Cientista quer processar dirigente das corporações por crimes contra a humanidade.
James Hansen é um herói improvável. Seu nome é desconhecido mesmo para a grande maioria das pessoas mais informadas. Como responsável há muitos anos pelo Instituto para Estudos Espaciais Goddard da Nasa, em Nova Iorque, principal instituição de estudos climáticos do mundo, ele poderia ser confundido com um alto burocrata do governo norte-americano. Mas ele foi o principal divulgador, depois de 1981, da idéia de que o efeito estufa está produzindo o aquecimento global e que esta tendência terá conseqüências catastróficas para a humanidade. Seu testemunho perante o congresso dos Estados Unidos em 23 de junho de 1988 “O efeito estufa: impactos sobre a atual temperatura global e ondas de calor regionais”, é considerado o grito de alerta decisivo sobre problema.
Crítico feroz dos governos Clinton e principalmente Bush, censurado pelo último, Hansen acabou ganhando o status de mais proeminente cientista ambiental do mundo. Agora, ele propôs que os executivos que dirigem as grandes empresas petrolíferas e de carvão (e ele está se referindo aos CEOs da ExxonMobil e da Peabody Energy) sejam julgados por crimes contra a humanidade e a natureza. Cientista quer processar dirigente das corporações por crimes contra a humanidade.

O senso comum associa a ecologia e sua luta por outro modelo de civilização à românticos que rejeitam o mundo moderno, mas os alertas mais dramáticos sobre o desastre que se abaterá sobre a humanidade caso mantenha seu rumo atual vem de cientistas “respeitáveis” – climatologistas, oceanógrafos, meteorologistas, paleo-meteorologistas, químicos, bioquímicos, biólogos, botânicos, zoólogos, físicos, biofísicos e astrofísicos – como Hansen, que fundamentam suas previsões no ciência de ponta da atualidade (reconstituição de complexas séries históricas de dados, modelagens matemáticas, ampla utilização da supercomputadores para o tratamento destas informações e para as projeções para o futuro, etc.). Grande parte das previsões feitas nas últimas décadas – e Hansen é a Cassandra da Tróia em que se transformou nosso planeta – seria impossível sem estes recursos.
Mas estes cientistas foram levados, pela complexidade do problema com que se defrontam, a se afastar tanto do modelo mecânico e atomista de ciência estabelecido desde Galileu e Newton, quanto da visão prometéica que a ciência ganhou no mundo a partir da difusão do projeto baconiano pelo pensamento iluminista. Progresso foi se associando, nesta ideologia, à industrialização, capacidade de modificar a natureza física e aumento do consumo. Mas como estes cientistas politicamente moderados são obrigados a se confrontar diretamente com as conseqüências suicidas disso para a humanidade, foram se transformando em críticos objetivos da racionalidade sistêmica vigente.
Hansen é, provavelmente, o melhor exemplo disso. Desde que detectou as conseqüências do efeito estufa, há quase trinta anos, foi se transformando em um crítico feroz do modelo industrialista vigente, sofrendo na pele todas as calunias e desinformações semeadas pelos lobbies das industrias do petróleo e do automóvel. Mesmo um ambientalista de destaque, como George Mombiot, acha sua proposta de julgar os responsáveis pela desinformação – como vem ocorrendo com os executivos da indústria do tabaco que manipularam as informações sobre seu impacto na causa do câncer -, muito radical.
Mas se as descobertas recentes de Hansen estiverem corretas, estamos à beira de um ponto sem volta, a partir do qual qualquer atraso em cortar as emissões de carbono poderá significar, em poucos anos, a morte de muitos milhões de pessoas. A proposta de colocar no banco dos réus por crimes contra a humanidade os executivos das grandes corporações que patrocinam as campanhas de desinformação sobre a mudança climática (do petróleo ao automóvel, passando pelo carvão e pelas termolétricas) é coerente com esta avaliação e deve ser seriamente considerada por todos os movimentos sociais.
Abaixo, duas notícias em português sobre as atividades recentes de Hansen.
Por Donna Smith
Fonte: O Estado de S.Paulo, 23 de junho de 2008, da Reuters
Cientista defende imposto do carbono contra aquecimento
Segundo o cientista James Hansen, é preciso adotar medidas urgentes para diminuir as emissões de CO2
WASHINGTON – O cientista norte-americano responsável 20 anos atrás por dizer ao Congresso dos EUA que o planeta estava esquentando afirmou, nesta segunda-feira, que é preciso adotar medidas urgentes a fim de diminuir a produção de gases do efeito estufa e propôs criar um imposto sobre as emissões de carbono.
James Hansen, diretor do Instituto Goddard para os Estudos Espaciais (uma entidade ligada à Nasa, agência espacial norte-americana), disse em uma sessão realizada no Congresso que a taxa de carbono seria a forma mais eficiente de diminuir as emissões e encorajar a utilização de fontes de energia não-fósseis.”Precisamos ser francos com a opinião pública a respeito da necessidade de haver um preço sobre as emissões de carbono”, disse Hansen. “Essa é a única forma de começarmos a avançar rumo a uma economia livre de carbono.” Segundo o cientista, é preciso adotar medidas urgentes para diminuir as emissões de dióxido carbono, um dos gases responsáveis por aquecer o planeta e provocar o derretimento de gelo no Ártico. Hansen disse que os líderes mundiais dispunham de apenas um ou dois anos antes de a Terra atingir um “momento crítico” com enormes consequências sobre o clima mundial e a sobrevivência de seres vivos de várias espécies. “Estamos hoje diante de uma situação de emergência”, afirmou o cientista. Hansen disse ainda que o governo não deveria ficar com o dinheiro arrecadado com o imposto do carbono, mas reinvesti-lo de forma a ajudar os contribuintes a pagarem por combustíveis mais eficientes.
O presidente norte-americano, George W. Bush, opôs-se à adoção de qualquer programa amplo de combate às emissões de carbono afirmando que isso prejudicaria a economia dos EUA e resistiu a qualquer sugestão de aumentar os impostos.
Mas o aquecimento global transformou-se em um tema da campanha presidencial deste ano no país e deve surgir com destaque na cúpula a ser realizada pelos líderes do Grupo dos Oito (G8, que reúne países industrializados) no próximo mês, no Japão.
Hansen, 20 anos atrás, testemunhou diante de uma comissão do Senado e disse aos congressistas que “o efeito estufa foi detectado e está alterando o nosso clima neste momento.”
O testemunho do cientista ajudou a fazer nascerem os primeiros esforços da parte do Congresso para enfrentar o efeito estufa. A manobra mais recente desse tipo, um projeto de lei que criaria um sistema de compra e venda de cotas de emissão de carbono, morreu no Senado, no começo deste mês, devido à ameaça de veto da parte do governo.
Fonte: O Estado de S.Paulo, 7 de abril de 2008, da Redação
Metas de emissão de CO2 são ‘desastre garantido’, diz cientista
Hansen pediu que a UE repense suas metas, diminuindo a emissão de 550 para 350 partes por milhão de CO2
SÃO PAULO – James Hansen, chefe do Instituto de Estudos Espaciais Goddard da Nasa em Nova York, pediu nesta segunda-feira, 7, que a União Européia (UE) e seus parceiros internacionais repensem urgentemente as metas para redução na emissão de dióxido de carbono (CO2), pois eles podem ter subestimado grosseiramente a escala do problema climático. Segundo o The Guardian, o alerta baseia-se em seu trabalho publicado, também nesta segunda-feira, 7, que indica que os níveis atuais de emissão encaminham o planeta a um “desastre garantido.”
Hansen diz que a meta da UE de 550 partes por milhão (ppm) de CO2 – a mais rigorosa do mundo – deveria ser reduzida para 350ppm. Ele argumenta que o corte é necessário se “a humanidade quiser preservar um planeta similar àquele em que a civilização se desenvolveu.” Uma versão final do trabalho de co-autoria de Hansen com outros oito cientistas do clima, foi postado nesta segunda-feira, 7, na internet. Ao invés de usar modelos teóricos para estimar a sensibilidade do clima, sua equipe se voltou para evidências da história da Terra, que eles dizem dar uma imagem da situação muito mais precisa.
A equipe estudou amostras nucleares tiradas do fundo do oceano, que permitem traçar os níveis de CO2 por milhões de anos. Essas amostras mostram que quando o planeta começou a se resfriar durante a Era Glacial (35 milhões de anos atrás) a concentração de CO2 na atmosfera estava em 450ppm.
“Se nós ficarmos a 450ppm por tempo suficiente, o aquecimento provavelmente derreterá todo o gelo – o que irá gerar uma elevação de 75 metros no nível do mar. O que nós descobrimos é que a meta que todos nós temos buscado está fadada a levar-nos a um desastre – um desastre garantido”, Hansen falou ao The Guardian.
Com níveis tão altos quanto 550ppm, a Terra se aqueceria 6ºC, descobriu o trabalho. Estimativas anteriores acreditavam que o aquecimento seria de apenas 3ºC.
Hansen é uma figura proeminente no estudo de mudanças climáticas há tempos. Ele foi o primeiro a tornar a crise climática pública em seu testemunho no Congresso norte-americano na década de 1980. Ele tem um relacionamento complicado com o Governo Bush, que acusou, juntamente com a Nasa, em 2005 de tentar censurá-lo.
Arquivado em: Conhecimento livre, Ecologia urbana, Economia, Mundo, Outra política | Etiquetado: aquecimento global, Bush, Clinton, efeito estufa, George Mombiot, Hansen, NASA, petróleo, termoelétricas

