Revolta incendeia o Madeira

No limite das péssimas condições de trabalho e da super-exploração da mão-de-obra, veio a revolta dos funcionários da construção da usina hidrelétrica de Santo Antônio, no rio Madeira. Todas as atividades pararam praticamente durante duas semanas, no fim de junho. De acordo com os trabalhadores, a situação tornou-se insustentável e, no dia 17, começaram as manifestações. Ônibus da empresa foram apedrejados e queimados e parte do alojamento, depredado.

Eduardo Sales de Lima, Brasil de Fato, 21 de julho de 2010

A paralisação dos serviços durou até o dia 29, após a realização de uma convenção coletiva dos trabalhadores. Porém, o clima de tensão permanece, sobretudo por causa da demissão de dezenas de funcionários acusados pelo Consórcio Santo Antônio Civil (CSAC), responsável pela obra, de vandalismo. De acordo com a Odebrecht, líder do consórcio, tais protestos foram impelidos por movimentos sindicais contrários à entidade que representa oficialmente a categoria, o Sindicato dos Trabalhadores na Indْustria da Construção Civil do Estado de Rondônia (Sticcero).

O Sticcero afirmou que o estopim das mobilizações teria sido a agressão de um engenheiro contra um operário. De outro lado, os funcionários foram acusados de extrapolar os protestos e agredir o responsável do setor de transporte, conhecido como “Velho Miranda”, antigo funcionário da Odebrecht. Isso porque, de acordo com Antônio*, do setor de Terra e Rocha, o encarregado dos transportes teria tentado impedir a manifestação dos trabalhadores.

Para além desses fatos, de acordo com o sociólogo Luiz Fernando Novoa, da Universidade Federal de Rondônia (Unir), do ponto de vista da luta pelos direitos trabalhistas, é importante que se destaque o caráter espontâneo e legítimo da paralisação, que, segundo ele, não teve origem em nenhum movimento sindical organizado. “Muito pelo contrário, os movimentos organizados estão procurando conter o movimento de base com o auxílio das empresas”, afirma.

Vandalismo

Após a revolta, os trabalhadores foram tachados pelo Consórcio Santo Antônio Civil como vândalos. João*, da área de concretagem, morador de Porto Velho e que está há pouco mais de um mês na obra, pondera seu ponto de vista.“Existe o grupo das pessoas revoltadas, baderneiros não. É tanto descaso que elas não aguentam mais; qualquer coisa é um ato de defesa para que alguém enxergue o que estáacontecendo neste mundo”, explica.

Novoa também acredita que vandalismo não é a palavra correta. “Como é que se justifica que um caso de vandalismo isolado dure mais de uma semana?”, questiona o sociólogo. Para ele, o conjunto dos milhares de trabalhadores estáchegando a um grau de consciência do limite dessa exploração, de que ela é insuportável. “Os trabalhadores se levantam contra terríveis condições de trabalho, praticamente de regime escravo, de brutalidade absoluta a ponto de ocorrer mortes sem verificação de danos ou indenização. Diante disso, as empresas simplesmente dizem que são casos de vandalismo”, dispara.

Arrombamento

Após as manifestações do dia 17 de junho, cerca de 50 funcionários foram demitidos. No dia 22, esses funcionários dirigiram-se, juntos, à Procuradoria Regional do Trabalho da 14ª Região, junto com representantes do Sticcero. Eles contaram à procuradora do trabalho, Michelle Bastos Chermont, que tinham sido levados à força para depor na Secretaria de Segurança do Estado e, ao sair de lá, foram demitidos por justa causa, não sendo permitido sequer voltar ao alojamento para buscar seus pertences.

“Fui para o alojamento com esses trabalhadores no dia 25 de junho e, de fato, lá não estavam os pertences de todos eles, faltavam muitas coisas, de dinheiro a documentos, tênis e camisas. Também foi constatado que 27 trabalhadores não tinham recebido nada que era seu”, relata a procuradora.

A seu ver, os trabalhadores cometeram vandalismo, “mas ainda que a pessoa estivesse envolvida nas depredações dos ônibus, não justifica o procedimento da empresa na demissão”, pondera Chermont. Segundo ela, da mesma forma que os trabalhadores estavam reivindicando direitos que acham pertinentes, exorbitaram dos mesmos ao queلbrar os ônibus e a empresa exorbitou de seus direitos ao demiti-los arrombando e sumindo com seus bens.

Abismado com o arrombamento dos armários de seus colegas alojados, Antônio, do setor de Terra e Rocha, criticou o aparato policial disponibilizado para o consórcio reprimir manifestações de apoio aos demitidos. Ele lembra que, no dia 28 de junho, houve um outro protesto nos arredores do alojamento ao qual policiais militares responderam com tiros de bala de borracha. “Nesse mesmo dia queriam nos obrigar a trabalhar, mas os alojados não quiseram”, completa.

“Lágrimas”

Entre as pessoas demitidas pelo consórcio por causa dos protestos e que ficaram apenas com a roupa do corpo, está Joaquim*, até então alojado e que trabalhava há seis meses como armador. Ele soube que o consórcio colocou seu nome numa lista que o envolvia nas depredações. “Fiquei rodado, sem dinheiro, quebrado. Jamais sairia do meu estado para tentar ganhar a vida aqui em Porto Velho para bagunçar numa obra”, conta.

Joaquim ratifica que não irá assinar a demissão por justa causa: “não assino de jeito nenhum, não vou assinar por uma coisa que não devo”. Ele faz questão de lembrar que foi proibido de ir ao enterro de sua filha, no final de maio, morta aos 4 anos de idade, em Sergipe. “Tive que trabalhar com as lágrimas caindo dos olhos”, lamenta.

* Nomes fictícios

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