Por Pedro Doria
Fonte: O Estado de S.Paulo, 4/7/2008
No fim de janeiro, dois pesados cabos submarinos foram cortados no Mar Mediterrâneo – um na França e outro próximo do Egito. Dois ao mesmo tempo, um acidente de todo improvável. Ligavam grande parte da África e da Ásia à internet. Vários países do Oriente Médio ficaram sem acesso. A Índia, não. O país de presto desviou a rota para conexões auxiliares. A rede ficou lenta, mas de pé. Acidentes acontecem. Planos B existem para isso. O que vários serviços públicos de São Paulo não tinham, ontem, era esse Plano B que manteve a Índia de pé em meio à crise.
A internet não saiu do ar. Quem saiu do ar – por acidente, incompetência, sabotagem ou ataque de hacker – foi a Telefônica. Se um nó da rede some repentinamente em algum pedaço do mundo, como ocorreu ontem, a rede desvia a rota e permanece ligada. Aquilo que faz da arquitetura da internet elegante é essa redundância. Há vários caminhos para chegar de um ponto a outro. Se um engarrafou, outros continuam.
Quem desenvolveu o projeto de rede das delegacias e do Poupatempo cometeu um erro sério nesse ponto: contou com uma única rota. Serviços essenciais precisam de redundância, de uma ou mais rotas auxiliares. De qualquer alternativa. Há várias no mercado. A Embratel continuou online. O Vírtua, da Net, estava de pé. Empresas de acesso via rádio estão funcionando a plena capacidade. Algumas operadoras de celular têm serviços 3G. O que não pode ocorrer é a polícia perder acesso aos bancos de dados e mandar as pessoas voltarem no dia seguinte.
A rede necessita de tecnologias extremamente complexas para funcionar. Todos que já tiveram problemas no computador sabem que, em geral, descobrir a causa dá muito trabalho e demora. A história é sempre a mesma: tudo funcionava bem; de repente, parou. Se é digital, uma hora pifa misteriosamente. Com a Telefônica foi igual, apenas numa escala muito maior. São inúmeros os problemas que podem ocorrer. Quanto maior, mais difícil encontrar o motivo. É do jogo. Como em casa, não adianta ficar pressionando o técnico. Quando ele conseguir, resolve. Depois de tudo, a empresa, espontaneamente ou via Justiça, indeniza os prejudicados.
Há poucos anos, não precisávamos de internet nem tecnologia. Alguns lembram com saudades. Máquinas de escrever mecânicas, quando quebram, identificamos logo o defeito e sempre tem uma sobressalente do lado. Ninguém fica sem o boletim de ocorrência. Verdade. E nenhuma delegacia tem acesso aos BOs das outras. Lista com fotografia de foragidos acessível por todo policial, nem pensar.
Naquela época, para sacar dinheiro era preciso pegar o horário de banco aberto e esperar na fila. Toda sexta-feira era dia de trocar o almoço pela hora de fila para o saque do fim de semana. A garotada nem lembra. Sorte a deles. Via internet, avós que moram longe dos netos conversam de noite, olhando as crianças. Videofone já existe, está na rede. Como estamos todos conectados, encontramos amigos há muito não vistos. Órgãos para doação encontram instantaneamente receptores em qualquer ponto do País. Isso: a internet salva vidas.
É por isso que precisamos de mais internet, não de menos, em nossas vidas. Em casa, podemos nos dar ao luxo de nos desconectarmos. É uma opção. Nos serviços essenciais, não. É obrigação do Estado manter todas as instituições constantemente online. A idéia de redundância, de que para se manter plenamente conectado é preciso ter mais de uma fonte de acesso constantemente em pé, não é original. Pelo contrário: está no bê-á-bá do desenvolvimento de redes.
É tudo parte do processo de educação de todos nós, cidadãos do mundo digital. Gente ficou sem dinheiro do INSS ontem. A responsabilidade pelo dano não é só da Telefônica.
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