A propósito de uma entrevista de Umberto Eco

Recentemente foi publicada no jornal Folha de são Paulo uma entrevista com Umberto Eco, originalmente feita pelo jornal El País. É interessante, particularmente, quando fala da política itlaiana (e mundial) e da questão da informação. Diz Eco que a abundância de informação reduz a memória, que por sua vez seria a base da identidade. Mas como avaliar isso no mundo em que há tanta produção de conhecimento colaborativamente?

Dêem uma olhada nessa pergunta e resposta:

PERGUNTA – Tanta informação faz com que os jornais pareçam irrelevantes.
ECO – Esse é um de nossos problemas contemporâneos. A abundância de informação irrelevante, a dificuldade em selecioná-la e a perda de memória do passado -e não digo nem sequer da memória histórica. A memória é nossa identidade, nossa alma. Se você perde a memória hoje, já não existe alma; você é um animal.
Se você bate a cabeça em algum lugar e perde a memória, converte-se num vegetal. Se a memória é a alma, diminuir muito a memória é diminuir muito a alma.

Eu concordo com Eco, e no entanto, discordo… É interessante notar que diz a lenda que na babilônia um rei ficou preocupado com a invenção dos livros, pois a possibilidade de armazenar os livros nos fariam pessoas que esqueceríamos das coisas. Antes era necessário memorizar tudo, mas com os livros, bem poderia acontecer da memória ser reduzida, pois poder-se-ia sempre consultar nos livros. Umberto Eco, nesse caso, faz eco (perdão ao trocadilho) com essa lenda.

Mas o fato é que ele tem razão. Eu mesmo acho que sei menos português (pelo menos algumas grafias de palavras e regras de acentuação) do que sabia outrora, porque agora o “Word” me corrige se eu errar, e não me preocupo mais com isso. O mesmo deve acontecer com a internet. As novas gerações serão mais “estúpidas” individualmente, como também o somos se comparados aos antigos. Na Grécia Antiga, crianças eram obrigadas a memorizar todos os versos da Ilíada como parte da avaliação escolar da época!

Mas, por outro lado, coletivamente seremos mais inteligentes ou, pelo menos, mais sábios, na medida em que processos sociais colaborativos de armazenamento e produção de sabedoria sejam desenvolvidos. Obviamente isso implicará numa mudança do estatuto do indivíduo, na medida em que a base dela é solapada como bem argumenta Eco. Daí talvez tanta imaturidade política no mundo atual, que é organizado tomando por base as vontades do indivíduo atomizado. Mas quem sabe uma política resultado de uma vontade política coletiva oriunda de algum processo político colabroativo não possa resultar numa atuação política mais madura?

É , talvez, a aposta desse blog. Mas certamente exigirá mais reflexões até tornarmos isso mais claro, para uma avaliação mais precisa.

Uma resposta

  1. Tenho a impressão de que esse argumento do Eco já havia sido feito pela Hannah Arendt. Tendo a concordar, e acho que tem a ver com a importância da história para o homem.

    Mas acho que o alvo correto desse argumento não é o conhecimento produzido colaborativamente (e repare que nem o Eco diz isso), como você leu. Talvez o Eco até esteja se referindo à Internet como um amontoado de páginas pessoais desconexas (que é uma visão simplificadora, mas dá algum sentido para o argumento). O conhecimento produzido de forma colaborativa, no entanto, é um bocado diferente.

    O software livre e os wikis, como outros produtos colaborativos, têm memória e história (literalmente: é só ver as abas de “história” e “discussão” da Wikipedia). Como na memória humana, muitas coisas no software livre e nas wikis são descartadas durante o processo de desenvolvimento. Há um “produto final” (que é provisório e sujeito a modificações), definido de acordo com determinados interesses e interações sociais. Esses produtos podem ser abundantes, mas, por terem origem nesse tipo de interações sociais, não são “irrelevantes” (ao menos para os grupos que desenvolvem e / ou se beneficiam desses produtos).

    O alvo mais correto desse argumento, para mim, é a indústria cultural e congêneres. Olhemos uma banca de revistas, ou a página principal de um grande portal brasileiro. Quanto daquilo não está ali por um simples contrato de publicidade? Quanto do que está ali interessará à sociedade a ponto de ser mantido no nosso acervo cultural, de ser repassado às próximas gerações? Quando do que está ali será apropriado subjetivamente (como acontece na memória), e não apenas absorvido passivamente?

    Tirando silicone, comentário da novela, carro do ano e BBB, sobra muito pouco — vai quase tudo para o lixo depois de um ano, se tanto. Isso sim é “irrelevante” para a memória de que o Eco fala.

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