidos em termos de menor dispêndio de energia, tempo e custo e o maior lucro monetário para os seus financiadores, considerando que os recursos naturais são, para fins práticos, inesgotáveis e a biosfera não é ameaçada pela atividade humana? Ou se o objetivo é a geração de energia e a organização de sistemas de transportes sem emissão de carbono e a preservação da biodiversidade do planeta, promovendo a equidade social e produzindo o mínimo impacto sobre a biosfera já que a humanidade a está desestabilizando de maneira temerária?

Se a resposta envolve uma dimensão epistemológica, estamos perante a necessidade de confrontar os fundamentos do paradigma hegemônico em que as estratégias de pesquisa são conduzidas pelo ethos científico-comercial e voltadas para o controle e a aplicação técnica (lucrativa). A resposta para tal questão – se existe – deve emergir do trabalho concreto operado pelas disciplinas científicas que tem se confrontado com as conseqüências desastrosas, para o Sistema Terra e para a humanidade, da Grande Aceleração.

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José Correa Leite é professor da FACOM-FAAP, mestre e doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP.

 

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