Holocausto social

Foto extraida da capa da Pesquisa Nacional Sobre a População em Situação de Rua do MDS e UNESCOTrês moradores de rua de Vitória foram assassinados [1] ontem em um bairro residencial da capital capixaba, outros três aparentemente conseguiram escapar do criminoso. A principal hipótese levantada pelos investigadores do crime é “limpeza social” (ou “higienização das rua”). Segundo a matéria, houve um alerta anônimo, antes de que acontecessem os assassinatos, sobre o risco que corriam essas pessoas.

Uma rápida pesquisa [2] no Google por “moradores de rua”, realizada hoje, às 11:33, trazia como primeiro resultado uma matéria [3] publicada no portal Terra.com.br (Brasil, Cidades), no dia 30 de abril, às 19:53, por Ricardo Brito. Na matéria, o autor faz referência à Ponte Estilingão [4], que será inaugurada em breve em São Paulo.

Em tom de alarmismo, o autor parece não acreditar que uma ponte que custou R$ 230 milhões, “mesmo antes da sua inauguração oficial, (…) abriga sob a sua estrutura um grupo de aproximadamente dez moradores de rua”. Nos últimos dois parágrafos do texto (de apenas três) o autor relata que o local é usado como ponto de uso de drogas e por fim se refere a dados da SSP/SP (Secretaria de Segurança Pública de São Paulo) levantados pela Polícia Militar (PM) que sustentam que um cruzamento próximo ao local (Av. Berrini com Av. Vladimir Herzog – também conhecida como Roberto Marinho [5]) é um dos mais perigosos da cidade de São Paulo.

A matéria, clara e descaradamente sugere que os moradores de rua, morando sob a ostensiva ponte construída exclusivamente para carros e motos, são consumidores de droga e também (e por isso) os responsáveis pelos altos índices de criminalidade na região. Ato contínuo, devem ser retirados do local, de preferência antes da inauguração oficial, o que eu acredito que é muito provável que aconteça tomando em consideração o perfil higienista do governo municipal (diga-se de passagem, desde a gestão anterior).

Em primeiro lugar, não sei que tipos de crime foram contemplados para calcular o índice de criminalidade da região, no entanto suspeito que o número de assassinatos seja muito baixo. Provavelmente a maior causa de morte nessa região sejam os acidentes de carro, de forma que a ponte, e não os moradores de rua vivendo sob ela, deveria ser responsabilizada pela violência que tomou conta do bairro. Ou então deveriamos responsabilizar os motoristas alcóolizados, na sua maioria jovens de classe média alta, que se divertem todos os dias até altas horas nos bares e discotecas próximos à ponte. Em segundo, duvido que essa seja das regiões mais perigosas de São Paulo. Talvez seja uma das regiões mais perigosas para “cidadãos com carros e celulares”, o que é um grupo muito particular (e reduzido) de habitantes de São Paulo, e ainda assim não estamos falando de risco de vida como “mais perigosas da cidade” parece indicar.

Segundo pesquisa [6] da UNESCO e do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), 70,9% dos moradores de rua exercem atividade remunerada (sendo as principais reciclagem – 27,5% – cuidador de carros – 14,5% – e construção civil – 6,35%), sendo que a maioria (52,6%) recebe entre R$ 20 e 80 por semana. Os que pedem dinheiro como principal fonte de renda representam somente 15,7% do total. Possuem algum estudo formal 67,1% dos entrevistados (a maioria 1º grau incompleto) e 74% deles sabem escrever. Não possuem carteira de identidade 41,1% deles. Problemas com drogas/alcóolismo são a minoria (35,5%) das razões apontadas pelos entrevistados para estarem na rua. Declararam não ter acesso a programas governamentais 88,5% e somente 30% fazem uso de albergues (mas 43,8% do total declararam que prefeririam dormir em albergues). Talvez esses dados ajudem os governantes, a tomar decisões de políticas públicas melhores do que simplesmente expulsar os moradores da rua e dos albergues [7] e a população a entender que morador de rua não é sinônimo de violência.

Parece evidente que está ressurgindo com força o pensamento higienista. Matérias como a publicada no portal Terra não são mais a excessão, são a regra, e seus leitores se não sentem nojo desse tipo de pensamento, são na maioria indiferentes ao que acontece com os moradores de rua, o que no final das contas dá no mesmo. Quando as matérias são sobre pessoas de classe média que tiveram seus carros roubados, o “rating” da notícia dispara e vira rapidamente uma das mais lidas na internet, mas isso já é chover no molhado. O fato é que enquanto a sociedade aceitar como “normal” o assassinato de moradores de rua, isso não deixará de acontecer e ninguém será preso por esse crime. Garanto que as mortes (e os crimes em geral) no Brooklin não diminuirão com isso, no entanto os moradores de rua estarão cada vez em maior perigo, ameaçados pela iminente inauguração do estilingue que, ameaçador, parece querer lançá-los para a periferia.

Referências:

1 Três moradores de rua são mortos a tiros em VitóriaFolha Online

2 “moradores de rua”Google Brasil

3 SP: ponte de R$ 230 mi abriga moradores de ruaTerra Notícias (BR)

4 Um monumento à sociedade do automóvelApocalipse Motorizado

5 Esta avenida “mudou” de nome!CMI Brasil

6 Pesquisa Nacional Sobre a População em Situação de RuaMDS

7 Kassab quer contrato para morador de ruaFolha Online

Uma resposta

  1. Como disse um amigo meu, “Pra que morar num apartamento de 200 mil se posso morar de graça numa ponte de 200 milhões?”

    Já havia lido essa matéria tosca, aqueles moradores foram expulsos para pontes mais próximas temporariamente, pois estão reformando toda a área embaixo da ponte para construir uma praça.

    Quanto a insegurança, passo ali todos os dias e os moradores da favela ao lado lucram muito mais vendendo bugigangas para os motoristas que levam 1 hora para percorrer um trecho de 3 km, do que assaltando os mesmos.

    Não é nem de longe um dos pontos mais violentos da cidade, pensamento higienista não é exclusividade do governo, muitos formadores de opinião e pessoas da classe média pensam assim e acabam por contaminar os políticos em que votam.

    Bela matéria.

    André Pasqualini

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