Por Adhemar S. Mineiro
Fonte: Portal Ibase, 24/7/2008
O mau humor dos mercados foi engrossado pelas autoridades financeiras internacionais, inclusive pelos sisudos representantes de bancos centrais internacionais reunidos no Banco de Compensações Internacionais em Basiléia, Suíça. Tal fato mostra que a crise financeira internacional, tornada explícita a partir da eclosão da crise do mercado imobiliário dos Estados Unidos, veio para ficar por um bom tempo. Assim, não só estamos propensos a solavancos consideráveis nos mercados financeiros, ambiente fértil para a especulação, como a duas outras conseqüências que afetam mais os mortais comuns que não participam ou acompanham o jogo das finanças: inflação e estagnação econômica.
O pior é que a subida da inflação – refletindo pressões de aumento de demanda e também movimentos especulativos – sobre as commodities agrícolas e minerais só tem uma resposta das autoridades financeiras internacionais, como samba de uma nota só: aumento das taxas de juros, país por país.
Ou seja, a resposta ao aumento de preços é a tentativa de frear a economia, o consumo e os investimentos, com o intuito de provocar redução da demanda agregada para reduzir preços. E, até lá, a estagnação vai sendo projetada para frente. O que significa a estagnação? Produção patinando (ou recessão em alguns países), salários e renda em queda, desemprego aumentando.
E os orçamentos nacionais – os mesmos que já colocaram centenas de bilhões de dólares estadunidenses para aliviar perdas de corporações e de especuladores financeiros – são compelidos a ajustes para garantir a rigidez fiscal, contribuindo com políticas fiscais restritivas para forçar ainda mais a queda da demanda.
O que é dizer para as maiorias sociais: não contem com suficientes políticas compensatórias por parte dos estados nacionais, pois pela lógica que empurra os juros para cima, há restrição na capacidade de minimizar ou reverter os efeitos da crise, pelo menos para a maior parte da população (já que, quando se trata de aliviar os efeitos sobre as perdas financeiras, é possível continuar contando com o saque, quase a descoberto, sobre os orçamentos nacionais).
Infelizmente, essa lógica de funcionamento da economia mundial expressa dois aspectos de um modelo insustentável. A primeira diz respeito ao padrão de produção e consumo intensivo de matérias primas internacionais, generalizado como “padrão de sucesso” a partir do final dos anos 1980. Com a liberalização comercial, vários países adotaram esse padrão, superando restrições nacionais de acesso a algumas matérias primas via comércio internacional.
Nesse padrão, cabia aos chineses fornecerem ao mercado dos EUA os bens baratos que sustentavam a sua fome de consumo, ao mesmo tempo em que cabia aos latino-americanos fornecerem as matérias primas intensivas em recursos ambientais que possibilitavam aos chineses fazerem esse movimento. Além disso, os chineses tentavam, pouco a pouco, generalizar o padrão de consumo “modelo EUA” para seus cidadãos, agravando o problema. Esse é só um exemplo.
Ora, do ponto de vista da sustentabilidade, esse padrão não é generalizável. Ao contrário, seria importante mudar os hábitos de consumo da sociedade estadunidense, o que alguns até reconhecem no debate eleitoral desse ano nos EUA. Ou seja, não é sustentável generalizar o modelo de produção e consumo existente, via liberalização comercial, para o conjunto dos países do globo, sob risco de agravar ainda mais a crise ambiental já instalada.
Outro ponto é que a desregulação dos mercados financeiros é reconhecida pelas mesmas sumidades do mundo financeiro que até esse momento acompanhavam com complacência, ou até euforia, o que em alguns momentos se chamou “exuberância irracional dos mercados”. Essa desregulação levou não só à possibilidade de que uma crise se generalize pelo conjunto da economia mundial, mas também à forma aguda como isso se dá. A liberalização financeira dos últimos 25 anos foi fundamental na definição da extensão e da intensidade da crise atual.
Liberalização comercial e liberalização financeira são irmãs gêmeas de um modelo que se espalhou e sedimentou pela hegemonia dos interesses das grandes corporações nas três últimas décadas. Tal modelo reverteu o padrão de funcionamento regulado da economia capitalista estabelecido no pós-guerra, como saída ao que foi constatado com a crise dos anos 1920 e 1930, cujo ambiente econômico, político e social tornou possível a Segunda Grande Guerra. A economia capitalista, deixada ao seu próprio jogo de maximização dos resultados econômicos, longe de gerar o melhor dos mundos, é capaz de gerar crises profundas. A liberalização das últimas décadas desfez as amarras regulatórias desse ambiente construído no pós-guerra, mas tornou novamente possível uma crise aguda e generalizada, como está ficando claro agora.
Isso tem pelo menos uma grande vantagem: abre a possibilidade de discussão de um novo modelo de produção e consumo em âmbito mundial e de novas regulações que tentem impedir que a economia mundial, principalmente os seres humanos que a fazem funcionar, sofram as conseqüências de modelos econômicos com os quais pouco ou nada ganharam.
*Economista, técnico do Dieese e do convênio Dieese/CUT/Rebrip
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Belo artigo, parabéns! A existência humana só é possível graças a uma infindável sucessão de equilibrios, i.e. tudo que sobe, desce. Os arautos desta cepa de capitalismo, que eu batizei de Capitalismo Acelerado, achava que a loucura que montaram só traria bonus – mas o onus sempre vem atrás, em igual natureza. Só que sempre vem de forma mais concentrada (o que machuca mais).
Ou mudam o Capitalismo Acelerado ou ele acaba com o capitalismo.
Convido-os para visitarem o meu http:blogdocredito.wordpress.com, onde trato de crédito e seu ambiente.
Abraços + sucesso, FB