Convergência digital, internet e conhecimento livre

É visível para todos que, depois de termos criado máquinas que multiplicaram a força e velocidade de nossos braços e pernas, a habilidade de nossas mãos, a precisão de nossos olhos, agora temos computadores que expandem nossos cérebros, ampliam nossa memória e multiplicam nosso conhecimento. E eles estão unidos, ligando um bilhão de pessoas em uma grande rede, a internet. A criação de riquezas, que antes se dava no campo e na indústria, agora ocorre cada vez mais pela produção de conhecimento nessa rede.

Esta nova inteligência coletiva multiplica a criatividade social, produz novos desejos e pode tornar nosso mundo mais diverso e humano. Enquanto na televisão assistimos passivamente imagens escolhidas pelos outros, agora podemos partilhar nossas idéias e sentimentos, podemos produzir e difundir nossas próprias imagens e pensamentos, podemos “fazer teve”. Conhecimentos, saberes e artes, antes caros porque tinham que circular em livros, discos e fitas, agora podem ser transformados em eletricidade e compartilhados, quase sem custos, com todos que tem acesso a rede de computadores.

No lugar do mundo do dinheiro, onde tudo é comprado e vendido, e da publicidade e do consumismo, que destroem a natureza e a base de toda a vida, podemos agora vislumbrar uma sociedade muito mais livre, uma sociedade da partilha, onde o bem-estar seja acessível a todos e a meta de felicidade não se reduza ao consumo de bens materiais, mas seja também o acesso à arte, ao conhecimento e a tudo que permita uma vida espiritual mais ativa, livre e gratificante.

O conhecimento sempre foi poder. Repartir o conhecimento é democratizar o poder, e isso encontra resistências poderosas. Poucos têm acesso ao novo mundo das redes, hoje no máximo dois de cada dez brasileiros, tornando nossa sociedade mais injusta, os ricos ainda mais ricos e os pobres relativamente mais pobres. Ter acesso ao mundo digital está se tornando tão importante para se ter uma vida decente quanto saber ler e escrever.

O acesso ao mundo digital não pode ser um privilégio dos que tem dinheiro, é um direito de todos, tão elementar quanto o direito à escola. É um direito que deve ser garantido em cada escola, para que as crianças cresçam com acesso ao conhecimento. Mas também criando condições para que cada casa possa estar conectada com as demais e com a nova inteligência coletiva das redes, podendo acessar livremente toda informação, arte e cultura digitalizada.

Inclusão digital não significa que as pessoas tenham que se sacrificar para comprar computadores, mas sim participar neste mundo onde todo o conhecimento pode ser transformado em eletricidade e distribuído quase grátis. Significa fornecer a tod@s ferramentas básicas para se educarem, se expressarem e se desenvolverem como pessoas.

Inclusão digital não é só ter um computador em casa, mas ligá-lo com todos os outros computadores, potencialmente (em um mundo justo) com todas as casas do mundo. Enquanto a Telefônica e a Rede Globo estiverem ganhando rios de dinheiro com isso, só uns poucos privilegiados vão poder pagar para terem acesso ilimitado ao conhecimento e à cultura. Essa deveria ser uma tarefa do estado em todos os níveis, a começar pela criação de redes abertas nos âmbito dos bairros e municípios.

Mas lembremos como isso poderia ser mais revolucionário do que o simples acesso à banda larga; significaria substituir também o telefone e a televisão tal como existem hoje. E interesses muito poderosos resistem a isso.

Novas formas de remuneração dos criadores. Algumas empresas querem que paguemos por cada palavra e imagem que hoje circula quase sem custo pela rede. Chamam isso de direito de propriedade intelectual – um absurdo, porque as idéias, uma vez que passem a circular não tem dono, têm no máximo criadores e cada vez mais criadores coletivos.

Chamam a difusão do conhecimento e da cultura de pirataria, como se fosse a mesma coisa roubar um livro ou um cd e fazer uma cópia de seu conteúdo – num caso, a pessoa fica sem; no outro, ela não perde nada e reparte seu conteúdo com outras pessoas. Conhecimentos são bens imateriais; se são compartilhados entre mais gente, tornam a sociedade mais rica e preparada. Só pessoas muito mesquinhas e egoístas pode querer privar a maior quantidade possível de pessoas do acesso ao conhecimento e a cultura. Estes são os verdadeiros piratas. Precisamos mostrar como a idéia de propriedade intelectual é bárbara, representando hoje uma regressão para a humanidade.

Um artista deve receber por seu trabalho criativo – o escritor por seu romance ou poema, o músico por sua obra. Mas antes o escritor precisava do editor e do livreiro para divulgar sua criação, como o músico precisava do produtor e da indústria fonográfica. Supondo que 7% do que pagamos fossem para os autores, estes intermediários sempre ficaram com pelo menos 93% de tudo que pagamos cada vez que compramos um livro ou um cd.

Mas agora os mercadores de cultura se tornaram desnecessários. Agora os escritores, poetas, músicos e cineastas não precisam mais destes intermediários, que enriquecem cobrando um pedágio caro que limita o acesso do povo à educação e à cultura. Novas formas de remuneração dos criadores devem ser introduzidas, mas é cada vez mais absurdo que tenhamos que pagar a verdadeiros parasitas para ter acesso não só à arte atual, mas a todo o saber produzido ao longo de milênios pela humanidade.

Uma revolução cognitiva. A atual onda de inovações tecnológicas não é apenas, como se costuma enfatizar, uma nova revolução industrial, embora novos produtos estejam sendo fabricados – computadores, celulares, scaners, impressoras, filmadoras. É também e principalmente uma revolução cognitiva para a humanidade, pelo menos tão profunda como a invenção da imprensa.

Ela impulsiona o desenvolvimento da ciência e o retorno dela para a sociedade na forma de novas tecnologias. E aprendemos que a ciência e a técnica não são algo externo à política, mas o resultado do investimento e das prioridades da sociedade – aquilo que hoje sociólogos chamam de reflexividade cada vez maior da sociedade moderna. Aprendemos que a ciência e a técnica são objetos de disputas políticas, talvez as mais importantes na sociedade atual.

Quando os movimentos camponeses combatem o patenteamento de sementes ou a questão dos transgênicos, não se estão discutindo o desenvolvimento de uma pesquisa científica neutra. Eles sabem que as sementes incorporam determinados valores e estão lutando contra as agrocorporações para direcionarem o progresso humano.

O mesmo acontece com o software livre ou com a transmissão de informações. As tecnologias adotadas nos próximos anos moldarão, por muitas décadas, as relações de poder na sociedade.

É por isso que lutar pelo conhecimento e pela cultura livres se tornou tão necessário, e a luta para permitir o acesso de todos ao mundo digital e eliminar o controle que alguns querem estabelecer sobre a difusão das idéias tão central. Todos, ricos e pobres, devem ter acesso à informação e à cultura!

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