O Shopping Cidade Jardim foi inaugurado em São Paulo no dia 31 de maio. Ele veio se somar, com destaque, a outros como o Iguatemi e o Morumbi, que atendem a uma clientela seleta da sociedade brasileira.
O Shopping Cidade Jardim é o mais luxuoso dos 351 do país (e dos 51 da capital paulista), criando um ambiente refratário a pobres e negros – como muitos outros ambientes no quadrilátero sudoeste da cidade, o coração do mundo corporativo paulistano. Ele ganhou até mesmo “uma versão light da Daslu” (cuja loja “bunker”, como o próprio shopping, fica em frente, do outro lado do Rio Pinheiros)
representando, segundo o Estadão, “uma expansão significativa do comércio de luxo em São Paulo”. Afinal, o mercado de luxo, que movimenta mundialmente US$ 400 bilhões por ano, cresceu no Brasil 32% em 2006, enquanto o país crescia 3,7%. E os sinais desta explosão do luxo não diminuíram em 2007, com o crescimento de 5,8% do PIB. O volume de negócios ultrapassa os quatro bilhões de dólares.
Mas são negócios dirigidos ao 0,5% no topo da pirâmide de renda da população. No Brasil, segundo a última pesquisa da Merrill Lynch, divulgada nesta quarta, 25 de junho, pelo jornal Folha de S.Paulo, o Brasil ampliou seu número de milionários (pessoas com investimentos de mais de um milhão de dólares) para 143 mil pessoas, um crescimento de 19,1% a mais do que em 2006 (isso para 180 milhões de habitantes). Um trabalho de 2004 de Marcio Pochmann, “Os ricos no Brasil“, mostra que cinco mil clãs de famílias detêm partimôno equivalente a 40% do PIB anual do país (embora o país tenha 51 milhões de famílias). Em uma pesquisa entre 130 países, o Brasil é o segundo com a maior concentração de renda, atrás apenas de Serra Leoa! A herança escravista colonial nada tem de retórica na sociedade brasileira.
O mapa do luxo. Mônica Bergamo publicou, há um ano, na Folha de S.Paulo, uma matéria famosa, “O mapa do luxo”, apoiada em uma pesquisa feita pela MCF (consultoria de Carlos Ferreirinha, ex- presidente da Louis Vuitton no Brasil) – em que constatava que o luxo se expandia muito mais fora do eixo Rio-São Paulo. Em Recife, a “Daslu do Nordeste” é a “Dona Santa/Santo Homem”, “um palácio de quatro andares e 1.600 m2″ onde “a coleção de bolsas da Prada que aportou nas prateleiras em janeiro já foi toda vendida. Precinho: R$ 7.000. Clientes aguardam ansiosas pela chegada da coleção “spring/summer” …São 9.000 clientes cadastrados, de todo o Nordeste. ‘Ninguém da região precisa mais pegar um avião para fazer compras. Basta vir aqui. Temos os mesmos produtos que estão em São Paulo, Milão, Berlim, Nova York’, diz Lília Santos, a ‘Eliana Tranchesi’ do Recife… As melhores clientes chegam a gastar R$ 50 mil de uma vez”. Em Brasília, a “Daslu” local, a “Magrella”, oferece D&G, Armani, Lanvin e Prada por até R$ 15 mil. E três grifes internacionais planejam abrir lojas na cidade: Louis Vuitton, Diesel e Empório Armani. E Florianópolis “o luxo está concentrado no condomínio de Jurerê Internacional. Até quem já está acostumado com o maravilhoso mundo do esplendor e da suntuosidade paulistanos se espanta, por exemplo, com a quantidade de Ferraris nas ruas”.
É mirando-se nos herdeir@s dos senhores de escravos, exibicionistas e arrogantes, que os setores afluentes da sociedade (cujo tamanho varia, conforme os parâmetros adotados, entre entre 15% e 20% da população, qualquer coisa entre 30 ou 40 milhões de pessoas – aquelas que participam efetivamente dos benefícios da sociedade de consumo), fazem das compras seu ideal de felicidade, um ideal que depois ajudam a irradiar por todo o tecido social, até atingirem a base da pirâmide, os 50 milhões de atendidos pelo “Bolsa Família”.
Setores em expansão. Os carros são a mercadoria ícone do consumo supérfluo no Brasil como na China (o valor médio de compra de um automóvel na capital paulista passou de R$ 43 mil em 2006 para R$ 50 mil em 2008), ainda que agora eles possam ser comprados com financiamentos de até 99 meses (enquanto as taxas de juros voltam a subir). Na cidade de São Paulo foram licenciados, em março, 1.566 veículos por dia, 48.571 ao final do mês, o triplo de dois anos atrás! Numa Paulicéia afundada no trânsito, o prefeito Kassab ensaia até mesmo retomar algumas obras mirabolantes para a expansão do sistema viário, como se fosse possível reverter a tendência ao colapso com obras de engenharia! Serra, por sua parte, criou o Pro-Veículo, fornecendo créditos no valor de R$ 6,8 bilhões às montadoras – que também foram agraciadas com desonerações fiscais no valor de R$3,2 bilhões, como compensação do governo federal pela desvalorização do real frente ao dólar, 53% do pacote de desoneração fiscal da nova política industrial.
A construção civil também conhece um boom inédito em duas décadas, com anúncios de luxuosos condomínios ocupando as páginas dos grandes jornais (o Shopping Cidade Jardim, com toda sua decoração com pretensões ambientais, está no centro de um conjunto de dez torres de apartamentos residenciais e escritórios, cercada por uma verdadeira muralha medieval), e as licitações para as obras do PAC fazendo a festa das grandes empreiteiras. O crédito imobiliário cresceu 76% este ano e o setor de conjunto espera crescer 10% no ano.
E depois do celular (que já passaram dos cem milhões de linhas), o último objeto de desejo dos consumidores brasileiros é o computador, cujas vendas (em suaves prestações) devem atingir, em 2008, 13 milhões de unidades vendidas, mais do que as televisões (agora mais caros, com telas de plasma ou LCD), o que nos colocaria na quarta colocação em número de computadores, atrás apenas dos Estados Unidos, China e Japão, ultrapassando atual quarto colocado, o Reino Unido.
Negócios prósperos . Estas são algumas das formas pela qual a expansão recentíssima da economia brasileira, embalada pela elevação mundial dos preços dos minérios e dos produtos agropecuários e pelas descobertas recentes da Petrobras, aparece à sociedade brasileira. Lula se regozijou com o anúncio do crescimento do PIB em 5,8% em 2007: “o país se encontrou consigo mesmo”, afirmou para os empresários. Segundo o presidente, o Brasil chegou à “fórmula do desenvolvimento sustentável”.
Nas colunas de economia dos grandes jornais vemos os planos da Vale do Rio Doce para adquirir uma de suas grande concorrentes, da Ambev para fazer o mesmo, da CSN para também entrar no setor de mineração, das montadoras atingindo uma produção recorde de produção (para o mercado interno, apoiadas no crédito e nos subsídios governamentais, da Oi adquirindo a Brasil Telecom, das negociadas envolvendo a compra da Variglog, etc. A Petrobrás prepara-se, com as descobertas da Bacia de Santos, para ser uma das grandes petrolíferas do mundo (ultrapassou momentaneamente a Microsoft como terceira maior empresa das Américas), e seus negócios já estão irradiando no Brasil para a indústria naval, as refinarias, a petroquímica, etc. Os detalhes não importam: basta constatar que os cinco mil clãs de famílias estão vivendo um momento de glória. Para os participantes brasileiros do mundo das finanças globalizadas, em que o capital de propriedade de brasileiros subsiste como sócio menor na teia organizada grandes grupos globais, mas garantindo enormes lucros, o Brasil nunca foi melhor. A vida que visualizam pode ser um eterno consumir.
Expansão frágil. Mas o que está do outro lado da moeda? Como afirma Washington Novaes em uma matéria que publicamos recentemente neste blog, “mesmo com o panorama mais favorável, no ano passado nossas vendas ao exterior não ultrapassaram o baixo patamar vigente há mais de 40 anos (1,17% do total mundial). E 2009 poderá ser ainda mais difícil, com a previsão de queda do superávit comercial para menos da metade (Estado, 5/6), ante novo aumento nas importações. A julgar pelos dados até agora, o balanço de transações correntes tende a piorar (já foi negativo em US$ 10,75 bilhões no primeiro trimestre) e a remessa de lucros, a crescer (US$ 17,9 bilhões em 2007, ante US$ 3,1 bilhões em 2000). Só as remessas do setor financeiro foram a US$ 8,62 bilhões. Nesse contexto, a dívida pública interna – impulsionada também pela migração de títulos da dívida externa para a interna, dada a taxa de juros muito mais alta em vigor internamente – chegou em março a R$ 1,25 trilhão (47% do PIB) e só de juros foram pagos nesse mês R$ 12,56 bilhões (AE, 25/4). E com esse andar da carruagem a despesa com juros será, ao final de um ano, cerca de 15 vezes o maior investimento social do governo federal, o Bolsa-Família, que beneficia perto de 11 milhões de famílias”.
Mas Novaes lembra que isso é apenas do ângulo econômico/financeiro. Porque “temos pelo menos uns 30% da população vivendo abaixo da linha da pobreza, quase 60% dos trabalhadores na informalidade, nível de desemprego nas metrópoles pouco abaixo de 10%, quase 600 mil crianças empregadas em trabalhos domésticos. Por esses e outros índices, muitos estudiosos no mundo todo põem em questão avaliar o estado de uma nação apenas pela evolução do produto bruto. Ou a sustentabilidade dos modelos em que estamos vivendo no mundo todo, já que neste 45% da população vive abaixo do nível da pobreza, 800 milhões passam fome, dois terços das pessoas vivem sem carteira de trabalho ou registro de nascimento, 2 bilhões de pessoas no mercado informal de trabalho, e por aí adiante”.
O preço da terra atingiu níveis recordes (crescendo 16% em um ano), com a devastação da Amazônia avançando celeremente (40% da carne bovina e da soja já vêm da região). A situação no campo continua a se deteriorar, não apenas para a população de trabalhadores sem terra, mas também para os indígenas que tem suas terras cada vez mais cobiçadas (não apenas no Brasil, como nos países vizinhos). Mas a degradação das condições de vida nas grandes cidades é similar, com jovens, negros e pobres, sistematicamente atingidos pela violência de estado onipresente e indiscernível do crime organizado
Apesar de tudo isso, o cenário internacional reforça as prioridades “econômico/financeiras” que estão no centro da política do governo Lula: produção do etanol, bens agrícolas (soja, gado) e minérios para exportação; rápido aumento da produção automobilística (hoje na faixa dos 15% ao ano); expansão da produção de petróleo pela Petrobrás, visando transformar o país, hoje auto-suficiente, em um exportador do “ouro negro” e alavancando os setores industriais produtores de máquinas e equipamentos para extração, refino e transporte. Tudo isso está sendo feito sem mexer na estrutura de poder e na profunda desigualdade social que marca o Brasil, reforçando o poder dos latifundiários transformados em “agronegócio” e mantendo intocada a devastação da Amazônia (e de outros ecossistemas). Cana, soja, minérios e petróleo, mas também automóveis: está é a aposta de Lula e da burguesia brasileira, que buscam manter a estabilidade distribuindo bolsa-família para os 50 milhões mais miseráveis no país, evitando aqui os motins de fome, que estão pipocando pelo mundo afora.
Padrão global insustentável. A alta do petróleo, das matérias primas e dos alimentos é duradoura e estrutural. Sua raiz é a industrialização da Ásia continental e em especial da China, que cresce com uma enorme concentração de renda, seguindo o modelo estado-unidense. Novamente é Mônica Bergamo, quem ilustra, em um artigo publicado na Folha de S.Paulo de 8 de junho, “Shopping China“, como 310 mil famílias chinesas têm hoje patrimônio superior a um milhão de dólares, detendo 41% da riqueza daquele país – que tem hoje 17 lojas Louis Vuitton, 15 Gucci, 11 concessionárias Porsche (com cinco mil unidades vendidas em 2007), quatro Marc Jacobs, três Chanel, oito Prada e sete da Bentley. Pequim tem 87 shopping centers e, como lembra a colunista, de uma total de 1,4 bilhões de habitantes do país, 250 milhões estão ganhando hoje entre R$ 750 e R$ 1700, um poder de compras suficiente para, na China, considerá-los “classe média” – uma estrutura social com várias similaridades com a de certo país sul-americano.
Para o pensamento de Poliana da nossa elite, em um mundo com escassez crescente de recursos naturais, o Brasil teria, por fim, encontrado um lugar promissor na ordem da globalização neoliberal, fornecendo energia e alimentos para os que podem comprar no mercado mundial e mantendo-se internamente (e regionalmente…) estável graças à hábil política de gestão de populações do governo do Lula.
Ora, o binômio automóvel-petróleo e o agrobusiness predatório derivado da “revolução verde” (uso intensivo de maquinaria, fertilizantes, pesticidas e sementes selecionadas industrialmente, uma agricultura petróleo-intensiva), são os frutos tardios da tecnologia da chamada Segunda Revolução Industrial (como o são a aviação de massa e a energia nuclear). As opções do governo Lula estão no rumo contrário ao exigido para enfrentar a grande crise com que se confronta hoje o mundo, que demanda uma revolução energética (baseada em fontes de energias renováveis – eólica e solar e não etanol – capaz de substituir as termoelétricas a carvão dos chineses; a geração de energia é responsável hoje por 60% dos gases do efeito estufa lançados na atmosfera); exige o abandono do atual modelo de transportes privados baseado no petróleo em favor de outro baseado na energia elétrica renovável (atualmente 25% dos GEF provem da queima de combustíveis para mover a frota de um bilhão de veículos em circulação no mundo); aponta para os investimentos na economia de serviços e do conhecimento, economia da colaboração que só pode ser alavancada por uma redução substancial da jornada de trabalho assalariado; e precisa que o Brasil contenha o desmatamento na Amazônia (suas queimadas são responsáveis por 10% dos GFE).
Estas são demandas inseparáveis do equacionamento básico do problema da justiça e das desigualdades sociais, sem a qual não há economia pós-industrial e pós-consumista possível. Mas estes não são problemas que as classes dominantes hegemônicas nos principais atores globais se colocam não fazem parte do universo mental sequer do nosso presidente.
É emblemático que o Dia Mundial do Meio-Ambiente, em 5 de junho, foi ofuscado pela elevação do preço do petróleo, que teve, no dia seguinte, 6 de junho, a maior alta diária da história (quase US$ 11, em Nova York), atingindo o preço de US$138,54 o barril. E também pelo encerramento da Cúpula sobre Segurança Alimentar da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) em Roma. Esta conferência – alvo das preocupações de Lula em sua defesa dos biocombustíveis -, tinha sido convocada para discutir a crise provocada pela alta dos preços dos alimentos que pode fazer com que o número de famélicos no planeta salte dos 800 milhões atuais para mais de dois bilhões de pessoas, cerca de um terço da humanidade. Mas ela foi um grande fracasso, terminando sem que nada de concreto fosse decidido. Como afirma Plínio Sampaio em seu balanço do encontro os ricos perderam o medo dos pobres.
Esta é, também, uma boa descrição do que se passava na corte francesa na década de 1780.
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