Não há sinal de aprendizado dos líderes

A Alemanha e a França não estão simplesmente no rumo errado, elas não se importam com os países pobres do bloco, e o Reino Unido, único país a se recusar a aderir ao tratado, ainda não aprendeu nada sobre a crise. A opinião é do economista americano James Galbraith, filho de John K. Galbraith. Professor da Universidade do Texas, Austin, e autor dos livros “O Estado predatório” e “How Conservatives Abandoned the Free Market and why Liberals Should Too”, que está no Brasil para palestra no BNDES para um balanço de três anos de crise. “Não há sinal de aprendizado por parte dos líderes”, dispara.

Clarice Spitz entrevista James Galbraith, O Globo, 10 de dezembro de 2011

Três anos depois, Europa e Estados Unidos estão diante de uma iminente recessão. A crise não terminou?

É a continuidade da mesma sequência de eventos financeiros. A situação é agravada na Europa por ideias econômicas muito ruins, estrutura institucional muito fraca e uma grande diferença de interesses entre os sistemas bancários no bloco. Não há sinal de aprendizado por parte dos líderes tanto na Europa quanto nos Estados Unidos. O Reino Unido se recusou a assinar o novo tratado para a União Europeia (UE)…

O Reino Unido não quer submeter seu sistema bancário à regulação da UE. É uma atitude de um governo que não está aprendendo nada com a crise. Por outro lado, o tratado em si será muito ruim para o resto da Europa.

Por quê?

Porque é baseado no fato de que medidas de austeridade têm que ficar ainda mais duras. Na realidade, a política de austeridade faz parte do problema central da crise. Eles estão tentando forçar isso porque ainda têm uma influência política na Itália antes das próximas eleições, é uma questão de timing para Angela Merkel e Nicolas Sarkozy.

As raízes são políticas ou econômicas?

Há elementos dos dois. Do lado político, na Alemanha eles fazem crer que o superávit faz parte dos pontos fortes enquanto o déficit faz parte das fraquezas. Mesmo Merkel, que é uma pessoa mais sofisticada e sabe que essa ideia é ridícula, não consegue escapar desse tipo de argumento. Do lado econômico, o problema central é que a política de resgate da Alemanha e da França vêm fundamentalmente dos bancos franceses e alemães. Essa política não foi desenhada para estabilização ou recuperação da Grécia, Portugal ou Espanha.

A reação do Reino Unido de ficar de fora foi realmente uma surpresa?

Não estou surpreso. Não é que o Reino Unido esteja atrás de políticas melhores. Ele quer preservar a vantagem competitiva da City of London, em detrimento do resto da economia europeia.

Cameron disse ser particularmente contra uma regulação europeia…

Isso é exatamente o que é fundamental. É necessário um sistema bancário rigoroso e uma estrutura regulatória efetiva. Mas eu relutaria em partilhar o desenho dessa regulação com os líderes políticos atuais. Não acho que as atuais lideranças da Alemanha e da França possam criar um sistema regulatório efetivo. Não é porque o Reino Unido está agindo de uma maneira egoísta que as políticas regulatórias seriam efetivas.

A S&P acaba de pôr em perspectiva negativa toda a União Europeia. O senhor considera isso uma ameaça?

As agências de rating não são sérias. São companhias que não levaram em conta empresas entulhadas com ativos tóxicos e depois rebaixaram o triplo A dos EUA. Há importantes deficiências na maneira como operam. No caso de alguns bancos, elas talvez reflitam o senso comum quando os rebaixam. Mas a União Europeia? O que isso significa, que o Banco Central Europeu não vai honrar suas dívidas? É um absurdo.

O euro é sustentável?

Não há mecanismo legal para sair dele e essa decisão não vai ser tomada pelos pequenos países. O único país que poderia fazê-lo é a Alemanha. Enquanto não houver mudança nas diretrizes econômicas e França e Alemanha continuarem a ditar a política europeia, será extremamente difícil algum progresso econômico. Não há solução na austeridade. Não sei por que é tão difícil que os líderes europeus entendam isso. O problema é que eles entendem, mas, de fato, não se importam. O governo alemão tem sua preocupação prioritária: a sobrevivência dos bancos franceses e alemães.

E os emergentes?

Eles são obviamente afetados por uma desaceleração da Europa. Estão numa posição mais forte ao não serem detentores de títulos gregos, espanhóis e portugueses. Mas não estão imunes. Ninguém está.

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