Por Mariana Almeida
Basta ler as manchetes da Folha de S.Paulo e do Estado de S.Paulo desta quarta-feira, 28 de maio, para compreender a ojeriza da maioria da população em relação à política, sempre identificada com negociatas, corrupção, tráfico de influências, nepotismo e enriquecimento pessoal.
Frente a um cenário como esse é difícil manter qualquer esperança. Essa é a política que conhecemos. Mas é realmente com ela que temos que conviver? Não é possível escolhermos outra companhia?
Diz a Folha: “Lula dá alivio recorde a agricultores. Governo propõe renegociar R$ 75 bi em dívidas do setor agrícola; para produtores, pacote é avanço, mas insuficiente”.
Temos aqui a “grande política”. Os argumentos da crise mundial de alimentos, a prioridade do etanol para o governo Lula, a necessidade de acalmar a bancada ruralista e a base governista etc.
E afirma o Estado: “Pedida a cassação de Paulinho. Direção da Câmara aprova por unanimidade parecer que recomenda processo contra deputado”. E ao lado, “Gasto com vereador vai aumentar”: “A Câmara aprovou em 1º turno emenda à Constituição que aumenta em 7,5 mil o número de vereadores e acaba com o limite de gastos de pessoal nos legislativos municipais. Outro item pretende reduzir o repasse das prefeituras às câmaras”.
E aqui temos os pequenos interesses, os apetites mesquinhos. A Polícia Federal demonstrou com todas as provas possíveis e imagináveis que “Paulinho da Força Sindical” tinha um esquema de desvio de recursos do BNDES para uma ONG chamada Meu Guri, presidida por Elza Pereira, mulher do deputado. Corta-se rapidamente uma cabeça, apresentada de forma exemplar para a imprensa, para evitar que o fogo se espalhe. Mas ao mesmo tempo, as burocracias dos partidos querem ampliar seus efetivos, elevando o número de vereadores no país de 51.700 para 59.200 — iniciativa aprovada por 419 votos a favor e 8 contra!
Mas o que é a “grande política”? R$ 75 bilhões de dívidas dos ruralistas — descendentes dos senhores de escravos ou, por vezes, atuais escravocratas das zonas de fronteira agrícola — poderão ser renegociadas e quitadas com abatimentos de até 80% dos débitos. Só a execução dessas dívidas, em geral com o Banco do Brasil, poderia resolver boa parte dos problemas de terras para a reforma agrária; mas em nosso país a propriedade dos latifundiários transformados em agronegociantes é sacrossanta. O país tem donos, e essa singela manchete de jornal mostra quem eles são; naturalmente, associados com o capital financeiro, que remete os lucros desses agrotraficantes para o circuito das finanças mundiais.
Os donos do poder continuam sendo os donos da terra (cujo preço vem crescendo celeremente) graças a um pacto político que dá aos proprietários agrários um poder político desproporcional — um grotesco pacto federativo que dá ao voto de um morador do Acre um peso dezenas de vezes maior do que o de um morador de São Paulo e faz de José Sarney, ex-governador do Maranhão e ex-presidente, senador pelo Amapá.
O poder econômico e social dos latifundiários exercido no terreno macro-político como expressão imediata dos interesses de classe (R$ 75 bilhões) se materializa como micro-poder, como poder molecular em centenas de milhares de esquemas de clientela, cada vez mais vitaminados pelo Bolsa-Família e outras “estratégias de sobrevivência” e formas de dependência, em todos os municípios e distritos do país. Toda essa maquinaria solda de forma dinâmica os interesses dos distintos setores da burguesia — todas hoje financeirizadas, não custa repetir.
As práticas usuais do pessoal político da classe dominante nada têm a ver com a concepção da atividade política como prática cidadã — com as poucas exceções de praxe. É só em casos muito escandalosos que esta corporação aceita ceder um anel para não perder um dedo. E o Paulinho da Força nos lembra casos exemplares, como o do “mensalão”: Roberto Jefferson e José Dirceu cassados, enquanto dezenas de outros formalmente envolvidos, do baixo e alto clero (falou-se, na época, em mais de uma centena), eram absolvidos ou utilizavam vários subterfúgios para continuarem suas “carreiras políticas”.
Agora, é possível mudar o mundo sem política? A resposta é um taxativo não. Mas será necessária uma política que leve o povo para a esfera do poder, onde ele seja capaz de varrer do mapa todo esse sistema político, substituindo-o por outro onde a política seja a prática cidadã cotidiana daqueles hoje alienados. E onde a base social e econômica das elites atuais seja destruída e substituída por outro sistema econômico.
Só é possível destruir esta política e os políticos com outra política!
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