Uma súbita mudança de estado: apertando um botão!

Por mais que valorizemos as questões ambientais, pode parecer um pouco bizarro, em meio a tantos processos políticos e problemas sociais urgentes, chamar a atenção para temas de ciência que revelam o que se passou no planeta a milhares de anos atrás.

Mas um estudo do gelo da Groenlândia localizado entre 1.452 e 1.642 metros de profundidade, publicado pela revista Science, indica que o clima do planeta se alterou abruptamente há 14.700 anos e há 11.700 anos, no fim da última era glacial e que a temperatura aumentou até 10º C de um ano para outro! Como afirma uma nota publicada no jornal Folha de S.Paulo, a pesquisa “lança um alerta para os cientistas em tempos de aquecimento global: transições dramáticas e totalmente imprevistas no clima podem acontecer em períodos extremamente curtos”. Dorthe Dahl-Jensen, da Universidade de Copenhague, afirma “nós analisamos a transição da última era glacial até o presente período interglacial, e as mudanças no clima estão acontecendo tão de repente que é como se alguém tivesse apertado um botão”.

Sune Olander Rasmussen, também da Universidade de Copenhague, afirmou à Folha que é preciso criar modelos que simulem as alterações abruptas do passado e, mais importante, que verifiquem se o clima tem “pontos de virada” – a partir dos quais ele muda de repente. Segundo Rasmussen, os aquecimentos observados durante a era glacial (um há 14.700 anos e outro há 11.700 anos) mostram as alterações da circulação atmosférica de um ano para o outro. A última dessas viradas climáticas deu ao planeta a cara que ele tem hoje: as geleiras que cobriam boa parte do hemisfério Norte derreteram e o nível do mar subiu cerca de 100 metros.

Este estudo vem confirmar outro publicado no ano passado por James Hansen e cinco outros climatologistas, ”Climate change and trace gases“. O ambientalista inglês George Monbiot disse, então, que se as afirmações de Hansen estiverem corretas, os relatórios publicados pelo Painel sobre Mudança Climática (IPCC) da ONU, “poderiam ser absurdamente otimistas”. Os modelos utilizados pelo IPCC trabalham com uma elevação do nível dos mares de 59 cms até 2100. Mas Hansen demonstrou que quando a temperatura aumentou 2-3º, há 3,5 milhões de anos, o nível dos oceanos aumentou rapidamente 25 metros! E encontrou evidências de que o gelo responde imediatamente à elevação da temperatura.

Hansen mostrou, depois de 2005, que a elevação da temperatura global seria duas vezes mais sensível ao aumento dos gases do efeito estufa na atmosfera do que estabelecido até agora (com o ponto sem volta sendo atingido em torno de 2016!). Em 2007, ele e seus cinco colegas analisaram longas séries históricas de dados e mostraram que o derretimento das plataformas de gelo da Groelândia e da Antártica, já em curso, conheceriam uma aceleração brutal nas próximas décadas – em uma “súbita mudança de estado” físico (de sólido para líquido). Segundo ele, estaríamos muito próximos do precipício: as condições que favoreceram o desenvolvimento da civilização “estariam terminando”.

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